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Esposa luta por respostas para trazer gaúcho desaparecido na guerra da Ucrânia

Foto : Arquivo Pessoal / Reprodução / CP

Natural de São Jerônimo, Tiago Rodrigues Marques completou 41 anos no mesmo dia em que teria sido morto durante uma emboscada na guerra da Ucrânia contra a Rússia, em um ataque com mísseis, segundo relatos de companheiros de combate. Desde então, a família vive com a incerteza entre a notícia recebida de colegas e a falta de uma confirmação oficial.

Para as autoridades ucranianas, o gaúcho continua registrado como desaparecido em combate. Sem uma confirmação oficial da morte, a família não consegue obter a certidão de óbito necessária para iniciar formalmente o processo de retirada do corpo da área de combate em Donbas, região no leste da Ucrânia parcialmente ocupada pela Rússia e um dos principais focos da guerra.

Morador de Gravataí, Tiago havia ido pela segunda vez à Ucrânia em março deste ano, atuando como operador de drones no 25º Batalhão Aerotransportado. Segundo a esposa Marli, Tiago mantinha a atuação na Ucrânia longe das redes sociais. Ela afirma que a família evitava divulgar informações sobre a presença dele no país para preservar a filha de 5 anos e duas enteadas de 10 e 17 anos.

Após a notícia recebida dos colegas, porém, a situação mudou. A própria família passou a buscar exposição pública para tentar pressionar por informações e pelo reconhecimento oficial do caso. As crianças ainda não foram informadas sobre a possível morte. Marli afirma que retirou o acesso delas à televisão e à internet enquanto a família tenta entender a situação e avaliar como comunicar a notícia.

Última mensagem e busca por respostas

A esposa conta que a última comunicação com Tiago ocorreu na madrugada de 24 de agosto. Em um áudio enviado à filha, ele afirmou que estava sendo deslocado para uma área considerada mais segura porque a posição em que estava sofria um ataque. Depois disso, as mensagens enviadas pela família não foram mais respondidas.

Três dias depois, colegas de Tiago informaram que ele teria sido morto em uma emboscada e orientaram a família a procurar a imprensa e a Embaixada do Brasil para tentar viabilizar a localização e a retirada do corpo.

“Se não retirarem o corpo dele do local onde os amigos indicam que esteja, ele vai continuar como desaparecido. A gente precisa desse reconhecimento oficial de que houve a morte”, afirma Marli, esposa de Tiago.

Segundo ela, o objetivo é que, após a confirmação, o corpo seja retirado, submetido aos procedimentos previstos pelas autoridades ucranianas e posteriormente cremado. A intenção da família é trazer as cinzas de Tiago para o Brasil. O problema relatado pelas autoridades é que ele estava em uma posição na linha de frente quando desapareceu, e as autoridades alegam perigo em realizar a missão de recuperação do corpo.

O único retorno oficial recebido até agora, de acordo com Marli, veio do plantão da Embaixada do Brasil em Kiev, que informou que o militar permanece classificado como desaparecido. Segundo ela, o batalhão em que Tiago servia não entrou em contato com a família para comunicar o desaparecimento.

Voltou para a Guerra após dificuldades financeiras

Tiago já havia atuado na guerra anteriormente. Em 2024, integrou a Legião Internacional da Ucrânia e permaneceu no país por 11 meses, retornando ao Brasil em 2025. Em dezembro do ano passado, Tiago iniciou novamente o processo de recrutamento para atuar na Ucrânia. A aprovação ocorreu em fevereiro e, em março, ele deixou a casa da família.

A família não tinha conhecimento de que ele voltaria à Ucrânia. Marli conta que ele saiu como se fosse trabalhar e embarcou de Porto Alegre para São Paulo, onde se encontrou com o grupo responsável pelo deslocamento.

Tiago tem uma filha de cinco anos, além de duas enteadas, de 10 e 17 anos. Segundo a esposa, a família enfrentava dificuldades para custear o tratamento e os medicamentos da filha, que tem Transtorno do Espectro Autista e necessita de remédios com custo aproximado de R$ 1 mil por mês.

“A gente não estava dando mais conta de pagar as contas”, relata.

A esposa afirma que Tiago acreditava que poderia melhorar a situação financeira da família com o trabalho no Exército ucraniano. Segundo Marli, informações divulgadas na internet sobre o trabalho de estrangeiros nas forças ucranianas indicavam a possibilidade de receber bônus por missões concluídas.

“Ele viu uma chance de conseguir um dinheiro que não conseguiria aqui”, resume Marli. No Brasil, segundo a esposa, ele trabalhou como metalúrgico e serviu o Exército brasileiro em Cachoeira do Sul durante o período obrigatório de um ano.

A realidade na Ucrânia, porém, teria sido diferente do que é prometido nas redes sociais. Marli afirma que o valor recebido até então foi muito inferior ao que a família esperava diante das promessas de remuneração.

“As promessas não se cumprem”, disse Marli.

De acordo com a esposa, Tiago passou cerca de dois meses em treinamento após chegar à Ucrânia e não recebeu remuneração nesse período. Ele conseguiu enviar dinheiro à família apenas em junho, quando recebeu o primeiro pagamento. Marli afirma que, desde então, não receberam mais do que R$ 4 mil: “Ele nunca ganhou mais de 24 mil hryvnias lá. Em dinheiro convertido, é muito inferior.”

A esposa conta que colegas repassaram a informação de que o marido teria recebido aproximadamente 70 mil hryvnias por uma missão no dia de sua morte, cerca de R$ 8 mil. A família não tem acesso ao valor.

Recrutador detalhou possibilidades

A esposa conseguiu localizar, na última terça-feira, o recrutador responsável pela ida de Tiago à Ucrânia. Na mensagem enviada, ele informou as possibilidades: caso ele seja encontrado com vida, a família será comunicada. Caso seja localizado sem vida, o óbito será reconhecido, a família será informada e o protocolo correspondente será iniciado. Se permanecer desaparecido por mais de um ano, ele será declarado legalmente morto.

O recrutador também afirmou que Tiago estava em missão na linha de frente e que a área poderia estar muito ativa para uma tentativa de resgate. “É possível que a área esteja muito ativa para tentar qualquer missão de resgate. Ninguém vai até a posição onde ele está porque ela ainda está contestada”, escreveu.

Ainda conforme a mensagem, caso o óbito seja declarado, os familiares de Tiago teriam direito a 15 milhões de hryvnias (cerca de R$ 1,7 milhão), sendo 40% pagos inicialmente e o restante em pagamentos mensais pelos quatro anos seguintes. Mesmo com o reconhecimento da morte, um familiar precisaria viajar até a Ucrânia para abrir uma conta bancária ucraniana e receber o dinheiro.

“Desculpe se pareço frio. Mas tenho que manter o protocolo. Informarei de quaisquer novidades”, escreveu o recrutador.

Marli afirma, entretanto, que há desencontro de informações repassadas por colegas dele, o que a leva a suspeitar que não haja interesse em resgatá-lo imediatamente. A família, entretanto, afirma ter recebido de companheiros de Tiago a informação de que haveria possibilidade de acesso ao local.

“O governo deles continua recebendo dinheiro para manter o soldado enquanto desaparecido. Então, para eles, é mais fácil dar um soldado como desaparecido do que como morto. Porque, morto, eles têm indenização para pagar para a família e seguro de vida”, disse Marli.

A esposa de Tiago disse que entrou em contato com outra brasileira que perdeu o marido na guerra. Ela relatou que morava na Ucrânia enquanto o marido estava lutando e, mesmo assim, teve dificuldade para conseguir recuperar o corpo.

“Mesmo estando na Ucrânia, podendo ir todos os dias na embaixada, ela ainda levou mais de um mês para conseguir o resgate do corpo do esposo dela para fazer a cremação e trazer para o Brasil”, afirmou.

Fonte: https://www.correiodopovo.com.br

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