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Homeopatia avança nas propriedades rurais

Prática cresce no Rio Grande do Sul, com relatos de melhora no bem-estar em rebanhos e uso complementar a tratamentos convencionais

Os tratamentos homeopáticos cresceram 45% das propriedades rurais do RS nos últimos três anos, segundo a Emater/RS-Ascar
Foto : Jorge Ribaski / Embrapa / CP

A adoção de tratamentos homeopáticos em propriedades rurais cresceu cerca de 45% nos últimos três anos no Rio Grande do Sul. Conforme os registros da Emater/RS-Ascar, até o ano passado 2.465 famílias eram acompanhadas para monitoramento do uso e dos resultados obtidos pela aplicação terapêutica em animais de produção e plantações. Em 2022, o número não passava de 1.696. A utilização dessa terapêutica é monitorada pela Emater em pelo menos 161 municípios, segundo dados da instituição de 2025.

“Homeopatia vem ao encontro daquilo que nós já trabalhamos que é a agricultura orgânica certificada, que é uma agricultura permanente e a longo prazo. Dentro da propriedade, a gente utiliza a natureza a nosso favor”, explica Alexandre Ferreira, produtor rural que adotou a prática há sete meses em sua propriedade. Seu ramo de atuação é o de produtos orgânicos de origem animal e, por isso, viu na homeopatia uma opção viável para a contenção de vermes e outros parasitas na criação de ovelhas.

Mesmo que a experiência com esse tipo de tratamento seja relativamente recente, o produtor vê com entusiasmo os resultados obtidos até o momento. “O verão deixa as ovelhas muito frágeis em virtude dos vermes, de mosca e doenças da estação. Este ano foi o único que nós tivemos uma regularidade e não perdemos nenhuma ovelha. Isso em virtude de estarmos usando homeopatia”, relata.

A homeopatia foi estruturada como uma terapêutica alternativa e complementar à medicina tradicional. O conceito tem como objetivo a avaliação do indivíduo como um todo, abarcando suas esferas física, mental e também espiritual. Os fundamentos teóricos e práticos dessa metodologia foram estabelecidos em 1810 pela publicação “Organon da Arte de Curar”, escrita e revisada por Samuel Hahnemann. Posteriormente, seus princípios passaram a ser aplicados também em animais e vegetais.

Apesar da lista de vantagens relatadas pelos adeptos, a terapêutica enfrenta oposição de parte da comunidade científica e de algumas entidades de classe, que alegam falta de evidências sólidas e ainda possíveis riscos ao substituir tratamentos convencionais. No entanto, a zootecnista e extensionista rural da Emater Laila Simon adverte que não se trata de “uma terapia concorrente”, mas “complementar” à medicina veterinária tradicional.

“Nos rebanhos comerciais, não é preciso abandonar a alopatia para adotar a homeopatia. As coisas podem andar de forma alinhada e, gradativamente, podemos observar a redução do uso da alopatia como um dos efeitos dessa prevenção”, defende, salientando que o objetivo é o bem-estar do indivíduo e, portanto, o método não se propõe a substituir os demais.

“Quando se produz um protocolo junto a um sistema de criação e é observada a melhora gradativa, muitas vezes a ciência cartesiana vai rechaçar esses resultados alegando a ausência de critérios científicos, mas, cada vez mais, nós vemos a sociedade buscando outras ferramentas integradas para a melhoria da saúde geral”, afirma.

A médica veterinária especialista em homeopatia Lisiane Avila concorda com essa visão. Ela afirma que o uso de medicamentos homeopáticos “não interfere nas medicações alopáticas”. Segundo Lisiane, eles podem ser usados tanto em conjunto como isoladamente.

A prática é comumente utilizada no âmbito veterinário para tratar infestações de parasitas. Entre as vantagens, os especialistas do ramo destacam o estímulo de resposta do próprio organismo infectado. “Os efeitos são muito bons e são eficazes especialmente no tratamento de parasitas como carrapatos moscas e verminoses”, descreve Mônica Assis de Souza, especialista em Patologia Ambiental e Experimental. Outra aplicação é no tratamento de problemas comportamentais como controle do estresse e da monta entre machos inteiros (não castrados), que podem apresentar comportamento agressivo, conforme ela.

Desvantagens

Entre as desvantagens que esse tipo de tratamento pode apresentar está a demora para um retorno efetivo. No entanto, Laila adverte que essa não é uma realidade para todos os ramos de atuação da terapêutica. “Em algumas situações, por exemplo, como febre, é possível utilizar homeopatia e fazer o controle desse quadro à medida que ele está acontecendo. Isso demanda monitoramento, acompanhamento e tudo isso nos mostra que a homeopatia responde de forma rápida, mas ela também tem boas respostas na sua forma gradativa”, pondera.

Recuperação e restauração de ecossistemas

A utilização da homeopatia também tem sido estudada para a recuperação de vegetação em áreas devastadas por desastres. Partindo da premissa de que o tratamento pode ser aplicado a qualquer ser vivo e que deve contemplar o indivíduo como um todo, assim como o contexto em que está inserido, ela foi testada entre 2020 e 2021 para a recuperação de uma área de queimada no Mato Grosso do Sul.

“Esse trabalho é abrangente e trata os animais dentro do contexto em que eles vivem no meio ambiente, mas também recupera planta e solo. A homeopatia tem característica de não ter resíduos, de ser segura, de ser eficaz”, explica uma das responsáveis pelo estudo, a especialista em Patologia Ambiental e Experimental Mônica Assis de Souza.

Outras das aplicações da homeopatia está no tratamento de animais no contexto de vivência no meio ambiente, assim como na recuperação de planta e solo.
Foto: Helena Molinari / Embrapa / Divulgação / CP

Conforme ela, nos últimos anos, diversos experimentos utilizaram a homeopatia para a restauração de ecossistemas. O primeiro citado por ela ocorreu entre 2017 e 2018, e tratou de um surto de febre amarela em macacos em São Paulo. “Nós fizemos homeopatia na água. Os macacos daquela região não tiveram a febre amarela como tiveram os macacos da zona norte de São Paulo”, explica.

A partir dos resultados da experiência, foram desenvolvidos outros trabalhos com animais selvagens. Com um dispositivo de liberação lenta, o medicamento foi disponibilizado na água de um parque do Mato Grosso do Sul para conter uma infestação de carrapatos, responsáveis por transmitir febre maculosa, em capivaras.

Parasitas

O controle de parasitas está entre as utilizações veterinárias mais comuns da terapêutica e surge como uma alternativa mais econômica e que resulta na diminuição de produtos químicos, o que, no contexto de animais comerciais, não compromete a qualidade do produto. “Os medicamentos (homeopáticos) utilizados para tratar infecções não criam resistência do parasita. Não são como antibióticos. Eles fortalecem o animal para que o próprio organismo fortalecido combata a infecção. Não mata bactéria, verme, carrapato. Não é biocida”, explica Mônica que defende essa característica como uma das vantagens oferecidas.

O posicionamento é reafirmado pela zootecnista Laila Simon, da Emater. “Ela não estimula o organismo a produzir essas múltiplas resistências. A terapêutica vai buscar o reequilíbrio desses sistemas desses rebanhos trabalhando com o gênio epidêmico”, argumenta a zootecnista. Para ela, essa vantagem aumenta o bem-estar animal.

Comportamento

A prática também é utilizada para tratamentos menos convencionais, ligados ao comportamento animal, uma vez que a homeopatia considera o ser também no seu âmbito mental. A ideia é “corrigir” atitudes de indivíduos mais agressivos no rebanho ou auxiliar, por exemplo, no desmame de terneiros e a separação das mães.

“Problemas que nós temos de comportamento de animais, como agitação, agressividade ou estereotipias, conseguimos trabalhar dentro da homeopatia, reduzindo essas questões comportamentais”, explica a extensionista, que defende que o tratamento tem produzido resultados acalmando o gado em situações de estresse.

Para ela, os medicamentos homeopáticos, além de serem os únicos utilizados para este fim na Veterinária, têm demonstrado robustos e consistentes resultados. E cita o uso em animais que estão indo para o abate. “Como sabemos, o transporte não é algo comum para o animal de produção. Muitas vezes, ele entra uma única vez na vida em um veículo que vai fazer esse transporte com outros animais e isso gera uma carga de estresse. Isso pode afetar, inclusive, a qualidade do produto final.”.

A veterinária Lisiane Avila conta que já acompanhou a utilização de tratamentos homeopáticos para diversas situações comportamentais. Desde o estímulo à socialização em cavalos mais tímidos até a contenção de um boi que pulava a cerca da propriedade. “É interessante, porque nós vemos mais a homeopatia nesses casos mentais de pequenos animais, mas a gente também pode utilizar em animais de criação, animais rurais”, pondera.

Bem-estar animal e facilidade de aplicação

A unanimidade da aplicação entre os especialistas e produtores rurais entusiastas da homeopatia é a melhora do bem-estar animal. Em processos de transição, em que um rebanho funciona em um sistema e a rotina precisa ser alterada para uma nova fase, é comum que os animais percam peso, por exemplo.

“A homeopatia dá total bem-estar para os animais. Dessa forma, não precisa castrar. Os animais ganham muito mais peso e, principalmente, em carne, porque, quando a gente mantém o testículo, a testosterona transforma em carne aquele peso e não em gordura”, defende Mônica Assis Souza. Entre as fêmeas, se destaca a melhoria da fertilidade e o tratamento de mastites, que são infecções no ubre de vacas leiteiras.

“A homeopatia dá total bem-estar para os animais. Dessa forma, não precisa castrar. Os animais ganham muito mais peso e, principalmente, em carne, porque, quando a gente mantém o testículo, a testosterona transforma em carne aquele peso e não em gordura”, defende Mônica Assis Souza. Entre as fêmeas, se destaca a melhoria da fertilidade e o tratamento de mastites, que são infecções no ubre de vacas leiteiras.

Além disso, o tratamento é viável no âmbito da qualidade de vida do animal dada a facilidade de aplicação. Diferente de outros medicamentos, não é necessário, por exemplo, afastar o indivíduo do convívio para fazer a aplicação. As substâncias podem ser disponibilizadas na alimentação do rebanho ou na água, com dispositivos de dispersão lenta.

As fórmulas são produzidas a partir de materiais naturais e, portanto, não agridem o meio ambiente. Por esse motivo, a alternativa ganha uma vantagem com relação à aplicação de outros métodos, em que é necessário um manejo mais específico do animal em tratamento. “O bem-estar é um ponto importante na qualidade da produção animal. Por todos esses motivos, a homeopatia vem se firmando como uma terapêutica possível uma terapêutica válida”, argumenta a pesquisadora.

Meio ambiente

Outra vantagem do método é o fato de os medicamentos não influenciarem a qualidade da carne ou do alimento de origem animal, premissa importante para a produção de insumos orgânicos, conforme destaca a extensionista da Emater Laila Simon.

“Nós precisamos alcançar opções para esse produtor de alimento orgânico de forma segura, sem a produção de resíduos químicos, de que forma ele pode trabalhar sanidade. E não só da produção animal, mas também da produção vegetal, porque acaba que existem algumas limitações de uso e as certificações cada vez exigem mais desses controles para quem produz esse tipo de alimento” defende a zootecnista.

Esse é o caso de Alexandre Ferreira, apresentado no início desta reportagem. Em sua propriedade são criadas ovelhas e tudo que é produzido e consumido no local é de origem orgânica. Utilizando o método há apenas sete meses, o produtor é um grande entusiasta da prática. Apesar de o tratamento exigir tempo e disciplina, ele ainda enxerga grandes vantagens na adesão à terapêutica. “É um trabalho diário e constante de disciplina de entrega e nós vemos esse retorno com o tempo. Nesses sete meses, eu acho até que foi um ciclo muito curto de um retorno positivo”, reitera.

Em comparação ao uso de pesticidas e defensivos agrícolas em vegetações, a técnica apresenta vantagens tanto para o meio ambiente como para os seres vivos que usufruem dele. Além de não deixarem resíduos, a aplicação não é danosa a saúde dos indivíduos, não estimula a resistência dos organismos indesejados e evita o desgaste e a improdutividade do solo a longo prazo.

“É seguro para as pessoas porque não se trata de veneno. Não é tóxico para os animais, para quem trabalha ou para o meio ambiente. Não tem resíduo em carne, não precisa fazer o período de espera do medicamento para poder utilizar o leite da vaca, por exemplo”, avalia a pesquisadora ao destacar como principal vantagem da terapêutica a segurança.

Para a extensionista da Emater, a prática aponta para o futuro da agricultura e pecuária sustentáveis, atendendo uma demanda crescente da sociedade pela produção de alimentos respeitosa ao meio ambiente e segura. “A homeopatia se soma como uma das ferramentas que nós podemos utilizar junto ao atendimento das demandas de trabalhar dentro da sustentabilidade, da segurança e pensando que, antes de tratarmos com os animais, nós precisamos considerar que o sistema envolve”, salienta Laila.

Viabilidade financeira

Outro ponto positivo destacado pelas especialistas é a economia. Além de os medicamentos serem comercializados a um preço acessível em comparação a fármacos tradicionais, se destaca a durabilidade do produto e a facilidade do armazenamento. Basta abrigar as substâncias em recipientes de vidro, protegidos da luz e longe de equipamentos eletromagnéticos.

Além disso, o fato de o medicamento não causar dependência ou induzir invariavelmente a correção da dose de tempo em tempo, faz com que o tratamento, mesmo que contínuo, se torne mais barato em comparação a métodos tradicionais de controle de infecções, por exemplo. “Quem precisa produzir com pouco custo, sem agredir meio ambiente e com eficiência está chegando à conclusão de que a homeopatia é a solução. Os animais têm bem-estar e isso é medido”, destaca Mônica.

Ainda de uma perspectiva financeira, Laila destaca a possibilidade que o método oferece de tratar todo o rebanho como um indivíduo, o que também auxilia na redução de custos para o produtor. “A gente pode também trabalhar com o gênero epidêmico no rebanho como se ele e suas características fossem um único indivíduo. Isso é muito feito dentro da homeopatia na parte das criações”, defende.

Laila ainda lembra que nem sempre o tratamento da adversidade, seja comportamental ou de saúde dos animais, deva ser feito com métodos homeopáticos. “As vezes desejamos que a homeopatia resolva todos os problemas mas quando falamos em sistemas de criação comercial, muitas vezes, o ajuste do ambiente, dos manejos e, principalmente, da prevenção dos problemas que são recorrentes são o caminho”, explica a zootecnista, que defende a terapêutica como aliada de boas práticas agropecuárias.

Apesar de algumas desconfianças, os especialistas reafirmam a seriedade dos estudos desenvolvidos e destacam a unanimidade dos resultados entre os produtores que se utilizam da técnica.

Fonte: Correio do Povo

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