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Mulheres assumem protagonismo no campo com a sucessão familiar

Vivências agregam na troca de conhecimentos e perspectivas para a produção, desafiam tradições e ampliam o papel da mulher no agro gaúcho

Stefani Harthmann, de 23 anos (esquerda), e Rosa Harthmann, de 60 (direita), tocam sozinhas vendas de geleias e doce de leite.
Foto: Camila Cunha

Entre lavouras majoritariamente administradas por homens, o protagonismo feminino redesenha o campo. Na lida, essas histórias também são impulsionadas pela sucessão familiar. É a história de Rosa Harthmann, de 60 anos, e Stefani Harthmann, de 23, que moram no município de Cristal, às margens do rio Camaquã, e tocam, sozinhas, vendas de geleias e doce de leite. Com a diferença de idade, as vivências também agregam na troca de conhecimentos e perspectivas para a produção, desafiam tradições e ampliam o papel da mulher no agro gaúcho.

Com produtos diferenciados, a dupla mostra que o trabalho pode passar pelas mãos delas e fazer a diferença na agricultura familiar. Na edição da Expodireto 2026, suas geleias com álcool e doces de leite sem lactose fizeram sucesso entre o público.

Antes do crescimento nos doces, a família Hartmann cultivou produção de tabaco por 35 anos. O crescimento da agroindústria pressionou Rosa para se direcionar a outro cultivo. Escolheram a plantação de morangos e, dali, surgiu a opção da produção e comercialização de geleia, para o Morangos da Rosa. Hoje, trabalham em uma área de 17 hectares. Seus outros dois filhos decidiram ir para a cidade e seguir carreira na área da saúde, mas Stefani, que foi braço direito da mãe desde quando a idade cabia em uma palma da mão, ficou e começou a seguir seu próprio negócio na venda do doce de leite, com o Harth Doces.

“A gente sempre foi muito parceira, desde a época que plantávamos fumo, depois os morangos, passamos para geleia, e a gente começou a escutar bastante o público”, relata Stefani. “Dali, surgiu a oportunidade e a gente começou com doce de leite tradicional, que todo mundo sabia fazer, desde o tempo da vó”, conta.

Futuro no campo

Stefani chegou a ser aprovada para o curso de Medicina, em Pelotas, mas decidiu optar por crescer profissionalmente no campo, onde sempre viu futuro. “A gente já estava com a plantação de morango, e eu não sabia como ia fazer para ir para Pelotas. O que pesou mais foi a parte familiar. Passei para Medicina, mas vejo também que aqui tem futuro”, diz. “Estou recebendo muito bem, o que estaria apenas com três anos de faculdade, ou formada. É algo que eu gosto estar entre a família, porque tu sabes também que, quando passa para Medicina, tu precisa se focar naquilo”, completa.

O desafio da dupla é, também, liderar produções em uma clientela ainda considerada machista, que não olhava para os doces ao fazer as compras. “Com o tempo, a gente viu que doce é coisa de mulher. A gente queria atrair o público masculino”, conta Rosa. “Um homem entra na feira e quer queijo, quer salame, quer cachaça. O homem não compra doce. Isso ele acha que a mulher tem obrigação de fazer em casa. Isso é triste”.

Com a dificuldade para atrair mais clientes em um ambiente majoritariamente masculino, Rosa pensou que seria interessante apostar em algo que pudesse interessar, como geleias salgadas, como de bacon com tomate e cebola com vinho, e também com álcool, como de butiá com cachaça, morango com vinho e, também, de espumante. “Faz sete anos que a gente está vendendo, e as geleias diferenciadas são recorde de vendas. Se elas não vendem pelo menos atraem para o comércio”, relata.

Além de variar nos sabores, como doce de leite com nozes e com maracujá, os produtos de Stefani também têm outro diferencial: ela aposta em produções sem açúcar e sem lactose, para atrair o público intolerante, celíaco e diabético. Apenas na Expodireto, foram vendidas quase 100 unidades dos produtos.

Rosa lembra que os consumidores estão em busca de alimentos mais saudáveis. “São produtos que dão qualidade de vida para um diabético, para uma pessoa celíaca, uma que é intolerante à lactose. Isso o público está aceitando, está buscando e está dando uma boa aporte financeiro pra gente”, diz Rosa. “A gente se estabilizou em ser diferente”, resume a filha.

Inspiração para outras mulheres

O crescimento e a independência das mulheres é o que fortalece a dupla e o que, acreditam, possa impulsionar outras mulheres na agricultura familiar. “Já vi mulher chegar em mim e dizer que eu sou um exemplo, e que ainda tem muito medo de não ter apoio. São pessoas muito dependentes dos seus maridos”, relata Rosa.

Stefani diz que, na agricultura familiar, o que pesa primeiro é a produtora ser jovem e ser mulher. Ela relata ainda ser um trabalho desafiador no meio, considerando que ainda há tanto clientes quanto concorrentes machistas. “É desafiador. Todo mundo ainda está acostumado com um homem no campo e a mulher em casa. A partir do momento que vira essa história, a mulher também tem a capacidade de sair e fazer o que quer nos dias de hoje”, diz.

“Mas a gente é mulher. A gente é guerreira, então a gente levanta a cabeça e não dá bola. A hora que chega um cliente que chega em ti dizendo: ‘bah, eu estava procurando para comprar de vocês de novo’, a gente esquece tudo, e lembra que teu trabalho vale a pena”.

Fonte: Correio do Povo

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