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O agronegócio cooperado é muito mais forte

Cooperativas agropecuárias dão suporte aos pequenos produtores e respondem por mais da metade da receita somada de todos os ramos do cooperativismo no RS

Vitais na agricultura familiar, cooperativas agropecuárias somam 94 organizações no RS
Foto : Shutterstock / CP

A união faz a força e, quando os aliados compartilham os mesmos propósitos de longo prazo, pode trazer resultados ainda mais vigorosos. Por mais que os manuais de redação preguem distância dos clichês, a popular frase de efeito associada ao trabalho em equipe traduz com precisão por que os pequenos produtores rurais, na grande maioria, optam por se filiar a cooperativas. Se, individualmente, eles atestam a vocação para gerar riquezas no campo, juntos conseguem negociar preços e condições melhores nas compras de insumos, além de levar a produção de alimentos a mercados de consumo que, sozinhos, não alcançariam. O cooperativismo também é o caminho que conecta a agricultura familiar a linhas de crédito e tecnologias para turbinar o lucro dentro da porteira.

Números da Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul (Ocergs) mostram como esse modelo de negócio, baseado na distribuição e reinvestimento dos resultados – que no jargão do setor são chamados de “sobras” –, se tornou vital para as propriedades de menor porte. Representadas por 94 organizações no Rio Grande do Sul, as cooperativas agropecuárias reúnem 272,5 mil associados e respondem por mais da metade da receita somada de todos os ramos de cooperativismo no Estado.

“Falando do agro especificamente, 73% de todos os associados das cooperativas são da agricultura familiar. Então, o escopo do cooperativismo é essencialmente da agricultura familiar”, diz o presidente da Ocergs, Darci Hartmann.

Como uma das principais referências de sucesso no setor, o dirigente cita a atuação das cooperativas focadas na pecuária leiteira, que mantêm centros de pesquisa e dão orientação diária aos produtores.

“Um dos processos mais democráticos, que mais geram inclusão em volume e em escala, é a produção de leite. Hoje é absolutamente proibitivo em pequenas propriedades você querer plantar soja, milho e trigo, principalmente nestes últimos anos, pelos impactos climáticos”, afirma Hartmann. “Muitas pequenas cooperativas também são agroindústrias, que têm atividades específicas em todos os setores, como na área da uva”, acrescenta.

Tecnologia que faz a diferença

O coordenador da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf-RS), Douglas Cenci, destaca o apoio do cooperativismo também além da porteira.

“O agricultor se organiza, produz um alimento de qualidade, mas tem dificuldade de comercializar a produção”, afirma. “Então, o papel das cooperativas é importante nesse tema, que tem sido a oportunidade para a agricultura familiar permanecer no campo, melhorar a sua condição de vida, sobretudo, no que diz respeito à participação dos jovens e das mulheres.”

Cenci lembra que, em escala global, a agropecuária tem sido cada vez mais pressionada a adotar métodos que aumentem a eficiência no campo e, ao mesmo tempo, reduzam os danos ao meio ambiente. E é por meio das cooperativas que os produtores conseguem acompanhar essa transição do modelo produtivo. “As cooperativas são um meio também de materializar as nossas conquistas, como é o exemplo do crédito, da habitação”, diz.

Com apoio técnico, Ederson Parisotto, de Espumoso, conseguiu elevar a produção de leite e continuar na pecuária
Com apoio técnico, Ederson Parisotto, de Espumoso, conseguiu elevar a produção de leite e continuar na pecuária | Foto: Arquivo Pessoal / CP

Há 16 anos no comando da Fazenda São Domingos, em Espumoso, o pecuarista Ederson Parisotto é um dos pequenos produtores mais bem-sucedidos entre os ligados a cooperativas filiadas ao grupo CCGL. Associado à Cotriel, o produtor revela que, antes da pandemia de Covid-19, ele e os pais cogitaram abandonar a produção de leite e cultivar soja.

“Era menos trabalhoso. Mas não íamos ter aquele giro (financeiro) todo mês”, afirma.

A família persistiu, e o leite hoje é o carro-chefe da fazenda, que em 30 hectares concentra 128 vacas, a maior parte da raça holandesa, das quais 40 estão em ordenha. Sob a orientação das duas cooperativas parceiras, Parisotto diz que sua média diária de coleta, antes de 20 a 25 litros por vaca, saltou para 30 litros diários por animal. A produção mensal da fazenda fica entre 28 mil e 35 mil litros.

O segredo desse desempenho, segundo o pecuarista, está no acesso a tecnologias capazes de deflagrar pequenas revoluções no campo. Ele cita o SmartCoop, aplicativo de gestão idealizado pela CCGL e lançado em um projeto coordenado pela Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (FecoAgro/RS) em 2021. Pela plataforma digital, os pecuaristas podem gerenciar rebanhos, finanças, talhões (lavouras), prever o tempo e gerar ordens de venda. Produtores de leite que fazem uso contínuo do sistema podem receber bonificações, de R$ 0,03 por litro de leite.

“Conseguimos colocar os animais em teto produtivo, secar os animais nas datas certas. A gente saiu do papel para entrar na tecnologia. Está sempre disponível para nós”, destaca Parisotto.

O tambo também respondeu com mais eficiência à instalação de medidores de fluxo na propriedade, para coletar amostras de leite e fazer o controle da chamada CCS, ou contagem de células somáticas, um dos principais indicadores da qualidade do leite. Esse monitoramento ajuda na detecção precoce de mastite das vacas.

“As cooperativas disponibilizam essas ferramentas que nos auxiliam diariamente. A gente vê o retorno ali no dia a dia: animais melhores, produzindo mais”, diz Parisotto.

Acesso a programas federais de alimentos e impulso aos orgânicos

Paulo Junior Pastorello, de Sananduva, busca incentivar a certificação orgânica entre os associados da Coopvida
Paulo Junior Pastorello, de Sananduva, busca incentivar a certificação orgânica entre os associados da Coopvida |
Foto: Paulo Antonio Pastorello / Divulgação / CP

Responsáveis pelo abastecimento de escolas, cozinhas comunitárias, hospitais e entidades sociais, os programas federais de alimentos injetam bilhões de reais no campo todos os anos, e é por meio do cooperativismo que as pequenas propriedades rurais conseguem participar dessas políticas públicas. As regras atuais determinam que pelo menos 30% e 45% dos recursos destinados ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), respectivamente, sejam usados na compra de itens da agricultura familiar, sem a necessidade de licitação.

Para encurtar a distância entre os produtores e a rede de instituições, muitas cooperativas agropecuárias optam por formar centrais ou federações, que atuam como uma “cooperativa de cooperativas”.

“A política pública é interessante para o agricultor, mas, se não estiver organizado numa cooperativa, esse agricultor não acessa esses mercados. A gente organiza essas cooperativas em centrais para facilitar a logística, a distribuição desses alimentos”, explica o presidente da União das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária do Rio Grande do Sul (Unicafes-RS), Gervásio Plucinski.

O chamado mercado institucional, segundo o dirigente, estimula a agregação de valor, já que grande parte dos produtos fornecidos pelas cooperativas são beneficiados em agroindústrias estabelecidas pelos associados.

Com sede em Santa Maria e nove entidades filiadas de vários municípios, a Central de Cooperativas da Agricultura Familiar (Unicentral) foi fundada em 2014 para centralizar as compras desses grupos.

“(Juntos), temos um leque maior de oferta de produtos e conseguimos atender melhor à demanda do sistema de educação e das prefeituras”, diz o presidente da Unicentral, Alcione Piasentin Claro. “Reduzimos o efeito da sazonalidade em relação a alguns produtos, porque vai ter uma base de agricultores maior que vai conseguir garantir esse fornecimento.”

Para os agentes públicos, a negociação com a central também traz vantagens. Uma delas é a redução da burocracia, pois ela evita a necessidade de firmar contratos com várias cooperativas na compra de diferentes itens, explica Claro. Ele estima que, no primeiro semestre deste ano, os cerca de 5 mil agricultores representados pela Unicentral tenham fornecido aos programas federais em torno de 150 toneladas de alimentos de pelo menos 70 tipos, como carnes, leite (UHT e em pó), iogurtes, suco, hortaliças, frutas, mel e panificados.

“Outra coisa muito positiva que a gente conseguiu foi estimular a produção de ovos em pequenos aviários (…) dentro da nossa área de abrangência”, complementa Claro.

As cooperativas também impulsionam a produção certificada de alimentos orgânicos. Com atuação na região de Sananduva, a Coopvida vem estimulando a migração para o sistema de cultivo agroecológico, que já atinge 25 dos seus 109 associados. Graduado em administração de empresas, o presidente da cooperativa, Paulo Junior Pastorello, conta que a entidade foi criada para que os agricultores pudessem vender as sobras da produção oferecida em feiras livres. Com o tempo, o grupo passou a atender ao mercado institucional e criou outros canais de negócios, como uma lojinha na própria cooperativa.

“Depois, foi feito um circuito de vendas para a região da Serra e a Região Metropolitana, onde a gente vende só produtos orgânicos. Produtos secos, como feijões, farinhas, pipocas, molho de tomate, açúcar mascavo”, diz Pastorello.

Filho de agricultores, ele entrou na Coopvida aos 15 anos, como jovem aprendiz. Hoje, a venda de orgânicos ainda representa apenas 30% da receita total da cooperativa. Mas, segundo Pastorello, a entidade trabalha para ampliar o número de agricultores certificados e abastecer consumidores fora no Rio Grande do Sul. Em junho, três dos associados participaram, como expositores, da Bio Brazil Fair, a maior feira de produtos orgânicos da América Latina.

“Foi bem proveitoso, conseguimos mais clientes. A gente já tem clientes no Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia. (A meta é) abrir mais mercados para incentivar o produtor a produzir orgânico. Queremos agora participar da Expointer e Expodireto”, afirma Pastorello.

Parceria fortalece a produção de leite

Para Vanderlei Carlos Goin, de Nova Prata, relação com cooperativa oferece orientação e segurança ao produtor
Para Vanderlei Carlos Goin, de Nova Prata, relação com cooperativa oferece orientação e segurança ao produtor |
Foto: Elenice Franceschetti Goin / Divulgação / CP

A maior parte do leite consumido no Rio Grande do Sul, seja na forma fluida ou de derivados, vem de pequenas propriedades rurais. De acordo com pesquisa da Emater/RS-Ascar, dos 28,9 mil pecuaristas que fornecem leite cru a indústrias, cooperativas e queijarias ou processam a produção em agroindústrias próprias formais, 93% são classificados como agricultores familiares. A pecuária leiteira é uma das frentes do agronegócio fornecedor de alimentos em que mais se percebe o papel crucial do cooperativismo.

Presentes em todas as regiões do Estado, as organizações do setor coletam leite diariamente em milhares de estabelecimentos rurais de pequeno porte – muitas vezes localizados em áreas remotas ou de difícil acesso –, fazem o processamento e garantem a distribuição aos pontos de venda. Elas também ajudaram a tornar as propriedades leiteiras mais eficientes diante das mudanças do mercado na última década, período em que muitos pecuaristas, desanimados com as baixas margens de lucro, acabaram migrando para outras atividades.

O presidente da cooperativa CCGL, Caio Vianna, diz que a concentração da produção de leite em um número cada vez mais reduzido de propriedades é uma tendência irreversível em termos mundiais.

“O simples fato de que mais pessoas querem consumir com garantia de qualidade, segurança alimentar e preço mais baixo obriga o campo a se modificar. Nós (as cooperativas) temos procurado (oferecer) ferramentas”, observa Vianna. “Esse produtor não pôde ficar 20 anos nos bancos escolares sendo treinado nas questões agronômicas, dos manejos culturais, de genética. Ele tem que receber essa informação, colocá-la em prática e já usufruir, senão não sobrevive.”

Infraestrutura e logística

Uma das principais processadoras de laticínios do Estado, a CCGL recebe 2 milhões de litros de leite por dia por meio de suas 25 cooperativas associadas. Dos 2,4 mil produtores de leite vinculados à organização, 75% são pequenos, mas a dimensão das propriedades não limita o volume da coleta.

“Temos produtores de 16, de 20 hectares que são superprodutivos. Através do cooperativismo, tendo acesso a tecnologia e assistência, muitos produzem 2 mil, 3 mil litros (de leite por dia) em uma pequena área”, exemplifica Vianna.

Os agricultores familiares também contam com as cooperativas no escoamento da produção de leite e lácteos, levando-a inclusive a outros estados. “O Rio Grande do Sul exporta 70% do leite que produz, a população gaúcha só consegue consumir 30%”, observa Vianna.

Para o pecuarista Vanderlei Carlos Goin, de Nova Prata, o cooperativismo significou não apenas mais renda, mas sobretudo a permanência na atividade leiteira. Filho de produtores rurais, ele administra um rebanho de 50 vacas, das quais 28 atualmente em lactação, em uma área própria de 13 hectares e outra parte na propriedade dos pais. Segundo Goin, a família trabalhava em parceria com a Cooperativa Agrícola Mista Ibiraiaras (Coopibi) e, desde 2001, vinha elevando a produção. Há uma década, com o suporte direto da CCGL, o resultado no tambo mais que dobrou. Hoje, dependendo da época do ano, ele coleta até 32 litros diários por vaca, com uma média de 25 mil a 30 mil litros por mês.

Para chegar a esse desempenho, o pecuarista conta que passou a adotar o sistema de piquetes (ou pastejo rotacionado).

“Antes, não se tinha o manejo correto, simplesmente se largava a vaca no pasto. Eles nos orientaram a piquetear, a colocar as vacas para pastarem no turno da noite. Foi o diferencial”, afirma.

Outra mudança que fez diferença foi a estratégia mais eficiente para a produção de pasto, garantindo forragem de ciclo mais longo para os animais. “Hoje se usa azevém tetrapoide, que dura de abril a novembro. Tu tens uma produção melhor e reduz o custo. Os técnicos nos ajudam também na questão do solo”, acrescenta Goin.

Todos esses avanços são recompensados pelos programas de bonificação das indústrias de laticínios, que oferecem incentivos financeiros na entrega de leite com maior qualidade. Em 2025, a CCGL distribuiu mais de R$ 30 milhões entre os produtores associados que forneceram leite de forma ininterrupta ao longo do ano – um retorno de R$ 0,0548 por litro entregue. Segundo Goin, a renda extra permite ao pecuarista fazer investimentos na fazenda, mas tão importante quanto isso é a segurança proporcionada pela relação com a cooperativa.

“Tu entregas (o leite) e sabes que vais receber. E a segurança na compra de insumos, como comprar sementes, adubos: tu tens certeza que vem coisa boa. Eu sempre gostei de cooperativismo e não me vejo fora disso”, diz.

Assembleia de prestação de contas e entrega do cheque simbólico da devolução de sobras da Agricoop, de Erechim
Assembleia de prestação de contas e entrega do cheque simbólico da devolução de sobras da Agricoop, de Erechim |
Foto: Agência de Marketing Orange / Divulgação / CP

Assistência técnica

Presidente da Agricoop, de Erechim, o produtor Mario Farina atribui à assistência técnica prestada aos agricultores familiares um dos grandes benefícios do cooperativismo. Com 1,7 mil associados, dos quais 268 atuam na pecuária leiteira, a organização atende a 36 municípios na região do Alto Uruguai. Em mais de 30 anos de existência, chegou a operar em todas as etapas da cadeia do leite, mas desde 2019 abandonou o processamento e passou a destinar a produção dos associados à Cooperativa Santa Clara. Dos R$ 136,7 milhões em receita líquida registrados no ano passado, R$ 78,5 milhões vieram do leite.

“Muitas vezes, as empresas privadas, quando se instalam em uma região, por um determinado período até pagam um preço maior. Mas não é só isso que dá sustentabilidade na agricultura familiar. O produtor carece desse apoio, assistência técnica, fomento, financiamento, principalmente no aspecto da qualidade”,destaca Farina.

Entre os aspectos que sustentam a boa performance dos associados da Agricoop, ele cita o investimento da cooperativa no melhoramento genético dos rebanhos desde a década de 1990. “No passado, a cooperativa formava grupos de produtores e financiava o botijão de sêmen e também patrocinava a capacitação de agricultores para que fizessem nas propriedades a inseminação artificial nos animais”, relata.

Para exemplificar o impacto desses esforços, Farina lembra que, no início dos anos 2000, a Agricoop tinha 1,6 mil pecuaristas filiados, mas o número foi caindo em razão das dificuldades de sucessão na gestão das propriedades leiteiras.

“Houve uma redução de 1.300 produtores, e os 270 atuais produzem bem mais do que os 1.600 que a cooperativa tinha no seu quadro social em 2000”, compara.

Fonte: Correio do Povo

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