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Julho Roxo e o silêncio que custa vidas

Por ANDRÉ BERGER, chefe da Uro-Oncologia do HMV, membro titular da ANM e professor da University of Southern California

O calendário da saúde é marcado por cores consagradas. O Outubro Rosa e o Novembro Azul arrastam multidões e dominam o debate público há duas décadas. No entanto, o Julho Roxo, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de bexiga, ainda caminha à margem do conhecimento popular. Essa disparidade não é mera contabilidade de marketing; ela cobra um preço alto nos consultórios, traduzido em diagnósticos tardios e chances de cura desperdiçadas.

Estatisticamente, o câncer de bexiga é o câncer urológico mais letal no Brasil — mais de 11 mil novos casos anuais, segundo o Instituto Nacional do Câncer. Se a escala populacional não mobiliza as massas, o impacto individual é dramático. Soma-se a isso um forte componente cultural: bexiga e urina ainda são temas cercados por um pudor que a mama e a próstata já superaram.

A consequência desse silêncio é o atraso. O principal sintoma da doença é o sangue na urina. Por ser tipicamente indolor e intermitente, o sangramento funciona como uma armadilha. O paciente presume que o problema se resolveu sozinho ou o atribui a uma infecção passageira. Enquanto isso, o tumor cresce em silêncio. Na oncologia, o estágio define o desfecho: quando o tumor é superficial, o tratamento é conservador e preserva o órgão; quando invade a musculatura, o cenário exige a retirada da bexiga. O desconhecimento custa estágios da doença — e estágio, aqui, é vida. Sangue na urina nunca é normal.

Se o tabagismo é o vilão principal, associado a mais da metade dos casos, o fator ocupacional é outro risco subestimado. Profissionais expostos a aminas aromáticas — presentes em tintas, corantes, borracha e plásticos — carregam uma vulnerabilidade que pode se manifestar anos depois. Pintores, trabalhadores de curtumes, da indústria química e cabeleireiros merecem uma atenção redobrada.

A medicina nunca teve tanto a oferecer nesta área. A cirurgia robótica transformou a remoção da bexiga. O que antes era um procedimento de grande sangramento e recuperação penosa, hoje é feito com precisão milimétrica, preservando vasos e nervos, com mínima agressão ao corpo. As opções de tratamento também avançaram de forma sem precedentes.

Até mesmo o estigma das reconstruções urinárias mudou. Seja através da neobexiga ileal (feita com o intestino do paciente, mantendo a via natural) ou do conduto ileal externo, técnicas modernas asseguram o retorno rápido a rotinas intensas.

Para vencer o câncer de bexiga, é preciso tecnologia de ponta, estilo de vida consciente e o manejo por equipes multidisciplinares em centros de referência. Mas o primeiro passo depende da informação. Que o Julho Roxo ecoe o alerta definitivo: escute os sinais do seu corpo. Não espere a segunda vez.

Fonte: Correio do Povo

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