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Agosto Branco: desigualdade contribui para letalidade por câncer de pulmão

Doença é a principal causa de mortes por tumores malignos no mundo

Doença está entre as quatro mais frequentes e causa 32 mil mortes por ano no Brasil
Doença está entre as quatro mais frequentes e causa 32 mil mortes por ano no Brasil
Foto : Pedro Piegas / CP Memória

Apesar da queda dos índices de tabagismo nas últimas décadas no Brasil, principal fator de risco para desenvolvimento de câncer de pulmão, a doença segue sendo o tipo de tumor maligno mais letal. Uma estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA) aponta que, apenas no Rio Grande do Sul, devam ser diagnosticados cerca de 3,5 mil novos casos ainda neste ano. Mais de 32 mil brasileiro foram vítimas da doença no ano passado.

Dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) mostram que cerca de 11,06% da população brasileira se declara fumante de cigarro convencional. A ocorrência é a terceira mais comum em homens e a quarta mais frequente em mulheres, o que acompanha os dados mais recentes sobre tabagismo no Brasil, em que 9,6% da população feminina adulta é fumante, enquanto 15,9% dos homens da mesma faixa etária têm o hábito.

Para o pesquisador e vice-reitor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Rafael Vargas, essa relação reforça a importância de campanhas de conscientização contra o tabagismo, como estratégia de prevenção da doença. “A maioria das pessoas que estão tendo diagnóstico já passou dos seus 50 anos e fumou no mínimo 40 anos. O câncer de pulmão é um dos mais comuns porque há 30 anos uma considerável população fumava no Brasil”, explica o pesquisador.

Entretanto, o câncer de pulmão não é exclusividade para os fumantes, de acordo com o que avalia a Diretora Executiva do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), Ana Gelatti. “Há outros fatores, como tabagismo passivo, poluição do ar, exposição ocupacional a substâncias como amianto, sílica e diesel, exposição ao radônio e fatores individuais e genéticos”, afirma a oncologista.

Prevenção

Além de abandonar o cigarro, evitar os demais fatores de risco podem ser determinantes para a prevenção da doença. O diagnóstico precoce também está relacionado a maiores possibilidades de sucesso de um eventual tratamento e até a remissão da doença. Porém, a médica adverte que a identificação da formação cedo esbarra na dificuldade de identificar a doença no início. “O câncer de pulmão frequentemente não provoca sintomas específicos nas fases iniciais. Quando aparecem sintomas como tosse persistente, falta de ar, dor torácica, perda de peso ou sangue no escarro, a doença pode já estar em estágio mais avançado”, explica.

Em resposta a essa realidade, os especialistas defendem iniciativas de rastreamento de grupos de risco. “Estudos randomizados demonstraram que a tomografia de tórax de baixa dose pode reduzir a mortalidade por câncer de pulmão em pessoas adequadamente selecionadas”, defende a especialista.

O exame é indicado para pessoas que fumam há muito tempo ou que mantiveram o hábito por muitos anos até decidirem parar, para identificar cedo lesões curáveis e evitar a evolução do quadro. No entanto, esse mapeamento não está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que dificulta o diagnóstico precoce da população que depende da saúde pública.

Desigualdades

De acordo com os especialistas, a desigualdade de acesso aos serviços relacionados ao câncer é um fator de risco reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e, portanto, é um dos principais obstáculos para a redução da mortalidade pela doença. Além disso, as células cancerígenas do pulmão têm grande capacidade de disseminação para outros órgãos, o que faz com que a agilidade de um tratamento adequado seja determinante para a sobrevida do paciente.

“No Brasil existe um acesso desigual ao diagnóstico e ao tratamento. Alguns estados demoram mais tempo para fazer um diagnóstico e iniciar o tratamento. Então, acredito que o grande desafio do futuro é o acesso ao diagnóstico e tratamento em tempo hábil para todos e todas”, defende Rafael Vargas. A diferença também é perceptível pelo recorte de renda dos pacientes de uma mesma região.

“A desigualdade pode aparecer em todas as etapas: maior exposição a determinados fatores de risco, menor acesso a programas de cessação do tabagismo, dificuldade de acesso à tomografia e ao rastreamento, demora para realização de biópsia, menor disponibilidade de testes moleculares e acesso desigual às terapias mais modernas”, explica Ana Gelatti.

Para a especialista, o enfrentamento à doença é um esforço multidisciplinar e complexo do qual a tecnologia é uma grande aliada, tornando o tratamento progressivamente individualizado. No entanto, o acesso às novas terapias precisa ser estendido à populações mais vulneráveis para converter o avanço das pesquisas em redução efetiva dos números de casos e dos índices de mortalidade.

Tecnologia e a detecção precoce

Além da detecção precoce, possibilitada pela tomografia computadorizada de baixa dose, o avanço da tecnologia auxilia na precisão e qualidade do diagnóstico. A investigação por alterações genéticas a nível molecular nos pulmões podem determinar de forma mais específica o tipo de tratamento adequado para cada caso. “Buscamos entender qual é a alteração que está impulsionando aquele tumor e qual tratamento apresenta maior probabilidade de funcionar para aquele paciente”, defende a oncologista.

Somado a esses avanços, o pesquisador também destaca o uso da Inteligência Artificial aliada à medicina para auxiliar na análise de imagens. “Existem vários estudos com inteligência artificial que olham esses essas tomografias e conseguem às vezes identificar alterações muito precoces, aumentando as chances de cura”, avalia Vargas.

Dependendo do estágio da identificação da doença e o tipo de tratamento adotado, após a remissão o paciente pode apresentar sequelas respiratórias, fadiga persistente e alterações endocrinológicas, mesmo passado algum tempo após o término do tratamento. Tendo em vista esse quadro, é indicada a continuidade do acompanhamento para estimular atividades físicas, reabilitação, detectar e tratar efeitos tardios, além de monitorar a saúde emocional do paciente.

Fonte: Correio do Povo

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