Cuidados com fraudes bancárias, phishing e clonagens foram discutidos no último painel do III Seminário Consumo Consciente 2026
Foto : Mauro Schaefer
O contato cada vez maior no mundo digital deixa os consumidores vulneráveis a diferentes golpes e fraudes. Segundo especialistas, os criminosos estão migrando para o mundo digital porque, enganando as pessoas com mais facilidade, conseguem arrecadar muito mais dinheiro do que em um assalto. Os dados pessoais dos consumidores saem de bancos de dados ilegais e são comercializados, e o medo é o principal gatilho utilizado para atrair as pessoas à chamada engenharia social do golpe. Com o avanço das tecnologias, a inteligência artificial é outro fator de risco.
O tema foi discutido no painel “Prevenção aos golpes on-line: informação, educação digital e autoproteção”, que encerrou o III Seminário Consumo Consciente 2026: Navegando entre Golpes e Dívidas, promovido pelo Correio do Povo em parceria com o Fórum Latino-Americano de Defesa do Consumidor (FLADC), realizado nesta quarta-feira no Plenarinho da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.
O debate contou com falas do ex-chefe da Polícia Civil do RS e especialista em crimes cibernéticos e segurança da informação, Emerson Wendt, e do delegado da Polícia Federal e chefe da Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Informáticos do RS, Davi Jacobs de Souza. A mediação foi da coordenadora jurídica e responsável pela área de marketing da empresa Ipiranga Produtos de Petróleo S.A, Natasha Cordeiro.
Os golpes não são recentes. Emerson Wendt lembrou que, no século 15, os senhores feudais eram enganados quando recebiam recados de que tesouros foram encontrados e só seriam devolvidos se pagos determinado valor. As técnicas, portanto, foram adaptando-se com o tempo. “Enfrentar os golpes no dia a dia é muito mais do uma questão técnica, mas uma questão cultural. Com o contexto digital, a gente precisa de um letramento digital”, disse. Ele lembrou que, em 2023, foi aprovada a Política Nacional de Educação Digital, (PNED) primeiro marco legal que define a educação digital como direito de todos e que obriga que escolas e setores governamentais insiram nos seus contextos a educação digital.
Como contou o delegado Davi Souza, o aumento nos números de vítimas de crimes cibernéticos foi o que motivou a criação da Deciber em Brasília, e nos estados brasileiros a criação das Delegacias de Crimes Cibernéticos a partir de 2023. Os casos dispararam com a pandemia, quando as pessoas estavam mais presentes no ambiente digital. “Se viu a necessidade, passando da hora, de se criar uma delegacia específica para a área, não só de golpes, mas de outros crimes, porém as fraudes são as mais importantes”, destacou o delegado.
Por que devemos nos preocupar com fraudes e golpes digitais?
As fraudes costumam variar, mas Davi destaca que as principais consequências envolvem a perda financeira, o roubo de dados pessoais, as chances de ser acusado por crimes que não cometeu e, com todos os casos, os danos emocionais e psicológicos por ter sido vítima. O delegado destaca que, hoje, um a cada quatro brasileiros têm o celular “infectado”, e os principais casos envolvem cliques em sites duvidosos. “O Brasil é o país do golpe. Os números são elevadíssimos, e a gente sabe que a criatividade do brasileiro para inventar golpes é uma coisa absurda”, destacou.
Com a evolução da tecnologia, a inteligência artificial tem sido utilizada por criminosos para os seus golpes, trazendo mais riscos para os consumidores, que têm mais dificuldades para saber se o que estão vendo é verdade ou mentira. “A fraude está se sofisticando. A inteligência artificial permite que as fraudes sejam cada vez melhores e conseguem ludibriar as pessoas com mais liberdade”, destacou. Porém, ponderou que as forças de segurança também estão se adaptando para que a tecnologia também seja utilizada nas atividades e investigações, sendo uma aliada no combate a golpes.
Quais são os principais golpes virtuais
- Phishing: do termo “pescaria”, a técnica de engenharia social é usada para enganar usuários usando a fraude eletrônica para obter informações confidenciais, e continua sendo uma das principais formas de golpe.
- Golpe do boleto falso: alvo de muitas operações na Polícia Civil, os criminosos falsificam boletos para pagamentos, e utilizam de casos de empréstimos dos consumidores para apresentar soluções para pagar dívidas.
- Falsa central bancária: os criminosos conseguem imitar uma central telefônica de banco e aplicam golpes aos usuários.
Responsabilização
Refletindo sobre o marco legislativo, e se o arcabouço legal dá conta da diversidade de proteção a fraudes, Emerson lembrou que a Lei Geral de Proteção de Dados opera desde 2018, mas a legislação penal de proteção de dados com o Código de Defesa do Consumidor existe desde 1990. Para ele, o grande debate envolve o endurecimento da pena, e se elas são ou não adequadas.
O especialista lembrou que os delitos praticados que envolvem crimes cibernéticos trabalham com penas que começam com um ano e, segundo ele, dificilmente há uma condenação acima de pena mínima. Mas houve evoluções, como a adaptação normativa penal pelo furto mediante fraude e estelionato eletrônico em 2021, principalmente em razão da pandemia.
Para ele, a lógica de enfrentamento também envolve investir na rede do consumidor, como a realização de palestras e ações de conscientização, para alertar sobre processos preventivos. O delegado Davi acrescenta que a inteligência artificial nos crimes também precisa de mais regulamentação.
Como evitar cair em golpes
Para não cair no crime de phishing, o delegado adverte que é sempre importante verificar links suspeitos encaminhados. “A engenharia social o email vai mudar, mas sempre vai ter um click aqui e a pessoa vai ser direcionada a um site malicioso”, disse. Ainda, avaliar sempre o remetente do e-mail ou mensagem recebida, e acessar sites diretamente pelo navegador. Fazer o caminho inverso para ver qual é o site verdadeiro da empresa também previne o golpe.
Para a falsa central telefônica do banco, o delegado alerta para nunca fornecer acesso remoto, e sempre desconfiar se alguém pedir a instalação de um programa no celular. Retornar a ligação também é outra dica.
O que fazer quando levar um golpe
Emerson lembra que a primeira ação é proteger o seu patrimônio, como fazer bloqueios devidos. Ao contatar o setor bancário, é importante acionar o protocolo do mecanismo especial de devolução previsto pelo Banco Central, que é obrigado a fazer esse acionamento
Outro ponto importante, quando alguma conta pessoal é acessada, é trocar senhas e colocar fator de autenticação.
Maneiras de se proteger na internet
O delegado lembra que os criminosos vão estar sempre renovando a maneira de aplicar o golpe, mas os fatores sempre se mantêm: a urgência, o medo e a promessa de ganho fácil. Ele destacou a importância da verificação da segurança dos sites, sempre conferindo se é seguro e atualizar os softwares dos próprios computadores. Criar uma senha forte, evitando datas de nascimento e preferindo caracteres especiais, além de usar autenticação de dois fatores nos aparelhos, também auxilia na evasão de sistemas.
Emerson lembra de evitar usar a mesma senha para mais de um serviço, que dá oportunidade para os golpes. Ainda que não seja recorrente, é importante atualizar o sistema dos aplicativos.
O III Seminário Consumo Consciente 2026: Navegando entre Golpes e Dívidas é promovido pelo Correio do Povo em parceria com o Fórum Latino-Americano de Defesa do Consumidor (FLADC). O evento conta com o patrocínio do Sistema Unimed-RS e o apoio do Ministério Público do Rio Grande do Sul e da Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul.
Fonte: Correio do Povo