Segundo a Receita Federal, mercado irregular responde a hábitos de consumo da população. Confisco de anabolizantes e suplementos também aumentou

Jonathan Heckler / Grupo RBS
O avanço no consumo de produtos voltados à saúde, à estética e ao emagrecimento, tendência que movimenta a medicina e as redes sociais, extrapola o mercado formal e também aparece nas apreensões de mercadorias ilegais no Rio Grande do Sul. As canetas emagrecedoras são hoje o exemplo mais expressivo desse movimento. Sem registros de apreensões pela Receita Federal no Estado até 2024, foram 124 unidades recolhidas em todo o ano de 2025. Em 2026, somente entre janeiro e setembro, são 3.306. O volume em nove meses deste ano já supera em 2.566% o total do ano passado. O montante recolhido em 2026 é avaliado em R$ 1,27 milhão.
A alta não se restringe aos tratamentos para obesidade e diabetes. As apreensões de outras categorias ligadas aos cuidados pessoais e à forma física também já superam os totais do ano passado. As quantidades de anabolizantes e hormônios passaram de 532 em todo o 2025 para 13,4 mil unidades entre janeiro e setembro; as de vitaminas e suplementos alimentares, de 1,6 mil para 7,2 mil pacotes; e as de perfumes, de 37,9 mil para 261,1 mil unidades, na comparação entre 2025 e janeiro a setembro de 2026.
O auditor-fiscal Eduardo Rossi Mielke, chefe da Divisão de Repressão ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal no Estado, explica que o aumento não está ligado a uma operação específica, mas ao maior volume desses produtos em circulação:
— As variações nas nossas apreensões refletem o hábito de consumo das pessoas. Tu começas a pegar mais o que está circulando mais. No caso das canetas emagrecedoras, o volume aumenta porque há muito mais entrando ilegalmente no país para atender à demanda.
A tendência também aparece nos números nacionais. Em todo o Brasil, as apreensões de canetas emagrecedoras passaram de 33,3 mil unidades em 2025 para quase 350 mil entre janeiro e setembro de 2026 — com valor estimado em R$ 117,1 milhões. Por trás desses números, há diferentes caminhos até o consumidor.
Escondidos em motores e camuflados em encomendas: como os produtos chegam ao RS
A fronteira com o Paraguai é uma das principais portas de entrada desses produtos no país, com grandes cargas destinadas a polos como São Paulo. No Rio Grande do Sul, segundo a Receita Federal, a distribuição é mais dispersa. As mercadorias chegam por encomendas dos Correios e de transportadoras, misturadas a cargas lícitas, como as de soja, ou escondidas em carros de passeio e ônibus, inclusive em compartimentos dos próprios veículos.
— Entra tanto por via aérea quanto escondida em carros, caminhões e ônibus. É até difícil estabelecer uma rota. Na fronteira com o Paraguai, por exemplo, é absurdo os locais onde estamos encontrando as canetas emagrecedoras. São produtos que deveriam estar refrigerados, mas aparecem dentro de motores de carros e ônibus e até em pneus. Depois, são vendidos aqui — relata o auditor-fiscal.

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A variedade de rotas e esconderijos também exige o aperfeiçoamento da fiscalização. Segundo Mielke, há cerca de uma década a Receita Federal dependia mais de abordagens nas estradas, com rondas e inspeções de caminhões e outros veículos. Hoje, a atuação se apoia na inteligência, com cruzamento de dados e análise de informações sobre as cargas.
Esse trabalho permite identificar encomendas com descrições genéricas ou que não correspondem ao conteúdo transportado. Dados como peso, dimensões, origem e percurso ajudam a detectar possíveis irregularidades e orientar as ações de fiscalização.
Sem garantia de composição e conservação
A circulação de canetas emagrecedoras, anabolizantes e suplementos no mercado ilegal também preocupa profissionais e autoridades de saúde. A endocrinologista Letícia Schwerz Weinert, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Rio Grande do Sul (SBEM-RS), alerta para os riscos relacionados à composição dos produtos clandestinos e às condições em que são transportados e armazenados.
— O paciente pode não estar recebendo o produto que gostaria. No caso das canetas para o tratamento do diabetes e da obesidade, por exemplo, não temos como garantir que o produto tenha realmente semaglutida ou tirzepatida (princípios ativos dos medicamentos), porque produtos clandestinos não têm regras de fiscalização. A outra questão é a falta de garantia sobre como isso foi armazenado, se foi na temperatura ou no transporte correto — explica.

Receita Federal / Divulgação
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda a compra de medicamentos apenas em farmácias e drogarias regularizadas. O uso de produtos ilícitos ou conservados inadequadamente pode causar contaminação, infecções e reações adversas, além de comprometer a eficácia do tratamento.
Apreensões no RS somam R$ 114,8 milhões em 2026
Embora as canetas emagrecedoras tenham registrado a maior alta percentual, os cigarros tradicionais lideraram o volume de apreensões da Receita Federal no Rio Grande do Sul em 2026. Entre janeiro e setembro, foram recolhidos quase 4 milhões de maços, 52,9% a mais do que em todo o ano de 2025. O valor chegou a R$ 26,5 milhões.
A forma de abastecer o mercado gaúcho também mudou. Segundo o auditor-fiscal Eduardo Rossi Mielke, a produção clandestina local ganhou espaço em relação às grandes cargas vindas do Paraguai, via Mato Grosso do Sul. Em 2021, a Operação Tavares ficou conhecida pela descoberta de uma fábrica instalada em um bunker subterrâneo em Triunfo, onde foram apreendidos cerca de 10 milhões de maços.
Entre outras categorias com registros expressivos estão cosméticos e componentes e peças de informática. As apreensões de cigarros eletrônicos e essências já superam em 73,8% o total de 2025, e as de celulares e smartphones, 50,3%.
O valor total das mercadorias apreendidas no Estado já soma R$ 114,87 milhões entre janeiro e setembro de 2026 — foram R$ 101,18 milhões em todo o 2025. A maior parte corresponde a cigarros, que responderam por R$ 26,5 milhões.
Os dados incluem contrabando, que envolve a importação de mercadorias proibidas por lei, e descaminho, caracterizado pela entrada de produtos permitidos sem o pagamento dos impostos devidos.
Produtos com maior volume de apreensões em 2026
Dados consideram período de janeiro a setembro
- Cigarros tradicionais: 3.983.520 maços (alta de 52,9% em relação ao ano todo de 2025)
- Cosméticos: 334.169 unidades (alta de 42,7% em relação ao total do ano passado)
- Componentes e peças de informática: 289.969 unidades (alta de 1.539,3% em relação ao total de 2025)
- Perfumes: 261.150 frascos (alta de +588,8% em relação ao total de 2025)
- Outros eletrônicos: 127.397 unidades (alta de +87,5% em relação ao total de 2025)
- Bebidas alcoólicas: 78.739 garrafas (em todo o ano de 2025 foram 185.424)
- Vinhos: 43.247 garrafas (no total de 2025 foram 57.713)
- Celulares e smartphones: 25.028 aparelhos (número já é 50,3% maior do que o total de 2025)
- Cigarros eletrônicos (vapes) e essências: 24.989 unidades (número já é 73,8% maior do que o total de 2025)
- Bebidas não alcoólicas: 16.742 unidades (em todo o ano de 2025 foram 55.006)
O destino das mercadorias apreendidas
A destinação das mercadorias apreendidas pela Receita Federal depende das características dos produtos e da possibilidade de aproveitamento legal. Itens que atendem às exigências podem ser doados a entidades assistenciais, destinados ao uso público ou encaminhados a leilões. Já produtos falsificados, sem registro sanitário ou que ofereçam riscos à saúde e à segurança precisam ser destruídos.
Segundo informações da Receita Federal, mudanças na gestão dos materiais apreendidos ampliaram as possibilidades de aproveitamento e reduziram os custos e os impactos ambientais do descarte. Antes, cerca de 60% dos itens eram destruídos e 40% aproveitados. Atualmente, a proporção se inverteu, com aproximadamente 60% destinados ao uso social ou público e 40% encaminhados para descarte e destruição.
O órgão também mantém parcerias com universidades para dar novos usos a determinados produtos. Bebidas alcoólicas apreendidas, por exemplo, podem ser transformadas em combustível e álcool em gel.
Fonte: GZH