Desenvolvimento pode reduzir custos aos produtores por evitar a dependência da importação de mudas

Foto : Leo Carson / Divulgação / CP
A vitivinicultura da Serra do Rio Grande do Sul vive um momento de transformação que pode redefinir o futuro do setor. Em meio aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, pela necessidade de maior competitividade e pela busca por uma identidade própria para os vinhos brasileiros, produtores e pesquisadores têm voltado a atenção para os clones de videiras.
O tema ganhou força com o avanço do Projeto Seleclone, desenvolvido pela Embrapa Uva e Vinho, em parceria com o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), que busca selecionar e validar clones adaptados às condições ambientais da região. A proposta é oferecer aos viticultores alternativas mais adequadas ao solo e ao clima da região, diminuindo a dependência de materiais genéticos importados da Europa.
“Essa é uma grande vantagem desse trabalho, selecionar um clone aqui, mais adaptado às nossas condições, e obter uma muda livre de vírus, com sanidade superior, à qual os produtores terão acesso via viveiristas, sem a necessidade de comprar material importado”, conta Adeliano Cargnin, chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho.
Embora as variedades cultivadas continuem sendo as mesmas, como chardonnay, cabernet franc ou merlot, dentro de cada uma delas existem pequenas variações naturais, chamadas clones. Essas diferenças surgem por mutações espontâneas ao longo do tempo e podem alterar características importantes da planta, como produtividade, resistência a doenças, maturação da uva e qualidade enológica, segundo a Embrapa.
Menos Dependência
Historicamente, grande parte das mudas utilizadas no Brasil chegou ao país por meio da importação. Esses materiais, no entanto, foram desenvolvidos em condições climáticas bastante distintas das encontradas na Serra Gaúcha. O Projeto Seleclone começou em 2015 e hoje reúne cerca de 135 clones de 59 variedades em diferentes estágios de avaliação. Entre elas, está a chardonnay rosé, ou seja, um chardonnay de baga rosada, mutação que ocorreu no distrito de Tuiuty, em Bento Gonçalves. Desses, 14 já estão em fase final de validação e dois foram encaminhados para registro oficial. A iniciativa busca construir uma base genética mais alinhada às necessidades do setor no Rio Grande do Sul. Além disso, o desenvolvimento de clones próprios pode reduzir custos para os produtores, ao evitar a dependência da importação de mudas.
Para buscar informações, identificar e selecionar clones de interesse dos produtores, o programa promoveu parcerias com o setor. Por meio de visitas a diferentes locais, foram selecionados clones com vantagens específicas.
“Percorremos vinhedos com 10, 15, 20 anos de vida para identificar alguma variação que entendemos ser vantajosa e selecionar esse material. Trazemos para a Embrapa e então limpamos e verificamos a existência de vírus”, explica Cargnin, graduado em Agronomia.
Os clones selecionados a partir de materiais vindos da Europa já passaram pelo processo de avaliação, que durou cerca de oito anos, e as informações sobre as cultivares estão disponíveis aos produtores. Já os clones selecionados na região da Serra ainda estão em fase final de testes, avaliações e validação. A previsão é que, a partir da próxima safra, comece a divulgação dos primeiros clones, como indica o chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho. “Estamos com excelentes perspectivas, porque começamos esse programa há 11 anos e, ao final da próxima safra, em fevereiro ou março, lançaremos os primeiros clones. É um processo de melhoramento.”

Identidade Brasileira
O esforço para desenvolver clones locais surge também como forma de valorização das características próprias do território brasileiro, envolvendo a interação entre solo, clima, relevo, altitude e manejo humano, fatores que influenciam diretamente o desenvolvimento da videira e ajudam a definir a personalidade de cada vinho. Com clones adaptados ao ambiente local, a expectativa é que essa expressão regional se torne ainda mais evidente.
Além da maior adaptabilidade, por se tratar de um clone brasileiro, os testes estão sendo realizados em diferentes indicações geográficas e para diferentes produtos. Assim, tanto o consumidor quanto a vinícola receberão um produto único, com exclusividade de seu território e produção. Tratando-se de espumantes ou vinhos de variedades populares e mundialmente consumidas, os clones conferem maior singularidade, pois são específicos de sua indicação geográfica.
Para a enóloga Bruna Ferreira, do departamento de Enologia e Viticultura do Consevitis-RS, a pesquisa vai além do campo técnico e pode influenciar diretamente a identidade dos vinhos produzidos no Estado.
“Quando o produtor utiliza um material estudado dentro da realidade da Serra Gaúcha, ele passa a ter uma planta mais adaptada e com comportamento mais previsível. Isso reflete na qualidade da uva e, consequentemente, no perfil sensorial do vinho”, afirma.
Impactos
Na prática, o produtor terá acesso facilitado ao material genético, pois as mudas poderão ser adquiridas por meio de viveiristas da região, certificados pelo Programa Mudas de Qualidade da Embrapa e pela Associação dos Produtores de Sementes e Mudas do Rio Grande do Sul (Apassul). Com menor custo e garantia de qualidade, a muda chegará ao solo no momento adequado de plantio, com desempenho satisfatório.
Outro aspecto central do projeto é a saúde das videiras. Além da seleção genética, o trabalho inclui um processo de limpeza sanitária para garantir que os clones disponibilizados aos produtores estejam livres das principais doenças. Essa etapa é considerada essencial, porque a implantação de um novo vinhedo exige investimento elevado, uma decisão equivocada pode comprometer a produção por décadas. Com materiais mais saudáveis e melhor adaptados, os produtores podem reduzir perdas e aumentar a sustentabilidade da atividade.
“A tendência é que nós, enquanto Consevitis, tentamos viabilizar e buscar mais recursos para apoiar”, afirma Bruna sobre o papel da entidade no projeto.
A expectativa é que os clones desenvolvidos no Estado ofereçam melhor adaptação às condições locais, reduzam a necessidade de intervenções e tragam maior regularidade entre safras. Isso pode se traduzir em ganhos econômicos para o produtor e em maior estabilidade para o setor, como destaca Adeliano Cargnin. “São pequenos fatores, pequenas tecnologias, pequenas soluções que vão se agregando ao sistema de produção da região, tornando mais sustentável sob o ponto de vista econômico e ambiental e tornando, cada vez mais, a viticultura brasileira, especialmente a do Rio Grande do Sul, independente.”
Na Serra, onde a história do vinho acompanha gerações de famílias, mudanças dentro da videira podem ajudar a escrever um novo capítulo para a vitivinicultura nacional, com menor dependência externa e maior territorialidade.