Avanço das aves em plantações tem provocado perdas, alterado o planejamento e levado agricultores a buscar soluções improvisadas

Foto : Mauro Schaefer / CP Memória
Laura Dacol*
O canto das caturritas, comum em diferentes regiões do Rio Grande do Sul, deixou de ser apenas um som característico da paisagem urbana e rural para se transformar em motivo de preocupação entre produtores. Em diversas propriedades do Estado, a presença dessas aves tem resultado em prejuízos frequentes e, em alguns casos, crescentes. Milho, girassol, arroz, noz-pecã e até pomares de frutas estão entre os cultivos mais afetados. Esses animais silvestres vêm alterando a rotina no campo e obrigando agricultores a buscar estratégias improvisadas para reduzir as perdas, já que ainda não há solução eficaz para este problema.
De acordo com técnicos e produtores, o milho aparece como a principal cultura atingida. As aves se agrupam em bandos e começam a abrir a ponta da espiga para alcançar o alimento. O prejuízo, porém, vai além da quantidade consumida. A abertura feita por elas facilita a entrada de umidade e favorece o apodrecimento dos grãos, comprometendo a qualidade da produção e muitas vezes tornando inviável o aproveitamento do restante do produto. O técnico da Emater de Pelotas Evair Ehlert, que acompanha a situação em propriedades da região, explica que o dano maior nem sempre é o que as aves comem, mas sim o que sobra.
“O ataque não é a destruição total das espigas. Elas abrem a ponta para acessar os grãos. O principal dano é que essa abertura vira uma porta de entrada para umidade, e ali começa o apodrecimento”, relata ele.
Segundo Ehlert, os ataques acontecem principalmente quando as espigas entram na fase de maturação, período em que há maior disponibilidade de milho nas propriedades. “De novembro, dezembro até agora, em maio, isso segue acontecendo, esses ataques. Enquanto tiver os milhos que os produtores rurais não conseguiram colher, estando na lavoura, está sujeito aos ataques”, afirma. O técnico explica que, na região de Pelotas, predominam pequenas e médias propriedades rurais, o que torna os impactos ainda mais perceptíveis para cada agricultor. Em áreas onde a produção é mais limitada, uma perda parcial já pode comprometer significativamente a renda da família ao longo da safra.
Mudança de Rotina
A ocorrência das caturritas tem levado produtores a reverem o planejamento das propriedades e até a forma como organizam o plantio. Em alguns casos, agricultores passaram a sincronizar o cultivo de milho com os vizinhos para que haja maior oferta de alimento no mesmo período, diluindo os ataques entre várias áreas. A estratégia não elimina o problema, mas reduz o impacto individual sobre cada lavoura. “O que os produtores fazem é basicamente dividir o prejuízo e plantar os milhos mais ou menos na mesma época”, explica Ehlert.
Aqueles que cultivam passaram a observar mais atentamente a localização das plantações de diferentes culturas, que podem servir de alimento para as aves. Árvores altas, como eucaliptos e jerivás, costumam servir de abrigo para os ninhos das caturritas, o que aumenta a incidência nas plantações próximas. Segundo o técnico da Emater, os produtores já conhecem os pontos de maior circulação das aves e tentam reorganizar os cultivos para reduzir os danos. “Quanto mais próximo dos ninhos estiver a lavoura, maior tende a ser o ataque”, afirma.
Em propriedades menores, onde o espaço é limitado, essa adaptação se torna mais difícil. O produtor orgânico Régis Bruhn, que trabalha há 25 anos na produção de alimentos, conta que precisou aprender a conviver com o comportamento das aves ao longo do tempo. Sua produção fica na região do Lami, extremo-sul de Porto Alegre, área marcada pela presença de vegetação, pequenas propriedades e grande diversidade de animais silvestres.
“A propriedade hoje tem basicamente mapeado o local que certas coisas (animais) atacam em determinadas épocas do ano, e eu tento minimizar o problema agindo dessa forma”, relata.
Segundo ele, algumas áreas já não são mais utilizadas para determinados cultivos devido à frequência dos ataques. O planejamento da lavoura passou a considerar não apenas fatores climáticos e de solo, mas também o comportamento dos animais presentes na região.

Foto: Arte: Leandro Maciel sobre imagens de Soraya Ribeiro / PMPA e Régis Bruhn / Arquivo Pessoal / CP
Embora o milho seja apontado pelos produtores como o principal alvo, a alimentação das caturritas varia conforme a oferta disponível em cada época do ano. Quando há menos grãos nas lavouras, as aves passam a atacar frutas e sementes de outras culturas, com prejuízos em girassol, arroz, noz-pecã, pêssego e oliveira. Em alguns casos, os danos são suficientes para alterar completamente o rumo da produção do agricultor.
“A caturrita ataca basicamente milho, girassol e noz-pecã aqui na minha região (extremo-sul de Porto Alegre)”, conta o produtor orgânico Régis Bruhn. Segundo ele, a gravidade da situação tem levado ao abandono de determinadas culturas.
“Tem gente que está mudando de cultura pelo fato desse problema ser tão grave.”
Em propriedades familiares, onde muitas vezes há menor capacidade de investimento em proteção, as perdas podem tornar algumas atividades inviáveis economicamente. O produtor lembra de uma perda importante que aconteceu após a tentativa de cultivo de arroz pré-germinado. Nesse sistema, as sementes ficam expostas sobre o solo úmido, tornando-se alimento fácil para aves. “Em questão de dois dias comeram praticamente toda a semente que eu tinha colocado. Foi terrível”, observa, destacando que na ocasião não foram apenas caturritas, mas também outras espécies de aves atraídas pela facilidade de acesso ao alimento.
Os agricultores utilizam diferentes métodos improvisados para tentar afastar os bandos. Rojões, buzinas, fitas reflexivas, birutas e até gravações com sons de predadores naturais são usados como forma de espantar temporariamente as caturritas. Alguns produtores chegaram a testar gravações com gritos de gaviões. “No início afugenta, mas depois elas começam a se dar conta que tem o barulho e não tem o gavião, elas voltam”, relata Bruhn, que vêm tentando combinar diferentes métodos ao mesmo tempo, no que chama de “combo” de estratégias de espanto. Ainda assim, os resultados são limitados. “O bicho percebe que é só uma enganação e volta”, comenta.
Protegidas por Lei
Mesmo sendo responsáveis por prejuízos nas lavouras, as caturritas são aves silvestres protegidas por lei. Qualquer intervenção direta depende de autorização de órgãos ambientais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Em alguns casos, pode haver autorização para remoção de ninhos fora do período reprodutivo, mas o processo exige licenciamento específico.
“Ações como incendiar ninhos, aplicar veneno ou abater aves representam crime ambiental”, alerta o professor do Departamento de Zoologia da UFRGS Ismael Franz.
Os conflitos entre as aves e os produtores não são recentes, como lembra Franz. “Há algumas décadas já víamos elas em grande abundância no interior. Inclusive, eram mantidas em cativeiro com certa frequência nas propriedades, sendo chamadas de ‘cocota’ em algumas regiões. Mas a heterogeneidade da região é, sim, um fator bastante importante nesse alegado aumento. Talvez o mais importante deles.”
Países como Chile, Espanha e Estados Unidos também enfrentam problemas semelhantes com a espécie, pois ainda não existe uma solução definitiva ou amplamente recomendada para o manejo das caturritas nas áreas agrícolas. O zoólogo defende que o problema precisa ser tratado de forma coletiva, envolvendo produtores, universidades e órgãos públicos, com medidas para garantir assistência especializada aos produtores. “Entendo que o produtor queira individualmente reduzir ou acabar com o problema, mas o cenário ideal seria a iniciativa privada se unir aos órgãos do governo nessa busca por solução. De todas as ações possíveis, a que é apontada pelas pesquisas como a mais eficaz tem relação com a rotatividade das culturas.”
Na ausência de controle definitivo sobre as caturritas, agricultores seguem tentando equilibrar a preservação da espécie e a proteção da produção, com a utilização de métodos alternativos para afastá-las das lavouras, que garante o sustento econômico das propriedades.
A caturrita possui características que favorecem sua adaptação ao ambiente agrícola. “Os psitacídeos, família a qual inclui a caturrita, têm boa capacidade adaptativa. São aves inteligentes e uma das espécies que melhor se adaptou ao ambiente rural foi justamente a caturrita”, é o que explica o professor Ismael Franz.
Segundo ele, a espécie possui uma dieta ampla, mas baseada principalmente em grãos médios e grandes, abundantes nas lavouras. Além disso, se reproduzem com facilidade e encontram abrigo ideal em árvores altas presentes nas propriedades rurais, o que contribui para a elevada população de aves. “O plantio de árvores exóticas como o eucalipto criou o substrato perfeito para seus ninhos comunitários”, explica.
Outro fator que favorece o crescimento da população é a baixa presença de predadores naturais. “Os falcões que podem predar a caturrita geralmente ocorrem em baixa densidade nesses locais”, afirma Franz. A combinação entre oferta abundante de alimento, facilidade de reprodução e poucos predadores cria condições ideais para a permanência das aves próximas às lavouras. O pesquisador destaca ainda que o comportamento social das caturritas amplia o potencial de dano às plantações.
“Trata-se de uma espécie gregária. Alguns bandos podem apresentar dezenas de indivíduos”, explica.
O hábito de viver em grupo facilita a ocupação rápida das áreas agrícolas e torna os ataques mais intensos em um curto espaço de tempo.
Oferta de Recursos
As aves costumam retornar às mesmas áreas de alimentação conforme a disponibilidade de recursos. “Quando as propriedades apresentam o mesmo calendário agrícola ano após ano, a tendência é que as aves retornem anualmente. O produtor pode verificar se as caturritas somem no auge do inverno, por exemplo, e se retornam e aumentam em abundância na primavera, verão ou no pico da sua produção”, esclarece.
Isso faz com que os produtores passem a conviver permanentemente com o problema. Quando a propriedade apresenta maior diversidade de vegetação, com plantas nativas e diferentes fontes de alimento, os impactos tendem a ocorrer de maneira menos intensa, pois a oferta de alimento é ampla, como observa o zoólogo. “Uma propriedade composta de monoculturas de grãos e sem manchas de ambientes nativos e outras paisagens estará mais suscetível à concentração de caturritas e outros predadores”, explica.