Estrutura física, condicionamento e comportamento diferenciam os border collies destinados à atuação tanto com bovinos quanto com ovinos

Foto : Diego Paz / Divulgação / CP
Os border collie apresentam aptidão para a lida campeira, mas há uma distinção entre aqueles que trabalham com ovinos e aqueles destinados ao manejo com bovinos. A diferenciação não é apenas estrutural, aspectos comportamentais também são avaliados.
“Um cão pode trabalhar muito bem com ovelhas, mas isso não significa que ele poderá trabalhar com alta eficiência no gado, porque, diante de um animal maior, ele pode sentir um pouco mais a pressão. Então, ao longo do tempo, no Brasil e em outros países, foi feita uma seleção de cães para gado”, explica o zootecnista Fredy Gonzalez, que atualmente também é secretário-geral da Associação Border Collie Mercosul, entidade gaúcha vinculada à associação brasileira da raça.
“Na minha opinião, são cães com um pouco mais de estrutura óssea, estrutura muscular e atitude psicológica. Se uma vaca com um terneiro tentar intimidá-lo, ele precisa sustentar sua posição e, se necessário, educar essa vaca. Depois desse condicionamento, ocorre um equilíbrio entre os dois. Há um respeito recíproco, a vaca respeita o cão e o cão respeita a vaca”, salienta.
Essa cooperação é fruto de uma admiração mútua, do peão por seu cão, e do animal por seu condutor. O cachorro aparece como um trabalhador, com responsabilidades e expectativas ligadas ao que se espera desse companheiro de trabalho.
Para seus funcionários no campo, Gonzalez realiza capacitações voltadas ao manejo dos cães. “A gente ensina o respeito pelo cão, o amor que a gente tem que ter, o respeito na questão de que ele tem opções, de que ele também sente. Que, apesar de ser um cão de trabalho, ele também gosta de receber carinho, uma voz suave, um aconchego”, diz.
Além da seleção de cães para o trabalho, são realizados cursos de adestramento nas Fazendas Montenegro, onde os animais são direcionados para a lida.
“Border Collie de pastoreio é um cão que é selecionado tanto na sua linha superior paterna quanto na sua linha inferior materna para trabalho. É um cão selecionado exclusivamente para o trabalho com rebanhos. Então, o tempo todo ele quer trabalhar com rebanho, de dia e de noite”, conta Gonzalez sobre a natureza desses companheiros.
Ovelheiro gaúcho é patrimônio do RS
Reconhecido como patrimônio genético e cultural do Rio Grande do Sul, o ovelheiro gaúcho compartilha do mesmo ancestral do border collie e é utilizado para o pastoreio, adaptado às condições locais.
“Todas as raças pastoras, o próprio Border Collie, o Rough Collie, o Shetland, todas as raças do tipo Collie vieram da Escócia. Que seria o old time scotch, o mais antigo de todos, a base genética de todas as outras raças. O ovelheiro nada mais é do que a casta brasileira do antigo tipo collie”, explica Diego Paz, proprietário do canil Santa Terezinha, em Rio Pardo.
Desde os tempos do avô, proprietário da fazenda que dá nome ao canil, os ovelheiros são empregados no manejo dos rebanhos bovinos destinados à pecuária de corte. “Os nossos cães sempre foram ferramentas de trabalho na propriedade. Então, quando eu nasci, o meu pai e o meu avô já tinham esses cães para o trabalho. Posso dizer que não fui eu que os escolhi, foram eles que me escolheram”, conta. Há cerca de 13 anos participam de exposições e competições, realizando a seleção funcional e morfológica dos cães.
Com o corpo ligeiramente maior que o de um border collie, a raça se moldou a partir das tropeadas no Estado. Durante essas expedições, eram percorridas longas distâncias com os rebanhos. Os ovelheiros conduziam esses animais através de estímulos sonoros. Diferentemente do border collie, o ovelheiro tem aptidão para longas jornadas e conduz o gado com seus latidos.
“Isso não quer dizer que um border collie não possa fazer serviço de tropeada, e não quer dizer que um ovelheiro também não possa fazer o serviço de arrebanhar o gado, mas seriam funcionalidades um pouquinho distintas que vão diferenciando uma da outra”, explica Paz.
Além da comercialização interna e da seleção dos animais, o canil de Diego Paz realiza exportações da raça gaúcha. Para os Estados Unidos, já foram enviados exemplares destinados ao trabalho nas fazendas do interior de estados como Kentucky e Virgínia. Porém, a raça ainda não foi reconhecida oficialmente pela Federação Internacional de Cinofilia, na Bélgica, mas Paz se mostra otimista: “Já está em processo de reconhecimento e, ao que tudo indica, na melhor das hipóteses, vai ser para o próximo ano”, diz.
Desde 2000, a Confederação Brasileira de Cinofilia reconhece o ovelheiro gaúcho como uma raça específica e, 20 anos depois, a raça que surgiu nos pampas foi reconhecida pela Assembleia Legislativa do Estado como um símbolo, patrimônio genético e cultural.
“Existem criadores que querem resgatar esse antigo tipo e eles dizem que o ovelheiro é o fenótipo mais fidedigno ao antigo, justamente porque aqui a gente trabalha com o gado, pois ainda existe a pecuária tradicional no Rio Grande do Sul”, conta o produtor.
Fonte: Correio do Povo