Locais onde houve arraste da camada superficial do solo são considerados mais preocupantes por pesquisadores da Embrapa

Foto : José Schafer / Emater/RS-Ascar/ CP
Dois anos após as enchentes que atingiram o Estado em 2024, foram apresentados novos dados sobre os impactos do desastre nos solos agrícolas e nas áreas de preservação permanente do Estado. As informações foram divulgadas nesta terça-feira (9), durante o evento Balanço Recupera Rural RS: 2 anos de reconstrução da agropecuária gaúcha, realizado pela Embrapa.
Segundo o pesquisador da Embrapa e coordenador do projeto Recupera Rural RS, Ernestino Guarino, algumas propriedades podem apresentar boa capacidade produtiva, enquanto outras enfrentam desafios maiores para restabelecer as condições anteriores às enchentes.
“Algumas situações são mais difíceis de restaurar o solo como era antes, mas conseguimos aliviar parte desse prejuízo utilizando técnicas adequadas de recuperação e conservação”, afirmou.
A recuperação mais lenta acontece principalmente em áreas onde houve arraste da camada superficial do solo, considerada a mais fértil. Nesses casos, o processo pode levar vários anos e, em algumas situações, a produtividade anterior pode não ser totalmente recuperada.
“As áreas de preservação permanente desempenham papel fundamental na regulação hídrica, na proteção dos recursos naturais e na redução dos impactos de eventos extremos”, destacou Guarino. A nota técnica que trata das Áreas de Preservação Permanente (APPs) hídricas identificou cerca de 4,46 milhões de hectares dessas áreas no Rio Grande do Sul.
‘Não estamos 100% preparados’
De acordo com o pesquisador, houve avanços na capacidade do Estado de enfrentar futuras crises climáticas, mas ainda está longe de estar totalmente preparado.
“Estamos melhor preparados do que estávamos antes, mas 100% preparados não. Nós ainda não conseguimos nem nos recuperar completamente do que aconteceu em 2024.”
Entre os resultados apresentados está a identificação de 550,4 mil hectares de solos atingidos pelas enchentes em 94 municípios gaúchos. De acordo com o pesquisador da Embrapa Clima Temperado Adilson Bamberg, os danos variaram desde processos erosivos em áreas mais altas até acúmulo de sedimentos em regiões alagadas.
“Algumas áreas receberam perdas significativas de solo, enquanto outras tiveram deposição de sedimentos. Dependendo do tipo de material depositado, a recuperação pode ser mais rápida ou mais lenta”, diz.
O que está sendo feito e os desafios
Nas áreas que receberam sedimentos finos, com argila e nutrientes, a recuperação tende a ocorrer de forma mais acelerada. Já locais cobertos por camadas mais grossas de areia exigem medidas mais complexas, como explica Bamberg, “a gente vem fazendo um trabalho de desenvolvimento de novas combinações de plantas de cobertura para encontrar as melhores combinações de plantas para essa situação. Combinado com insumos inovadores como, por exemplo, novos condicionadores de solo para recuperação desses solos. E finalmente, essas áreas agrícolas nas partes mais altas que sofreram erosão, trabalhamos no reordenamento territorial e reordenamento hidrológico.”
Apesar dos avanços observados em algumas regiões, ainda não é possível determinar exatamente quanto da área atingida já foi recuperada.
“Esses solos podem demorar até vários anos para obter uma nova capacidade produtiva e, muitas vezes, devido à perda de espessura, eles podem não atingir o mesmo patamar produtivo que tinham anteriormente”, conta.
Para o pesquisador, um dos principais desafios da reconstrução é ampliar a conscientização sobre os impactos das mudanças climáticas e a necessidade de práticas de conservação no manejo do solo.
“É preciso criar um novo nível de conscientização para um manejo mais racional e conservacionista, voltado para a conservação do solo a longo prazo e para a construção de sistemas mais resilientes.”
Cenários para o El Niño
Os estudos apresentados irão possibilitar a criação de cenários, que, com a chegada do El Niño, podem indicar áreas rurais que necessitam de cuidados. Adalberto Miura, pesquisador da Embrapa Clima Temperado explica que “não é um sistema de alerta, mas sim condições prognósticas para tomada de decisão. Seja para o gestor ambiental, agropecuário ou produtor rural. Além disso, vamos gerar uma nova nota técnica, onde vamos apresentar quais são os solos prioritários ou as áreas prioritárias para conservação de solos aqui no Estado e também onde são as áreas que mais vulneráveis, o que vai resultar ao final as áreas prioritárias, para restauração ou conservação.”
Fonte: Correio do Povo