Jornalista de Vera Cruz gera o produto a partir de 100 pés para comercialização. Primeira edição colocada à venda foi chamada de ‘Impossível’

Foto : Rodrigo Assmann / Divulgação / CP
Jornalista, via de regra, tem o hábito de gostar muito, mas muito de consumir um quente, forte e saboroso café, sobretudo no ambiente de redação. Pois o jornalista Diego Weigelt, que também é escritor, não apenas aprecia um cafezinho, como se tornou um cafeicultor. Já seria algo surpreendente um não agricultor investir neste setor. No caso dele, é ainda mais inusitado, pois a produção se dá no Rio Grande do Sul, um ambiente nada propício à cultura que ama calor e detesta geada.
Além disso, a investida não é em uma iniciativa artesanal, de paixão por meia dúzia de pés: Weigelt e os pais mantêm um cafezal de 700 pés, dos quais uma centena já está em produção e gera de 30 a 50 quilos brutos (frutos) por ano, na localidade de Alto Dona Josefa, em Vera Cruz, na região que é o coração de tabaco no Estado.
Tudo começou com uma demissão como professor universitário em 2021, na pandemia. “Eu tive que, de alguma forma, me reinventar, pensar em alguma coisa e tal”, concluiu. No ano seguinte, ele e os pais adquiriram uma propriedade de 2 hectares, anteriormente produtora de tomate orgânico e também tomada pela capoeira. Assim, nas roçadas de limpeza empreendidas por ele e o pai, se depararam com uma planta estranha.
“A gente não conhecia, nunca tinha visto um pé de café mesmo. Colocamos os grãos na boca e, quando eles se dividiram, determinamos que ali era café mesmo”, descreve. A confirmação de vez se deu com os frutos torrados e processados que geraram a bebida: era café.
“A partir disso, resumindo a história, a gente começou com mais ou menos uns 5 pés, foi para 7, 8, para 100, para 200. Hoje a gente tem plantado 700 pés de café”, relata.
Ou seja, assim começou a odisseia do jornalista e escritor com a cultura que, em tese, não se imagina sendo desenvolvida em escala, além de uma forma caseira, na diversificada agricultura gaúcha. “Na verdade, eu nunca imaginei trabalhar com o café”, revela. Mais do que “trabalhar” com a cultura, o escritor percorreu 16 mil quilômetros pelo Brasil para escrever o livro “Uma Vida com Café”. Ao mesmo tempo, Weigelt se dedica a estudar e teve o apoio da Fundação Procafé, sediada em Varginha (MG).
Neste profundo aprendizado, concluiu que a cultura no Rio Grande do Sul precisa de sombreamento de árvores maiores, um ambiente de agrofloresta, como preciosa proteção contra as geadas.
“A gente conseguiu ver que, em alguns lugares, não dava muito certo café, porque pegava geada. Começamos um trabalho de sombreamento, de colocar plantas para (fazer) sombra”, descreve o trabalho feito com as espécies de abacateiro, bananeira e até mogno africano.
Outra descoberta foi que o café da propriedade era da espécie arábica, que exige altitude de 800 metros, um outro desafio, visto que o local está a apenas 400 metros do nível do mar. A família Weigelt também produz suas próprias mudas, além de cedê-las por preço de custo a agricultores de todo o Estado.
Comercialização
Mais do que gerar o café, o fruto é processado para a venda na propriedade. Como todas as demais atividades do sistema produtivo da família, as ações no pós-colheita começaram de forma artesanal, inclusive lançando mão de uma pipoqueira elétrica para fazer a torra.
Depois, foi adquirida uma torradeira mais eficiente vinda da China, e que precedeu uma máquina realmente profissional, adquirida no ano passado. A comercialização se iniciou em 2024, com uma edição de café empacotada chamada de “O Café Impossível do Rio Grande do Sul”.
“Eu consegui fazer aqui mais ou menos uns 20 pacotes de café (de 250 gramas cada). Só que o café ‘sumiu’. Vendeu super-rápido. Daí a gente pensou assim: ‘Ah, em vez de fazer isso, como a gente não tem uma grande produção, vamos começar a fazer eventos aqui na propriedade, chamar o pessoal, servir o nosso café e também vender em pequenos potinhos especiais, em garrafinhas. Então, mais ou menos é isso que a gente faz hoje”, relata.
O cafeicultor diz que a produção não é muito grande, até por problemas com chuvaradas e ataque de pragas, como o bicho-mineiro, e a doença ferrugem. Parte da produção é enviada a uma cafeteria de Santa Cruz do Sul, e outra vendida na propriedade durante workshops de periodicidade mensal cuja temática é a produção de café, eventos que reúnem muitas pessoas.

Nestes encontros também são comercializadas mudas da planta. Os workshops estão sempre lotados, inclusive com presenças de outros estados. “Tem sido uma coisa muito legal, não só para divulgar o nosso trabalho, mas também para incentivar outras pessoas”, revela. E atualmente, a principal renda da propriedade já é o café. “O café sempre vai ser o carro-chefe”, diz.
Capital do café?
Weigelt é um otimista sobre a possibilidade de Vera Cruz e/ou a região ganhar expressividade na produção de café. Inclusive descobriu reportagem de um jornal local, datada de 7 de fevereiro de 1978, cujo título era “Cinco mil pés da única plantação de café no RS, em Vera Cruz, não são explorados economicamente”. “Imagina 5 mil pés para um lugar onde se jurava de pé junto que não dava café, é muita coisa”, surpreende-se.
Ou seja, sim, a produção de café é – agronomicamente – viável em lavouras gaúchas. Até porque em Santa Catarina, com um ambiente climático semelhante, já há incentivo estadual com linha de crédito individual de R$ 30 mil para agricultores que têm a intenção de cultivar. Há ainda apoio da pesquisa da Embrapa.
“Então, eles (catarinenses) estão investindo muito nisso e eu acho que aqui é uma tendência. Vai vir para cá isso. E a gente está começando essa trajetória, incentivando outras pessoas aqui da cidade também a começarem a plantar. Tem realmente bastante gente interessada. E eu acho que isso de fornecermos as mudas o pessoal vai aderir bastante”, imagina.
“Falei para o prefeito: eu tenho um sonho na vida que é, quando for velho, olhar para trás e pensar que Vera Cruz é a capital do café. Mas isso não é só da boca para fora”, revela, ao destacar a iniciativa de geração e disseminação de mudas. “A gente quer sonhar e realizar, e eu tenho a certeza que vamos conseguir. Eu sou cabeça dura”, lembra. “Na realidade, não fui eu que escolhi o café; foi o café que me escolheu. Depois, acabei escolhendo ele. Ele foi meio que atravessando sempre a minha vida.”
Fonte: Correio do Povo