Perda de peso acelerada exige estratégias para preservar a massa muscular e acompanhamento especializado

Foto : Marcello Casal jr / Agência Brasil / CP
A evolução dos tratamentos para doenças metabólicas trouxe novas possibilidades para pacientes com diabetes tipo 2 e obesidade. Nos últimos anos, medicamentos que atuam sobre hormônios relacionados à saciedade e ao controle da glicemia passaram a ocupar espaço de destaque na medicina, com resultados comprovados no controle do diabetes e na redução de peso em pacientes com indicação clínica.
Conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, esses medicamentos ganharam enorme visibilidade que vai além dos consultórios, impulsionados principalmente pelos resultados expressivos de emagrecimento divulgados nas redes sociais. O aumento da procura, porém, também trouxe um novo desafio para especialistas: garantir que a perda de peso ocorra com preservação da qualidade corporal, especialmente da massa muscular.
Entre os pontos de atenção no que diz respeito a eventuais efeitos colaterais está a sarcopenia, condição caracterizada pela perda de massa muscular associada à redução de força e desempenho físico. Embora seja mais frequente com o envelhecimento, também pode estar relacionada a fatores como sedentarismo, baixa ingestão de proteínas e grandes reduções de peso.
Para o endocrinologista Luis Henrique Canani, professor do Serviço de Endocrinologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), o debate precisa ser feito com equilíbrio: os medicamentos representam um avanço importante no tratamento de doenças como diabetes e obesidade, mas exigem indicação adequada e acompanhamento para que seus benefícios sejam alcançados com segurança.
Medicamentos têm indicações específicas
Antes de discutir os efeitos relacionados à perda muscular, Canani chama atenção para uma confusão frequente: embora tenham ficado conhecidos pelo uso no emagrecimento, esses medicamentos possuem indicações e doses diferentes.
A semaglutida, por exemplo, está presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy. O especialista explica que o Ozempic é aprovado para o tratamento do diabetes tipo 2, enquanto o Wegovy utiliza a mesma molécula, mas em dose maior e com indicação específica para obesidade.
“O Ozempic não é para obesidade, ele é para diabetes. O Wegovy é a mesma semaglutida, do mesmo laboratório, mas foi aprovado para obesidade com uma dose diferente”, explica.
Já a tirzepatida, comercializada como Mounjaro, atua em dois mecanismos hormonais, GLP-1 e GIP, e possui indicações relacionadas tanto ao diabetes quanto à obesidade.
A diferença entre esses medicamentos, segundo o endocrinologista, reforça a importância de que a escolha da terapia considere o perfil de cada paciente, e não apenas o objetivo de perder peso rapidamente.
A perda muscular acompanha o emagrecimento
Uma das principais dúvidas em relação a esses tratamentos é se os medicamentos provocam diretamente a perda de massa muscular ou se ela acontece como consequência do próprio processo de emagrecimento. Segundo Canani, a resposta está principalmente relacionada à redução de peso. “Toda perda de peso vai levar à perda de massa muscular”, afirma.
O endocrinologista explica que, em muitos processos de emagrecimento, existe uma proporção esperada entre a quantidade de gordura e de massa magra perdida. Como referência, aproximadamente 3 quilos de peso perdido podem representar cerca de 2 quilos de gordura e 1 quilo de massa muscular. Essa relação, porém, ganha importância quando a redução de peso é muito expressiva.
“Quando eu tenho medicações muito potentes, que às vezes fazem o paciente perder 20% do peso corporal, essa proporção começa a ser mais importante do ponto de vista absoluto. Mesmo mantendo a mesma proporção, eu vou perder uma quantidade maior de massa muscular”.
Segundo ele, enquanto perdas de 5% a 7,5% do peso corporal já podem representar um resultado significativo em muitos tratamentos, alguns medicamentos atuais podem levar a reduções muito superiores.
O alerta, portanto, não está em uma ação isolada da medicação sobre o músculo, mas no impacto de um emagrecimento intenso, especialmente quando não há uma estratégia para preservar a massa muscular.
A nutricionista clínica e esportiva Katiuce Borges, mestre em Ciências do Movimento Humano e especialista em Fisiologia do Exercício, chama atenção para outro aspecto desse processo: a própria redução do apetite provocada pelos medicamentos pode dificultar a ingestão adequada de nutrientes, o que também ajuda a desencadear o problema.
Katiuce afirma que semaglutida e tirzepatida aumentam a saciedade e reduzem o apetite. Embora esse efeito seja fundamental para a perda de peso, a menor ingestão alimentar pode comprometer o aporte de proteínas e micronutrientes essenciais, além de reduzir o consumo de fibras e líquidos.
“A combinação de déficit energético acentuado, baixa ingestão proteica e ausência de treinamento de força merece atenção especial por favorecer a perda muscular, principalmente em indivíduos com maior risco de sarcopenia”, explica ela.
Nem toda perda de massa muscular significa perda de função
Apesar da preocupação, o endocrinologista destaca que os estudos sobre o tema ainda apresentam dados que precisam ser melhor compreendidos.
Algumas pesquisas avaliaram tanto a quantidade de massa muscular quanto a capacidade funcional dos pacientes e encontraram um resultado aparentemente contraditório: pessoas que perderam massa muscular apresentaram melhora na função. “Apesar de perder massa muscular, a funcionalidade melhora quando tu avalias a função do músculo”.
Segundo Canani, isso pode ocorrer por diferentes motivos. Um deles é que alguns métodos utilizados para medir massa muscular podem não representar completamente a qualidade do músculo. Outro é que a redução significativa do excesso de peso pode facilitar a realização de atividades no dia a dia.
“Às vezes o paciente tem menos massa muscular, mas pesa muito menos e consegue desempenhar melhor as funções”.
Ainda assim, existe um grupo em que essa perda muscular merece atenção maior, especialmente aqueles que já apresentam algum comprometimento antes do início do tratamento.
Quem precisa de mais atenção durante o tratamento?
Embora a perda de massa muscular possa ocorrer em diferentes processos de emagrecimento, alguns pacientes apresentam maior risco de desenvolver um quadro em que a redução muscular compromete força e funcionalidade.
Segundo Canani, os grupos que mais exigem atenção são os idosos e aqueles que já apresentam algum grau de perda muscular antes mesmo do início do tratamento.
“Existe um grupo em que talvez essa perda de massa muscular seja mais importante e cause realmente sintomas de sarcopenia. Esse grupo é basicamente pessoas de mais idade, acima dos 65 anos, e pessoas que já têm um grau de sarcopenia prévio”.
O endocrinologista também destaca uma situação conhecida como obesidade sarcopênica, quando o paciente apresenta excesso de gordura corporal, mas já possui redução de massa muscular.
“Nesses pacientes, é extremamente importante avaliar antes de começar o tratamento se eles já têm algum sinal de sarcopenia, porque esse é o paciente que a gente tem que se preocupar mais com a perda de massa muscular”.
A avaliação inicial permite identificar quem pode precisar de atenção maior durante o processo de emagrecimento para a partir dela adotar medidas preventivas antes que surjam limitações funcionais.
Avaliação antes e durante o tratamento ajuda a identificar riscos
A investigação de risco para sarcopenia pode começar com avaliações simples realizadas no consultório. Entre elas estão a medida da circunferência da panturrilha e testes funcionais, como levantar da cadeira sem apoio dos braços, caminhar 4 metros em determinado tempo ou observar dificuldades para realizar movimentos cotidianos. “Se o indivíduo mostra alguma dificuldade com isso, é aquele paciente que eu tenho que me preocupar, porque ele está em maior risco”.
Também existem exames capazes de auxiliar na avaliação da composição corporal, como bioimpedância e densitometria, embora Canani ressalte que cada método possui limitações e precisa ser interpretado dentro do contexto clínico. A ideia não é avaliar apenas quanto peso o paciente perdeu, mas entender que tipo de peso foi perdido e como está a capacidade funcional.
Para Katiuce, o acompanhamento nutricional segue a mesma lógica e deve ir além da balança. Composição corporal, força muscular e ingestão alimentar precisam ser avaliadas conjuntamente.
“Na prática, isso pode incluir o acompanhamento da massa de gordura e da massa livre de gordura por métodos padronizados, como DXA, bioimpedância ou antropometria. A força de preensão palmar, conhecida como handgrip, também pode ser utilizada como uma medida simples para acompanhar a força muscular”, explica.
Além disso, é importante monitorar a ingestão de proteínas, a quantidade total de energia e os micronutrientes, bem como sintomas gastrointestinais que possam comprometer a alimentação. “A perda muito rápida associada à queda de força, piora funcional ou redução acentuada de massa magra merece atenção”, afirma a nutricionista.
Mulheres podem ter maior perda de massa muscular
Quando analisada a diferença entre homens e mulheres, estudos indicam que elas podem apresentar uma redução maior de massa muscular durante tratamentos que levam à perda de peso.
Segundo Canani, dois fatores ajudam a explicar essa diferença. O primeiro é que, em pesquisas com esses medicamentos, as mulheres costumam apresentar uma resposta maior em relação à redução de peso.
“Em todos os estudos com essas medicações, as mulheres respondem mais, elas perdem mais peso que os homens. A gente ainda não sabe exatamente por quê, se é uma questão hormonal, relacionada ao estrogênio, à testosterona ou outros fatores”.
O segundo fator está relacionado à composição corporal. “A mulher tem menos massa muscular que o homem. Então ela sai de uma massa muscular menor e perde mais peso. Com isso, vai perder mais massa muscular”. O endocrinologista ressalta, entretanto, que ainda não está totalmente definido se essa maior perda se traduz necessariamente em mais sintomas.
“Os questionários de qualidade de vida mostram que elas melhoram muito, provavelmente porque perder peso traz muitos benefícios. Mas, do ponto de vista objetivo, sim, elas têm mais chance de ter uma perda de massa muscular mais importante”.

Sinais de alerta vão além do número na balança
Durante um processo de emagrecimento, a atenção não deve estar apenas no peso perdido, mas também na capacidade de manter força e autonomia.
Alguns sinais podem indicar comprometimento muscular:
- Dificuldade para levantar da cadeira sem usar os braços;
- Maior cansaço para atividades simples;
- Dificuldade para subir escadas;
- Redução da força nas mãos;
- Dificuldade para abrir objetos ou carregar peso;
- Perda de equilíbrio e quedas frequentes.
Canani ressalta que esses sinais não são exclusivos da sarcopenia, mas indicam que o paciente deve ser avaliado. “O mais importante talvez seja fazer essa avaliação antes do tratamento. Eu já tinha uma perda? Eu já estava no limite da normalidade? Isso faz toda a diferença”.
Para o especialista, quando o paciente inicia o tratamento em boas condições musculares e com acompanhamento adequado, a chance de complicações relacionadas à perda de massa muscular é menor.
Proteína e treino de força são estratégias para preservar a musculatura
A prevenção da perda muscular durante o emagrecimento depende de uma abordagem que vai além da medicação. Segundo o endocrinologista, duas medidas são fundamentais: garantir uma ingestão adequada de proteínas e manter uma rotina de atividade física, especialmente exercícios de resistência.
Com a redução do apetite provocada por esses medicamentos, alguns pacientes podem diminuir significativamente a quantidade de alimentos ingeridos. Nesse processo, um dos nutrientes que pode acabar ficando em menor quantidade na dieta é justamente a proteína.
“Às vezes o paciente diminui muito a alimentação, mas ainda come um pouco de carboidrato, come outras fontes, e diminui muito a proteína. E isso é importante: a gente precisa ter um aporte proteico interessante”. A recomendação envolve fontes como leite e derivados, carnes, peixes, frango e ovos, sempre considerando as necessidades individuais de cada paciente.
Para Katiuce, a estratégia alimentar deve buscar um déficit calórico moderado, evitando restrições energéticas agressivas, ao mesmo tempo em que mantém uma ingestão proteica adequada e associa o tratamento ao treinamento de força.
As diretrizes atuais, segundo a nutricionista, recomendam uma ingestão de aproximadamente 1,2 a 1,6 grama de proteína por quilo de peso corporal ao dia, distribuída em pequenas porções. A quantidade deve ser individualizada de acordo com características como idade, composição corporal, peso e nível de atividade física.
“Uma das estratégias é priorizar a proteína no prato antes de qualquer outro alimento e distribuí-la em porções de aproximadamente 25 a 40 gramas por refeição, já que o volume alimentar pode estar reduzido”, justifica ela.
Além da alimentação, o exercício físico tem papel central. Qualquer tipo de atividade física é interessante, mas as atividades de resistência são as que mantêm mais ou até ajudam no ganho de massa muscular.
Exercícios como musculação ou treinamento de força estimulam a manutenção e o desenvolvimento da musculatura, além de contribuírem para o próprio processo de emagrecimento.
Segundo o endocrinologista, acompanhar a composição corporal também pode ajudar a avaliar a qualidade do resultado obtido. “Às vezes o paciente perdeu peso, perdeu gordura, mas conseguiu manter ou até ganhar um pouco de massa muscular. São números pequenos, mas fazem toda a diferença no dia a dia”.
Quando o apetite diminui, qualidade nutricional ganha importância
A redução do volume alimentar pode tornar a escolha dos alimentos ainda mais importante durante o tratamento. Segundo Katiuce, quando há pouco apetite, a estratégia é aumentar a densidade proteica sem elevar excessivamente o volume das refeições. O foco deve estar inicialmente em fontes de proteína de alto valor biológico e boa digestibilidade, distribuídas em pequenas refeições ao longo do dia. Entre as opções estão ovos, iogurte grego ou proteico, leite e derivados, queijos magros, peixes, frango e carnes magras.
Quando o volume alimentar se torna uma limitação importante, proteínas isoladas, como whey protein ou outros suplementos proteicos, podem ser utilizadas como ferramentas para complementar a ingestão. A nutricionista ressalta, porém, que esses produtos não devem substituir sistematicamente uma alimentação adequada.
Em pacientes que apresentam náuseas ou desconforto gastrointestinal, porções menores e mais frequentes, preparações simples e com menor teor de gordura tendem a ser mais bem toleradas.
“O ponto principal é individualizar conforme a tolerância gastrointestinal. Não adianta estabelecer uma meta elevada de proteína se o paciente não consegue consumi-la”, observa ela.
Nesses casos, a prioridade é garantir o maior aporte proteico possível dentro do volume e da tolerância do paciente, com ajustes progressivos da dieta.

A perda muscular pode ser recuperada
Caso ocorra uma redução significativa da massa muscular durante o processo de emagrecimento, a recuperação é possível, especialmente quando há mudanças de hábitos associadas. Canani explica que a preservação ou recuperação muscular pode acontecer inclusive durante o uso do medicamento. “Não é que o remédio vai fazer perder. Eu consigo manter isso super bem se trabalhar essas medidas: um bom aporte de proteína na dieta e atividade física”.
Já para Katiuce, uma perda significativa de massa muscular exige a reavaliação de toda a estratégia de emagrecimento. É necessário verificar se o déficit calórico está excessivo, adequar a quantidade e a distribuição das proteínas e garantir hidratação adequada.
“Também pode ser necessário avaliar a ingestão de micronutrientes e, quando indicado, realizar reposição, com atenção para nutrientes como ferro, cálcio, magnésio, zinco e vitaminas D e B12, entre outros. A qualidade e a quantidade do sono também devem ser consideradas no cuidado global”, explica a nutricionista.
O ajuste nutricional, segundo ela, precisa estar associado a um treinamento de força progressivo e individualizado. “A perda muscular não vem do medicamento em si, e sim das falhas alimentares e da falta de treinamento regular. Por isso o acompanhamento durante o processo é tão importante”, afirma.
Após a suspensão do tratamento, porém, existe outro desafio: a manutenção do peso perdido. O endocrinologista ressalta que estudos mostram que uma parcela significativa dos pacientes recupera parte do peso após interromper o uso dessas terapias. “Cerca de 80% das pessoas que param o remédio, em seis meses a um ano, recuperam o peso. Só 20% conseguem manter uma perda de peso significativa”.
Esse cenário reforça um conceito cada vez mais consolidado na medicina: a obesidade é uma doença crônica e precisa de estratégias de longo prazo. “O mesmo raciocínio vale para hipertensão. Se eu paro o remédio, a pressão vai continuar boa? Muitas vezes não. A obesidade envolve genética, alimentação e estilo de vida. Se essas coisas não mudarem, o peso tende a voltar”.
Por isso, a discussão atual na área não está apenas em como promover a perda de peso, mas em como manter os resultados alcançados com segurança.
O risco do uso sem indicação e sem acompanhamento
Apesar dos benefícios comprovados desses medicamentos, o uso fora das indicações aprovadas e sem acompanhamento adequado é uma preocupação entre especialistas.
Segundo Canani, o acompanhamento permite identificar pacientes que possuem maior risco de perda muscular, além de avaliar outras condições que podem interferir na segurança do tratamento. “É importante identificar pessoas que tenham outras comorbidades, situações em que essa saúde muscular já esteja debilitada, além de contraindicações que não são apenas musculares”.
Outro ponto de atenção é o acesso a produtos de origem desconhecida, adquiridos fora dos canais oficiais. Com o aumento da procura, também cresceu um mercado paralelo de medicamentos cuja procedência, concentração e armazenamento podem não seguir os padrões necessários.
O endocrinologista cita análises que identificaram problemas em produtos comercializados de forma irregular. “Não é só ter a molécula. É preciso ter a dose correta, controle de qualidade adequado”.
Conforme ele explica, algumas amostras apresentaram variações importantes na quantidade do princípio ativo, além de impurezas. O armazenamento e o transporte inadequados também podem comprometer a eficácia e a segurança do medicamento. “Não adianta o medicamento ter o princípio ativo se ele foi transportado de uma maneira que pode alterar sua atividade”.
Novas terapias buscam equilibrar perda de peso e preservação muscular
O avanço dos tratamentos para obesidade também trouxe uma nova frente de pesquisa: desenvolver estratégias que permitam reduzir gordura corporal sem comprometer, ou até favorecendo, a manutenção da massa muscular.
Segundo Canani, algumas medicações com esse objetivo já estão sendo estudadas, mas ainda não fazem parte da prática clínica. “Existem medicamentos sendo testados com esse objetivo: não só manter a massa muscular, mas aumentar a massa muscular. Isso aumenta o gasto energético e acaba ajudando na perda de peso”.
O médico afirma que essas futuras terapias provavelmente não serão destinadas a todos os pacientes, mas poderão ter aplicações específicas. “Eu acho que não vai ser para todo mundo. Vai ser um nicho bastante selecionado. Não é para pensar: agora eu não vou fazer exercício, não vou fazer dieta, vou só dar remédio’.
Para ele, o objetivo da pesquisa é encontrar alternativas para pacientes que, por diferentes motivos, como limitações físicas ou outras doenças associadas, apresentam maior dificuldade para preservar a musculatura.
O desafio é combater a busca por uma solução rápida
Canani acredita que um dos maiores desafios atuais é a mudança de percepção sobre medicamentos que foram desenvolvidos para tratar doenças e passaram a ser associados a uma solução estética imediata. “Existe uma banalização. Se eu usar sem uma indicação precisa, os riscos talvez sejam maiores que os benefícios”.
O endocrinologista destaca que a preocupação não está no uso correto dessas terapias, mas na utilização sem avaliação, muitas vezes motivada apenas por objetivos pontuais. “A gente vê isso muito frequente; eu tenho um casamento daqui a dois meses, preciso perder tantos quilos para as fotos, para o vestido. Depois, não precisa mais”.
Para ele, esse tipo de uso acaba deixando em segundo plano medidas fundamentais para a saúde. “Estamos trocando medidas extremamente saudáveis e importantes, como uma alimentação adequada e atividade física regular, pela medicação”.

Medicamentos eficazes exigem uso responsável
As chamadas “canetas emagrecedoras” representam uma das principais evoluções recentes no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Entretanto, como qualquer terapia médica, precisam ser utilizadas dentro de critérios definidos, considerando as características de cada paciente.
A preocupação com a sarcopenia reforça um ponto central: o emagrecimento saudável não deve ser medido apenas pela redução do peso na balança, mas também pela preservação da força, da autonomia e da qualidade corporal.
Alimentação adequada, treinamento de força e acompanhamento profissional são estratégias que ajudam a garantir que a redução do peso seja acompanhada de uma melhora efetiva da saúde e da composição corporal.
Para o endocrinologista, o caminho é equilibrar os benefícios desses tratamentos com uma estratégia completa de cuidado. “O problema não é o medicamento. São tratamentos muito importantes para a obesidade e para o diabetes. O problema é o uso indiscriminado”.
O que é necessário saber para preservar a massa muscular durante o emagrecimento?
Manter ingestão adequada de proteínas: Carnes, peixes, ovos, leite e derivados são fontes importantes para a manutenção muscular. A quantidade deve ser individualizada de acordo com idade, peso, composição corporal e nível de atividade física;
Praticar exercícios de resistência: Treinos de força, como musculação, ajudam a preservar e estimular a musculatura;
Evitar restrições alimentares excessivas: Déficits calóricos muito agressivos podem aumentar o risco de perda de massa muscular;
Garantir hidratação e sono adequados: Além da alimentação e do exercício, hidratação e descanso adequado fazem parte da estratégia de preservação muscular;
Avaliar a composição corporal: O acompanhamento permite entender se a perda de peso está ocorrendo principalmente pela redução de gordura ou também por perda muscular significativa;
Monitorar força e desempenho físico: Alterações na força, no equilíbrio, na capacidade funcional ou no desempenho durante atividades cotidianas podem indicar a necessidade de reavaliar a estratégia;
Identificar pacientes de maior risco: Idosos, pessoas com baixa massa muscular prévia e pacientes com obesidade sarcopênica precisam de atenção especial;
Individualizar a alimentação: Quando o apetite está reduzido ou há náuseas e outros sintomas gastrointestinais, pequenas refeições com maior densidade proteica podem ajudar a atingir as necessidades nutricionais sem aumentar excessivamente o volume alimentar.