Semeadura fora da época recomendada pode diminuir o potencial produtivo das lavouras

Foto : Dater / Divulgação / CP
As chuvas frequentes, um dos efeitos do El Niño, estão comprometendo a preparação das lavouras de arroz da próxima safra. Na Fronteira Oeste, primeira região a iniciar o plantio, entre 60% e 70% das áreas já estão com as taipas implantadas e prontas para receber as sementes. Nesta época do ano, normalmente, esse percentual chega a 90% a 95%. Os números foram informados por Roberto Fagundes Ghigino, vice-presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do RS (Federarroz).
“O produtor está começando a ficar preocupado”, resume.
A janela ideal de plantio começa em 20 de setembro, portanto ainda dentro de um mês, mas estão previstas mais chuvas nos próximos dias e semanas, consequências do fenômeno climático. Há regiões até mais atrasadas, muitas sem nenhuma evolução, mas essas começam a semeadura mais tarde, segundo Ghigino.
“Marca uma chuva grande no domingo, e (assim) vamos praticamente até o fim de agosto sem poder fazer nada nas terras”, lamenta. Mesmo que ocorra um período sem chuvas, são necessários muitos dias secos para que o terreno tenha condições de receber a plantadeira.
“Normalmente, em outros anos, estaríamos com 90%, 95% da área pronta. E a lavoura, para alguns produtores, começaria agora em agosto, fim de agosto, início de setembro. O ‘forte’ nosso é depois do dia 20 de setembro. Mas com esse atraso na Fronteira Oeste, com 60%, 70% (preparada), é de preocupar mesmo, porque não podemos perder a janela de plantio se continuarem essas chuvas”, descreve o dirigente.
Menor produtividade
“Esse eventual atraso pode causar um nascimento desregulado na lavoura, porque tu vai plantando em várias etapas. À medida que planta um pouquinho hoje, daqui três, quatro dias, aí dificulta o manejo. Depois, pode sair fora da janela (ideal), plantando mais tarde, porque depois do dia 15 de novembro começa a ter prejuízos de produtividade.”
“A janela de plantio é a melhor época, a melhor (semente) nascida, a melhor produtividade é até 15 de novembro”, complementa o dirigente. “Ainda é cedo para falar em novembro. Porque a capacidade do produtor hoje de plantio é muito rápida. (Mas) precisamos de uns 15, 20 dias que pare de chover para poder plantar. Mas hoje a situação é preocupante e pode afetar futuramente a produtividade”, diz.
“Tem dificuldade de plantar, atraso no plantio, consequentemente, pode ter uma redução de produtividade e aumento de custo.”
Ainda não há por parte de instituições gaúchas uma estimativa de área dedicada ao cereal em 2026/27, mas o presidente do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), Alexandre Velho, estima que haverá retração de 5% a 10% na área cultivada, que na safra recente totalizou 891,9 mil hectares.
Ghigino compartilha da projeção.
“A tendência do produtor, hoje, é diminuição de área em função, um pouco, do crédito. Está muito complicado o assunto crédito para o produtor. Isso também é outra preocupação, a falta de crédito, a falta de acesso aos recursos”, justifica
Mercado já reflete o atraso
Os efeitos desse atraso no processo de preparação para a implantação das lavouras já chegaram ao mercado.
“O El Niño deixa de ser exclusivamente uma ameaça à produtividade e passa a representar risco de calendário, com chuvas restringindo preparo e semeadura”, lembra Evandro Oliveira, analista e consultor de Safras & Mercado.
“A restrição de capital pode transformar um problema climático em redução efetiva da área implantada”, acrescenta.
O Indicador Safras do arroz em casca no Rio Grande do Sul (58%/62% de grãos inteiros, pagamento à vista) encerrou a quinta-feira, 13, cotado a R$ 75,10, alta de 3,98% em relação à semana anterior. Na comparação com o mesmo período do mês passado, o avanço foi de 22,63%, enquanto, em relação a 2025, a valorização atingiu 7,30%.
Fonte: Correio do Povo