
Leandro Mariani Mittmann
Principal produtor e exportador de tabaco do Brasil, o Rio Grande do Sul concentra uma atividade que combina forte impacto econômico, alta geração de renda no campo e crescente pressão internacional. Em pequenas propriedades, a cultura garante renda acima da média, mas cobra um preço elevado relacionado à dedicação e mão de obra.
É o segundo produto mais importante para as exportações gaúchas do agronegócio. No ano passado representou 17,7% dos embarques, ou 2,744 bilhões de dólares, à frente até das carnes (bovina, suína e avícola), com receita de 2,308 bilhões de dólares, e atrás do complexo soja, que vendeu 6,333 bilhões de dólares, ou 40,3%. Apenas em outubro, a estatística mais recente, o Estado exportou 300 milhões de dólares em tabaco, 70% superior ao mesmo mês de 2024. Ao todo, 92 países receberam o fumo gaúcho no ano passado. Neste ano, até novembro os embarques somavam 2,508 bilhões de dólares, resultado de 424 mil toneladas enviadas, ou fatia de 22,47% das exportações do agro.
O Departamento de Economia e Estatística (DEE), vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do RS, elaborou o estudo “Cadeia Produtiva do Fumo”, de autoria do analista pesquisador Ricardo Leães, que abordou o segmento, sua relevância econômica e as transformações recentes no Estado e no Brasil. “A atividade está concentrada na região Sul do país, que reúne mais de 90% da produção brasileira”, constata o trabalho. Conforme a Radiografia da Agropecuária Gaúcha 2025, no ano passado o Estado destinou 158,73 mil hectares à cultura, o que produziu 343,29 mil toneladas e gerou um Valor Bruto de Produção de R$ 5,74 bilhões.
Como maior exportador mundial de fumo não manufaturado desde 1993, o Brasil destina aproximadamente 90% da produção ao mercado externo, principalmente à Ásia. “A rentabilidade da cultura é historicamente elevada, e a base produtiva é formada majoritariamente pela agricultura familiar, com 138 mil famílias envolvidas e cerca de 550 mil empregos diretos nas lavouras em 2023”, detalha o trabalho do DEE.
Pressão e mudanças
Apesar da relevância, o segmento enfrenta uma permanente pressão internacional visto os compromissos assumidos pelo Brasil na Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), da Organização Mundial da Saúde (OMS). “O documento destaca a tensão entre os ganhos socioeconômicos e as políticas de redução do consumo, além das críticas associadas aos impactos sociais e ambientais da fumicultura”, menciona o DEE. O estudo ainda observa que o setor tem sido submetido a mudanças estruturais e de demanda, inclusive que os fumantes no país caíram de 15,7% da população, em 2006, para 9,3% em 2023, o que pressiona o consumo interno.
Também mostra que o desempenho recente está sustentado pelas exportações, mas a volatilidade dos preços internacionais e a redução do consumo global tornam o “cenário incerto”, assim como há dificuldade para a diversificação produtiva em regiões dependentes da cultura, “o que reforça a necessidade de políticas públicas de transição e alternativas econômicas para pequenos produtores”.
Quanto ao futuro da atividade, o consenso é que sempre haverá cobranças pela redução do consumo do cigarro, e até por eventuais restrições a embarques. “Sempre informamos sobre os cenários da produção de tabaco para todos os produtores. Temos enfatizado e orientado para não produzir mais do que a sua capacidade da propriedade, ou seja, em primeiro lugar, da infraestrutura da cura e do trabalho que pode ser feito na cultura do tabaco, bem como também a mão de obra. Se a mão de obra tiver que ser terceirizada, ela se torna muito difícil, onerosa, com custos elevados”, alerta o presidente da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), Marcilio Drescher.
Para o dirigente, se o segmento produzir tabaco no equilíbrio em que os mercados mundial e nacional absorvem, sempre haverá garantia de rentabilidade. “Se nós produzirmos muito mais, tivermos mais oferta do que a demanda, o preço médio reduz”, lembra. “A nossa exportação brasileira está muito estável nos últimos anos e isso nos tem ajudado na segurança da renda do produtor”, diz.
Fonte: Correio do Povo