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Indústria brasileira projeta expansão e mais empregos com acordo UE-Mercosul

Foto : RICARDO STUCKER / PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA / CP

A entrada em vigor das cláusulas comerciais entre o Mercosul e a União Europeia, neste 1º de maio, estabelece um novo paradigma para as trocas entre os dois blocos, encerrando um ciclo de incertezas que se arrastava desde o início das negociações em 1999. Após 25 anos de maturação diplomática e ajustes técnicos, o tratado deixa de ser uma promessa de gabinete para se tornar um indutor de modernização, desenhado para reduzir a dependência da exportação de produtos primários e integrar as cadeias produtivas regionais aos rigorosos padrões de consumo, segurança jurídica e tecnologia do Velho Continente.

No setor de componentes para couro e calçados, a expectativa central recai sobre a competitividade tributária em um momento de reorganização das cadeias globais de suprimentos. Luiz Ribas Júnior, gestor de Mercado Internacional da Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro (Assintecal), observa que a desgravação gradual das tarifas de importação, que hoje alcançam 17%, será o fôlego necessário para que o Brasil avance sobre mercados atualmente dominados pelo Sudeste Asiático, especialmente China e Vietnã. Com o encarecimento do frete global decorrente de conflitos geopolíticos e o rigor das leis ambientais na Europa, o produto brasileiro, chancelado pelo selo Origem Sustentável, torna-se peça-chave para abastecer polos produtores na Itália, Portugal e Espanha, que buscam fornecedores mais próximos e éticos.

CAMINHO LIVRE

A abertura de mercado reflete-se diretamente nas estratégias de quem opera na ponta. Para Frederico Paese, diretor comercial da Anzetutto, o acordo UE-Mercosul é o passaporte definitivo para os produtos premium da marca. Segundo ele, a queda das barreiras tarifárias permitirá que o calçado brasileiro chegue às vitrines europeias com preços mais competitivos, sem perder o valor agregado do design nacional. Para Paese, o tratado não apenas facilita a venda, mas obriga a indústria a um salto de qualidade para se equiparar aos padrões de consumo do bloco europeu.

“O mercado europeu inclina-se naturalmente para o Mercosul quando combinamos livre comércio com a capacidade de produzir materiais verdes e atóxicos”, afirma Gilson Contel, gestor de exportações do Grupo JR. Para a empresa, que enxerga no pacto uma validação de seu modelo focado em economia circular, o acordo potencializa o embarque de materiais estruturantes que atendem ao rigoroso pacote de legislação sustentável da Comissão Europeia. Com a transformação anual de 830 toneladas de resíduos, o grupo projeta que o fim das amarras alfandegárias acelerará a adoção de suas tecnologias por fabricantes europeus que buscam rastreabilidade e baixo impacto ambiental, consolidando o diferencial competitivo da matéria-prima brasileira no exterior.

NOVAS VAGAS

No cenário gaúcho, o Sistema Fiergs projeta que a integração comercial será um motor para a geração de 31 mil novos empregos na indústria de transformação nos próximos 15 anos. De acordo com Claudio Bier, presidente da Federação, o impacto imediato deve ser sentido na abertura de mercado para 43% das vendas do Estado à União Europeia. Bier ressalta que, para além do fluxo de mercadorias, o tratado impõe uma agenda de eficiência e credibilidade, alinhando o parque industrial gaúcho a padrões regulatórios e sanitários internacionais, o que tende a facilitar o reconhecimento de status sanitários e reduzir entraves não tarifários.

O potencial de expansão mensura-se em um mercado de 43,9 bilhões de dólares na União Europeia para 543 produtos brasileiros com competitividade comprovada. O Brasil pode ampliar seu superávit comercial ao atacar nichos de produtos técnicos e de moda, onde a tarifa zero, somada à sustentabilidade certificada, anula a vantagem histórica de custos dos concorrentes asiáticos. Segundo estudos da ApexBrasil, essa conjuntura, aliada à simplificação de processos aduaneiros e à criação de subcomitês técnicos para gerenciar barreiras sanitárias, prepara a indústria para uma expansão que promete não apenas volume, mas a consolidação de uma marca nacional tecnologicamente robusta e ambientalmente responsável na Europa.

IMPASSE PARAGUAIO

A cota de carne bovina no acordo estabelece um limite de 99 mil toneladas por ano que podem ser exportadas com tarifa reduzida de 7,5%. Acima desse volume, as tarifas são mais altas. A divisão desse total entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai virou um impasse: enquanto o Paraguai defende uma repartição igualitária, o setor exportador brasileiro argumenta que a distribuição deve seguir critérios técnicos.

A preocupação envolve uma possível subutilização da cota, reduzindo os ganhos do bloco sul-americano. Contudo, uma regra mais clara será discutida e definida apenas no próximo ano.

Fonte: https://www.correiodopovo.com.br

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