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Ações buscam preservar a tradição da macela

Foto : Samuel Maciel / CP Memória

As plantas carregam simbolismos que unem pessoas aos territórios. Assim é com a macela, também chamada de marcela, espécie-símbolo do Rio Grande do Sul e ameaçada de extinção. Após as enchentes de 2024, a reprodução sofreu impactos com a falta de luminosidade, diminuindo a propagação, segundo o farmacêutico e extensionista na Emater/RS-Ascar Alexandre Ferreira Schmidt.

“Aquela tragédia que marcou o gaúcho também teve impacto na macela, porque a reprodução dela tem que acontecer com a luminosidade e acabou não acontecendo. A gente teve a questão do (acúmulo de) água também e acreditamos que seja pela questão da chuva de 2024.”

Na busca pela preservação e propagação da espécie e seu simbolismo, o grupo Guardiãs da Marcela aproveita a diversidade da planta para produzir de forma sustentável. “Quando a gente deu falta da planta e que ela estava sendo extinta, que a gente não via mais como nos anos anteriores, vimos que nós tínhamos que fazer alguma coisa”, conta Vilma Marinho Frubel, presidente da Associação das Artesãs Mãos Femininas.

O projeto começou há 11 anos, através do cultivo de um relógio medicinal, formado por assentadas da reforma agrária, pescadoras, agricultoras e artesãos do meio urbano. Residente do Assentamento 30 de Maio, no município de Charqueadas, Vilma explica que a plantação de macela iniciou em 2023, com sementes adquiridas através da Emater/RS-Ascar, e, no último ano, foram colhidas as primeiras sementes da planta, utilizadas para a multiplicação da espécie na região.

“Ficamos muito felizes porque, então, nós tínhamos aquela planta que estava sendo extinta e também sabíamos de onde ela vinha e que podíamos, sim, usá-la de forma adequada, sabendo da sua procedência. E nós, guardiãs da macela, temos muito o que fazer ainda para continuarmos cultivando a macela e fazer com que ela volte a ser aquela planta que estava presente lá na nossa ancestralidade, porque, quando se pega um ramo de macela, lá vem a história de nossas avós, de nossas mães, enfim, a história de nossos ancestrais”, avalia a presidente da associação.

Ela observa que, com o resgate do cultivo, é possível recuperar também a cultura dos ancestrais e a sabedoria popular. “Essa planta, presente em nossas casas, é um saber do passado que volta”, salienta. O conhecimento se mantém entre as famílias, que utilizam a macela no preparo de chás tanto pelo uso tradicional quanto pelas propriedades medicinais atribuídas a ela. Segundo a Cartilha das Plantas Medicinais da Secretaria Estadual da Saúde, a ação é antidispéptica, antiespasmódica e anti-inflamatória.

A sede da Associação das Artesãs Mãos Femininas abriga o horto de plantas medicinais cultivadas pelas mulheres, onde a macela é a principal espécie cultivada e pode ser visitado. Além dela, há outras espécies no local.

A preservação, assim como o uso correto e eficiente das plantas, passa pelo processo de reconhecimento. A macela apresenta diferentes formas durante seu desenvolvimento, sendo a fase inicial mais difícil de reconhecer. Schmidt aponta esse como um dos principais desafios na manutenção da espécie. “A gente conhece a macela na forma adulta, isso é um uso bem difundido. Mas olhar ela no crescimento espontâneo, na forma de muda, é uma questão que nós percebemos no trabalho do dia a dia que as pessoas, até mesmo agricultores que estão habituados, não reconhecem”, conta.

Suas sementes muito pequenas podem dificultar o plantio, mas servem como defesa para manter sua continuidade através do vento, conforme Schmidt.

“Para a reprodução nativa da planta, é uma segurança, uma fortaleza. Porque o vento garante que essa semente vá para longe pelo tamanhinho dela. Para plantar em um ambiente doméstico, é preciso coletar essa semente, esse pozinho e colocar sobre uma caminha muito superficial, sem cobrir com muita terra”, ensina o farmacêutico.

A germinação se dá em um ambiente com alta incidência de sol e luminosidade, além do recebimento de água. Schmidt indica que o período de cultivo é durante os meses de agosto, setembro e outubro, sendo o último o mais adequado.

A macela, com suas pequenas flores amarelas no topo dos galhos, apresenta funções para além das medicinais e alimentícias, sendo utilizada para diferentes formas de artesanato, mas sua extração deve ser consciente, e sua preservação na forma nativa, prioridade. “Temos que ter consciência sobre essa extração. E qual é o impacto que ocorre quando tu faz algo sem pensar no quanto tu tens que deixar ou devolver para a natureza. Para que essa planta, que é nativa nossa, possa se replicar naturalmente”, explica Schmidt.

Potencial comercial das plantas medicinais no RS

No campo, as plantas medicinais fazem parte da rotina de muitas famílias há gerações. São espécies cultivadas nos quintais, coletadas nas propriedades e utilizadas de diferentes formas, conforme o conhecimento aprendido dentro da própria família. Esse uso, que durante muito tempo ficou restrito ao consumo doméstico, também começa a encontrar possibilidades de comercialização.

Entre os hortos acompanhados pela Emater/RS-Ascar, predominam os destinados ao uso doméstico. De acordo com o técnico estadual Gervásio Paulus, são 4.920 hortos desse tipo, 140 comunitários, 2.463 escolares e 116 comerciais. Embora o cultivo esteja presente em propriedades e comunidades, a produção voltada ao mercado ainda representa uma parcela menor. “Acho que esse é o desafio maior, é desenvolver a cadeia produtiva”, diz.

As espécies cultivadas se dividem entre nativas, florescendo naturalmente no Estado, e exóticas, em sua maioria trazidas por imigrantes e, segundo Paulus, amplamente semeadas. “A maior parte das espécies cultivadas no Estado são exóticas, envolvendo mais a produção de óleos essenciais extraídos principalmente da lavanda. Tem outras espécies, mas o carro-chefe é a lavanda.” Entre as espécies nativas citadas pelo agrônomo estão a macela, a espinheira-santa, o guaco e a erva-baleeira, encontrada principalmente no Litoral. A carqueja também é conhecida pelo uso tradicional, especialmente em preparações como o chá. A diferença é que essas espécies ainda têm uma participação pequena na produção comercial. Em muitos casos, o acesso ocorre pelo extrativismo.

As plantas medicinais fazem parte da rotina de muitas famílias há gerações

As plantas medicinais fazem parte da rotina de muitas famílias há gerações | Foto: Arte de Leandro Maciel

Fonte: https://www.correiodopovo.com.br/

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