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Litoral Norte é referência na produção de frutas

Foto: Fabiano do Amaral
Foto: Fabiano do Amaral

Sob o sol intenso do verão, entre o azul do oceano e o verde da serra do mar, o Litoral Norte do Rio Grande do Sul sustenta uma produção agrícola que aparece como estratégica para a economia rural da região. Embora seja mais associado ao turismo e às praias, o litoral concentra quase toda a plantação de banana do RS e abriga o principal polo estadual de abacaxi, com destaque para o município de Terra de Areia.

Os números impressionam. São 11,7 mil hectares de banana, responsáveis por uma produção anual de 158 mil toneladas, que movimentam cerca de R$ 729,5 milhões. A cadeia é majoritariamente formada por agricultores familiares, muitos deles em áreas pequenas, mas altamente produtivas, com sistemas que combinam tradição, adaptação climática e, em alguns casos, produção orgânica.

A fruticultura do Litoral Norte é marcada pela diversidade e pela forte relação com o turismo de verão. Segundo o técnico agrícola e chefe do escritório da Emater de Três Cachoeiras, Micael Machado Teixeira, a banana segue como a principal cultura da região, seguida pelo abacaxi, que tem em Terra de Areia sua principal referência.

“Nas culturas dominantes no ramo da fruticultura, nós temos a banana, depois temos o abacaxi, com uma referência de Terra de Areia. Temos produção de maracujá, morango e pitaya. Mas praticamente todo quintal de casa tem bergamota, laranja, limão e, às vezes, um plantio um pouquinho maior para venda”, observa.

Verão

Boa parte da colheita ocorre no verão, incluindo a do maracujá e do abacaxi. “É uma época em que a demanda por fruta aumenta muito no Litoral, porque boa parte da população vem passar as férias aqui”, explica.

De acordo com a Emater, a área plantada de abacaxi no Litoral Norte é superior a 300 hectares, considerando que a cultura leva cerca de dois anos a dois anos e meio para produzir, com metade dessa área colhida a cada verão.

Apesar do bom momento produtivo, o setor enfrenta desafios, especialmente relacionados à mão de obra. “As famílias vêm diminuindo e muitos filhos têm abandonado um pouco a lavoura, indo para a cidade. E aqui é tudo demanda por mão de obra, não tem como mecanizar como nas commodities”, afirma Teixeira. Apesar disso, a proximidade com grandes centros consumidores facilita o escoamento.

“Tudo que é produzido no nosso Litoral Norte hoje tem facilidade de venda. Quando é um volume maior, temos o Ceasa em Porto Alegre e mercados da Região Metropolitana”, destaca.

Para o secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Terra de Areia, Belchior Braga, o abacaxi vai além da produção agrícola e se confunde com a própria identidade do município. “A produção agrícola sempre teve, e continua tendo, um papel fundamental na economia de Terra de Areia. É impossível não destacar três atividades que sustentam muitas famílias: o cultivo do abacaxi, da banana e a bovinocultura”, explica.

Segundo ele, cerca de 120 famílias vivem diretamente do abacaxi. “Mais do que números, estamos falando de uma tradição que passa de geração em geração. Temos produtores que estão há mais de cinco gerações no cultivo do abacaxi, fruto que é reconhecido pela sua qualidade e pelo sabor, sendo considerado um dos mais doces e saborosos do mundo”, ressalta.

Para o secretário, a safra atual reforça esse protagonismo. “Estamos vivendo uma das maiores safras já registradas no município, com a expectativa de colher quase 8 milhões de frutas. Esse resultado positivo é fruto, principalmente, das boas condições climáticas ao longo do desenvolvimento da cultura e do trabalho sério dos nossos produtores”, destaca.

Além do abacaxi, a banana também aparece como pilar econômico, envolvendo cerca de 150 famílias em uma área próxima de 890 hectares, enquanto a bovinocultura soma mais de 6 mil cabeças de gado cadastradas.

Além das atividades principais, Belchior ressalta a diversidade produtiva local, com hortigranjeiros, pesca artesanal e agroindústrias voltadas ao beneficiamento. “Tudo isso mostra que Terra de Areia vem crescendo de forma consistente nos últimos anos, com uma agricultura forte, diversificada e que sustenta a economia local, aliada a um comércio ativo e pujante. É esse conjunto que garante desenvolvimento, geração de renda e qualidade de vida para a nossa população”, finaliza Braga.

O fato de o Litoral Norte concentrar praticamente toda a produção de banana não é casual. A região tem em torno de 98% da cultura no Estado por conta da influência do clima. Segundo o gerente técnico da Emater-RS Luís Bohn, a proximidade com o oceano garante estabilidade térmica ao longo do ano. “Essa situação permite uma maior estabilidade climática, principalmente em termos de temperatura. O Litoral Norte tem menos influência das massas frias que vêm do Sul, além da questão da altitude, que é menor. Apesar de estarmos próximos de regiões mais frias do Estado, como Cambará do Sul e São José dos Ausentes, o fato de estarmos ao nível do mar estabiliza essa temperatura”, explica.

Outro fator determinante é o regime de chuvas. Conforme Bohn, não se trata apenas de volume, mas de regularidade. “A intensidade, mas principalmente a constância das chuvas na região, é muito boa para a cultura. Chove bastante em função do que chamamos de chuvas orográficas. A umidade que vem do Litoral sobe a Serra e, ao encontrar a encosta, a massa de ar diminui a temperatura e provoca chuvas constantes. Esse é um segundo elemento fundamental para a banana.” Apesar das vantagens, o técnico destaca que há limitações importantes. “A nossa maior dificuldade em relação à banana gaúcha é a questão dos ventos. Quando a região é atingida por ventos mais fortes, a banana é muito vulnerável e isso perturba bastante a produção”, diz.

Além disso, por se tratar de uma fruta tropical cultivada em uma região subtropical, há impactos diretos ao longo do ano. “A banana é uma fruta tropical e, aqui, ela acontece com sazonalidade. A produção é perene ao longo do ano, mas a produção formada no inverno sempre perde produtividade e, muitas vezes, até aparência, em relação ao que poderia ser em uma região tropical.”

O levantamento mais recente da Emater-RS, dimensiona a importância desta cultura para o Estado. São 2.898 unidades produtivas, que ocupam 11.741 hectares, com uma produção estimada de 158.129 toneladas e valor bruto de R$ 729,5 milhões.

Esse levantamento considera área, número de produtores, unidades produtivas e uma expectativa de produtividade, gerando uma produção total prevista. “Desse total de 11,7 mil hectares, cerca de 11,5 mil estão no Litoral. As demais áreas ocupam microclimas específicos em outras regiões, normalmente voltadas à venda direta, que sempre é uma oportunidade para a banana por ser uma fruta muito popular”, conta Bohn. Segundo ele, praticamente toda a banana produzida no RS é consumida dentro do próprio Estado.

O levantamento da fruticultura comercial de 2025 aponta Morrinhos do Sul como o maior produtor gaúcho de banana, com 3 mil hectares cultivados, produtividade média de 15 toneladas por hectare, produção estimada em 45 mil toneladas e cerca de 500 unidades produtivas. Na sequência aparecem Três Cachoeiras, Mampituba, Dom Pedro de Alcântara, Três Forquilhas, Torres, Maquiné, Itati e Osório, todos municípios do Litoral Norte.

Entre as vantagens da produção gaúcha, Bohn destaca a menor incidência de doenças graves. “Uma das grandes vantagens é que somos uma das poucas regiões do Brasil onde não ocorreu a sigatoka-negra, que é uma doença muito severa da banana. Ela não chegou à nossa região”, explica.

Isso tudo reflete diretamente no manejo, pois, enquanto regiões como o sudeste e o norte de Santa Catarina precisam fazer cerca de 20 pulverizações de fungicidas por ano, os produtores gaúchos trabalham com quatro a cinco aplicações. Além disso, muitas vezes são utilizados fungicidas de contato ou produtos não tóxicos, como óleo mineral. Segundo o gerente técnico, os avanços também elevaram o padrão da fruta. “Se a gente considerar os últimos 20 anos, a banana gaúcha se aperfeiçoou muito em aparência e sabor. Isso veio de técnicas de manejo, da estruturação dos bananais e, principalmente, de tecnologia pós-colheita, o que ajudou muito na conquista de mercado.”

A produção orgânica é outro diferencial da região. Trata-se de um trabalho que começou com organizações não governamentais e passou a ser tratado pela Emater-RS nas duas últimas décadas. Bohn destaca que 17% da produção orgânica é certificada no Estado. “A região permite isso justamente pela menor pressão de doenças. Isso facilita o controle com alternativas aceitas pela certificação, e faz do Litoral Norte uma referência, até nacional, na produção orgânica de banana.”

Família vive há três décadas produzindo fruta orgânica

Representante da nova geração que permanece no campo, Gustavo da Rosa Carlos, de 34 anos, divide a gestão de uma propriedade, em Morrinhos do Sul, com os pais. Além do cultivo de banana orgânica, a família atua no turismo rural, com o espaço Pitayas Eco, que ficou conhecido como “Jalapão Gaúcho” e tem recebido cada vez mais turistas.

“Eu faço parte da sucessão da família e hoje sou muito importante aqui porque, além de cuidar da lavoura junto com o meu pai, eu também cuido da parte do turismo. O turismo hoje também é muito importante, e a gente oferece os produtos da lavoura para os visitantes”, relata. A propriedade trabalha há mais de três décadas exclusivamente com produção orgânica certificada. “Nós fomos pioneiros no Brasil nessa questão da produção orgânica há mais de 30 anos. Hoje seguimos nesse caminho, que é lindo e de preservação da natureza”, conta.

Segundo Carlos, a banana segue como o carro-chefe. “É uma plantação perene. Produz o ano inteiro. Por ser orgânica, ela produz menos do que a convencional, mas a qualidade é muito superior. Ela tem maior brix, que é o nível de açúcar, e com isso a gente consegue vender para feiras orgânicas com certificado”, justifica.

Atualmente, a propriedade tem 20 hectares, dos quais seis são destinados à produção de banana orgânica e dois hectares à pitaya, também orgânica. O restante da área é dividido entre criação para consumo próprio e atividades ligadas ao turismo.

As principais variedades cultivadas são a banana prata (ou Catarina), a caturra (ou paulista) e a banana-maçã. Há também o cultivo da banana-figo, utilizada principalmente na cozinha. A maior parte da comercialização ocorre em Porto Alegre, em feiras no Parque Farroupilha (Redenção) e no bairro Menino Deus.

Relevo característico da região garante produtividade e sabor

A adaptação da banana ao Litoral Norte gaúcho tem explicação técnica e histórica. De acordo com o engenheiro agrônomo e analista da Embrapa Pesca e Aquicultura Hermínio Rocha, a bananeira é uma cultura com origem no Sudeste Asiático e no Oeste do Pacífico, onde é cultivada há mais de 4 mil anos em ambientes de sub-bosque, com elevada umidade e temperaturas médias entre 30°C e 32°C. “Apesar de ser uma planta de clima tropical, a banana tolera temperaturas entre 15°C e 37°C. Variações fora desse intervalo, interrompem as taxas de emissão foliar, paralisando o desenvolvimento vegetativo das plantas”, explica.

Segundo Rocha, é justamente nesse limite climático que o Litoral Norte se diferencia dentro do Rio Grande do Sul. Municípios como Morrinhos do Sul, Mampituba, Dom Pedro de Alcântara e Três Cachoeiras reúnem condições favoráveis para a cultura, graças ao relevo nas encostas da Serra, que cria microclimas com menor amplitude térmica. “Essas áreas evitam o frio extremo durante o inverno e possibilitam a produção comercial com elevadas produtividades. O que faz a banana ficar doce é a nutrição mineral, associada aos solos mais ricos em matéria orgânica e as constantes e intensas horas de sol, possibilitando elevada atividade fotossintética”, detalha.

Outro diferencial é o uso de sistemas agroflorestais, comuns na região. “Esses sistemas protegem as plantas de intensos orvalhos e de friagens durante o inverno. No verão, o sistema agroflorestal protege as plantas da irradiação solar excessiva, o que é similar ao que se vê no Sudeste Asiático e Oeste do Pacífico, que são os centros de origem da cultura”, afirma.

Nesse contexto, a Embrapa recomendou, ainda em 2012, a variedade BRS Platina para Morrinhos do Sul, do tipo prata, resistente às três principais doenças da bananicultura mundial: sigatoka-negra, sigatoka-amarela e murcha de Fusarium raça 1. Ao tratar das ameaças futuras, o engenheiro-agrônomo chama atenção para a murcha de Fusarium raça 4 tropical (RT4), que ainda não existe no Brasil, mas já causa grandes prejuízos em outros países. “É uma doença capaz de matar praticamente todos os plantios das variedades atualmente cultivadas. Por isso, a Embrapa Mandioca e Fruticultura trabalha desde a década de 1980 em um programa nacional de melhoramento genético da bananeira, desenvolvendo variedades resistentes”, descreve Rocha.

Essa base científica também ajuda a entender o sucesso de outra fruta símbolo do Litoral Norte, que é o abacaxi. Segundo Rocha, a relação da Embrapa com a abacaxicultura gaúcha é antiga, com o lançamento da variedade BRS Ajubá, específica para a região de Terra de Areia e resistente à fusariose, principal doença da cultura no país.

Diferentemente da banana, o abacaxi tem origem na Amazônia brasileira e se espalhou para o mundo, tornando-se uma das frutas mais consumidas globalmente. O Brasil é hoje o quarto maior produtor mundial de abacaxi, com 2,39 milhões de toneladas em cerca de 63,9 mil hectares, e praticamente toda essa produção é absorvida pelo mercado interno.

Maior produtor de abacaxi do Rio Grande do Sul, Terra de Areia vive uma das melhores safras da história recente. As condições climáticas dos últimos meses favoreceram o desenvolvimento das lavouras, resultando em frutos de alta qualidade e produtividade acima da média. Um dos diferenciais do abacaxi produzido em Terra de Areia está ligado à proximidade com o mercado consumidor gaúcho.

Por se tratar de uma fruta não climatérica – que não amadurece após a colheita –, o abacaxi precisa ser colhido próximo ao momento do consumo. Assim, abacaxis de outros estados não podem ser colhidos muito maduros, pois não aguentariam o transporte até o Rio Grande do Sul. Então o fruto é retirado verde, o que faz com que ele chegue ao Estado com uma certa acidez e com baixo teor de açúcar. Enquanto isso, os produtores de Terra de Areia conseguem comercializar o fruto maduro, com baixa acidez e teor de açúcar mais alto, o que agrada o paladar do consumidor.

Nos últimos anos, os produtores também têm investido em técnicas de manejo e adubação, ampliando o tamanho dos frutos. Segundo a Emater, o abacaxi de Terra de Areia sempre foi muito bom, mas considerado pequeno. Hoje os produtores têm conseguido fazer frutas com tamanho maior do que aqueles que eram vendidos há uma década.

Essa realidade aparece de forma concreta na propriedade de Jailson Euzébio Cândido, 41 anos, produtor rural no interior do município. Natural de Santa Catarina, ele chegou à região ainda no início do século. “Viemos para cá em 2003, mas ficamos mais de 15 anos produzindo fumo. Depois, passamos para o abacaxi”, conta. Há cerca de cinco anos, Jailson decidiu apostar de vez na fruticultura.

“Comecei com uns 70 mil pés, junto com meu irmão, e hoje estamos quase com 600 mil pés de abacaxi. Vivo exclusivamente da plantação de abacaxi”, relata.

A rotina na propriedade começa cedo e segue até o final da manhã. Na atual safra, ele explica que a produção está intensa. “Eu já colhi uns 200 mil abacaxis e agora estou colhendo mais 120 mil. Plantei mais um pouco também e assim vamos levando”, diz o produtor.

De acordo com a avaliação dele, o ciclo da cultura exige planejamento e paciência. “O abacaxi leva dois anos para produzir. Esses que estou colhendo agora, eu plantei em 2024. Demora bastante, mas, quando dá certo, compensa”, afirma o agricultor.

Toda a produção da família é escoada para a Ceasa, em Porto Alegre. Conforme Jailson, a colheita se concentra principalmente no verão, quando o sabor fica mais acentuado. Hoje, a propriedade conta com o trabalho de toda a família. “A esposa ajuda, a cunhada ajuda. Por enquanto, somos nós. Quem sabe um dia a gente consiga ampliar”, conclui.

Fonte: Correio do Povo

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