
À beira de uma estrada de terra do interior de Santo Antônio das Missões, Elói Carmelute da Veiga segura uma placa improvisada onde se lê: “RGE 200h sem luz”. Sem contato por telefone e sofrendo de câncer, foi o jeito que encontrou para pedir ajuda. Na região da Campanha, Carlos Camargo se equilibra com a muleta e a lanterna, enquanto espera a volta da luz, após 28 dias às escuras. Na Serra Gaúcha, a família Zanella tenta cobrar prejuízos de quase R$ 20 mil da concessionária de energia por falhas que causaram estragos na câmara fria e perda de produtos. Em todos os quadrantes do Rio Grande do Sul, relatos similares se repetem com indignação, evidenciando a precariedade no fornecimento do serviço de energia elétrica no campo e as limitações impostas à produção agropecuária familiar. “A energia elétrica é uma das piores estruturas no Estado”, afirma o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag/RS), Carlos Joel da Silva.
Nos últimos meses, a inclemência de temporais, ciclones e enchentes trazidos pelo El Niño multiplicou os problemas na infraestrutura energética e de telecomunicações. “Quando tem qualquer temporal, o pessoal fica vários dias sem energia e é incrível a demora para restabelecer quando acontece alguma coisa”, diz Joel, cobrando manutenção nas redes e substituição de postes ainda de madeira. A Fetag/RS já procurou o Poder Judiciário, faz pressão política contínua e se reuniu recentemente com as concessionárias RGE e CEEE Equatorial para buscar soluções. “Já entramos até com ações judiciais contra as empresas, que até são multadas, mas na prática não acontecem melhorias”, critica. O sindicalista diz que o produtor precisa adquirir geradores para minimizar as perdas. “O que melhorou um pouco no interior foi a internet. Os produtores investiram por conta própria, com empresas particulares e cooperativas, porque as cooperativas de energia elétrica estão trabalhando as conexões junto com a rede de energia e isso está indo bem. Onde temos cooperativas a coisa funciona melhor”, diz Carlos Joel.
Foi justamente a falta de energia no campo que motivou uma comunidade rural a criar a primeira cooperativa de energia do Estado, em 1941, onde hoje é o município de Erechim, e abrir caminho para a expansão do segmento. “Em 2023, eram 310 mil estabelecimentos rurais atendidos por cooperativas com energia elétrica e 70 mil com internet”, destaca o superintendente da Federação das Cooperativas de Energia, Telefonia e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul (Fecoergs), José Zordan. No território gaúcho, as cooperativas fornecem energia para 72 sedes municipais, alcançando 1,3 milhão de consumidores.
Além da confiabilidade no sistema, um dos gargalos da energia no campo é aumentar a capacidade de carga das redes, transformando-as de monofásicas, que têm energia limitada para o funcionamento de motores e equipamentos, em trifásicas.
“No Estado, 60% das redes de energia na área rural são monofásicas, que limitam muito o investimento do produtor até no aumento de produção e produtividade”, ressalta. As cooperativas têm investido em média R$ 500 milhões anuais para melhorias em redes de abastecimento, mas existem limitações de recursos e de área de atuação, delimitadas por regulação federal.
Anualmente, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) avalia indicadores do setor de distribuição de energia elétrica por meio do Índice Aneel de Satisfação dos Consumidores (Iasc). “Nossas cooperativas estão sempre entre as primeiras empresas melhores do Brasil na distribuição da energia”, diz Zordan. Para a Fecoergs, o modelo cooperativista, em que o associado tem voz e voto nas assembleias, é um diferencial para a eficiência. “A proximidade do associado com a cooperativa faz eles estarem mais integrados, trabalhando na operação, na manutenção e na gestão dos recursos, o que é diferente de uma concessionária”, detalha Zordan.
Em diversas localidades do interior do Rio Grande do Sul, a distância entre produtor rural e as concessionárias de energia parece ainda maior pelas dificuldades de comunicação existentes. Os relatos de ausência de sinal de telefonia e dificuldade para abrir chamadas pelo telefone 0800 são comuns. “O grande problema na energia é que essas empresas multinacionais vêm, assumem e não têm compromisso. Parece que não existe exigência para que melhorem a estrutura. É um caos”, critica o presidente da Fetag. “Não temos nada de políticas públicas por parte dos dois governos, estadual e federal, que não seja oferecer financiamento para que o agricultor faça por sua própria conta”, destacou.
No governo estadual, a Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) conta com o programa Energia Forte no Campo, que em sua quarta fase prevê R$ 31 milhões, disponibilizados para as cooperativas de eletrificação rural como subsídio de até 20% em projetos para extensão da energia trifásica no campo. As cooperativas e os agricultores assumem a maior parte da fatura.
Para este ano, o programa, em fase de contratação, tem projetos selecionados de nove cooperativas – Celetro, Cermissões, Certaja, Coprel, Certel, Coopersul, Coopernorte, Creral, Certhil – e investimento de R$ 47,1 milhões, cabendo ao Estado R$ 9,4 milhões. Conforme a Sema, devem ser atendidos 3.861 consumidores e produtores rurais de 80 municípios, com 444 quilômetros de novas linhas de distribuição (trifásicas) e 392 transformadores trifásicos. Segundo a pasta, até 2022 o Energia Forte no Campo havia aprovado 210 projetos para 105 municípios e 8.729 consumidores rurais. No total, foram aportados R$ 10,5 milhões entre 2020 e 2022.
Relatos de drama e revolta no meio rural
Agricultores e pecuaristas familiares dizem que atendimento em localidades do interior é dificultado por limitações de sinal de telefonia, apontam redes de energia sucateadas e desarticulação das empresas na manutenção de redes
Família de Eloí Carmelute da Veiga pintou placa para reclamar da RGE | Foto: Arquivo Pessoal/CP
Essencial para a vida no campo e na cidade, há anos o serviço de energia elétrica se converteu em fonte recorrente de reclamações no Estado. Consumidores de localidades rurais apontam redes sucateadas, desarticulação no trabalho de manutenção e atendimento ao consumidor quase impossível de ser acessado, por demora no atendimento ou ausência de sinal de telefonia. No Rincão Santa Maria, interior de Santo Antônio das Missões, a família do produtor Elói Carmelute da Veiga se socorreu de uma placa pintada a mão e se postou à beira da estrada para protestar e pedir o restabelecimento do serviço esta semana. “Não é poste caído nem nada, só fusível que cai toda vez que dá um vento”, disse. Sem energia, nem a água do poço a família conseguiu retirar. Elói é paciente de câncer.
Vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Santo Antônio das Missões e Garruchos, Robeson Oss-Emer relata que o cenário de precariedade persiste há tempos. “É só se armar uma chuva em São Borja que ficamos de dois a três dias sem energia aqui”, reclama. Ele mora na mesma localidade de Eloí, a cerca de 40 quilômetros da cidade, e chegou a enfrentar 13 dias sem luz, em 2016. No temporal mais recente, em dezembro, foi uma semana às escuras. O drama se prolonga pela dificuldade de contato com a RGE. Recentemente, Oss-Emer conseguiu canal direto, por whatsapp, e virou referência para encaminhar pedidos. “Tem mais de 300 protocolos que já passei para o responsável pela região, mas precisamos de melhoria na comunicação, pois o 0800 não funciona e tem bastante pessoal idoso que não tem whatsapp”, comenta.
O sindicalista salienta que já foram feitos abaixo-assinados e ação coletiva contra a concessionária. “Em fevereiro vamos abrir outra ação pelo descaso”, adianta. Nos períodos sem energia, os prejuízos se acumulam, especialmente na cadeia leiteira, na qual o uso de alternativas como geradores de energia têm custo operacional de R$ 200 a R$ 300 por dia para a ordenha e o resfriamento do leite. Conforme Oss-Emer, um assentamento da região tinha 38 produtores de leite e está próximo de extinguir a atividade. “Restaram somente dois em atividade”, disse.
Na localidade de Estrada da Cachoeira, Carlos Renê de Araújo cobra manutenções na rede, depois de iniciar 2024 no breu. “Passei sete dias sem luz porque incendiou um poste, por causa de galhos na rede. Trocaram o poste, levantaram a chave, viraram as costas e caiu de novo”, conta. Araújo lembra que o mês de dezembro foi difícil. “Durante o mês, acho que não tive 20 dias com luz. A gente tem prejuízo de tudo que é lado. Se carneia um bicho e coloca a carne no freezer, às vezes não chega nem a congelar a já perde tudo”, reclama. A inquietação se estende por toda a região, conforme o presidente do STR de Roque Gonzales, Márcio Roberto Langer, com problemas também no município de Pirapó. Na região, produtores compartilharam fotos de postes de madeira caídos em meio ao campo.
José Albregon Sarmento insiste na produção de leite na localidade de Faxinal, em Garruchos, com entrega mensal de 18 mil a 20 mil litros para uma cooperativa. “A gente precisa estar bem calmo e tranquilo para falar desse ‘romance’ com a companhia de energia”, ironiza. “Fiquei cinco anos brigando na Justiça com eles para trocar um transformador que era insuficiente para atender cinco famílias da localidade. Quando resolveram trocar, em poucas horas resolveram uma questão que durou cinco anos”, lembra. Sem força na rede, ligar a ordenhadeira ou o resfriador de leite implicava desligar outros aparelhos dentro de casa, sob pena de queda geral na rede de energia.
A briga agora é com a constante falta de energia. “Tem uma rede com 50 quilômetros de extensão e só uma chave geral. Dá um probleminha, cai a chave e fica todo mundo sem luz”, aponta. Para resfriar o leite em caso de apagão, Sarmento gasta cerca de 20 litros de gasolina por dia para manter o gerador operando. “Na época da enchente, fiquei três dias sem luz e gastei R$ 1 mil de gasolina”, completa.
Na estrada Passo da Telha, localidade de São João Tujá, em Garruchos, Alberi do Prado ficou três dias sem energia na semana passada, algo que se tornou corriqueiro. Prado pontua que a simples ocorrência de chuva já causa descontinuidade no fornecimento. No final de ano, a família carneou um animal e guardou 50 quilos de carne no freezer, descartando o alimento em seguida em razão da falta de energia. Para reclamar, ele precisa rastrear locais altos onde tenha sinal de telefonia. “Fica difícil cobrar, porque colocam robô a nos atender pelo telefone. E quando passa para o atendente, a ligação cai”, narra.
Em Santa Rosa, um temporal no dia 29 de dezembro impactou a infraestrutura no interior, onde operam a RGE e a cooperativa Cooperluz. “A cooperativa conseguiu restabelecer a energia no dia seguinte. Por parte da RGE, demorou até quatro dias em algumas localidades. Para o produtor rural, quatro dias é muito”, diz o presidente do STR de Santa Rosa, Marcelo Matias Glass. Acostumados com os problemas, parte dos produtores já mantém de sobreaviso geradores a diesel ou gasolina.
Concessionárias destacam investimentos
Alvo de críticas no campo e nas cidades por problemas no fornecimento de energia elétrica, as concessionárias destacam ações para ampliar e reforçar a infraestrutura de atendimentos dos produtores rurais. A CEEE Equatorial informou que está atenta às demandas do setor primário em sua área de concessão e que trabalha, constantemente, para aprimorar o serviço fornecido aos seus clientes nas áreas rurais.
A companhia destacou que mantém contato com representantes do setor a fim de apurar suas principais demandas e identificar possíveis melhorias no serviço. Destacou que manteve recente agenda com a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag/RS). “Na ocasião, foram abordados, além de questões relativas ao fornecimento de energia elétrica (qualidade de atendimento e melhorias no serviço de distribuição), o cadastramento dos produtores à Tarifa Social Rural, benefício que reduz em até 60% na conta de energia, dependendo da atividade”, informou a assessoria da empresa.
A RGE informou que tem investido para reforçar o sistema para suportar ou minimizar o impacto dos fenômenos trazidos pelas mudanças climáticas e pelo super El Niño. Conforme a empresa, nos últimos dois anos foram aplicados R$ 3,4 bilhões para subsidiar a substituição de mais de 220 mil postes de madeira por unidades de concreto ou fibra de vidro. No período, foram inauguradas 12 novas subestações – além da modernização e ampliação de estações avançadas e a instalação de novos religadores telecomandados. “Para os próximos cinco anos, a RGE pretende investir outros R$ 9,3 bilhões para aumentar a robustez das redes elétricas, proporcionando suporte para o enfrentamento de eventos climáticos”, declarou o diretor-presidente da RGE, Marco Antônio Villela de Abreu.
A empresa afirmou que vem reforçando a necessidade da mudança de cultura em relação à arborização de grande porte plantada nas proximidades da rede de energia elétrica, já que o grande fator de impacto na rede, nos últimos acontecimentos, é a vegetação. “Além disso, foi feito o processo de revisão logística, por meio do qual foi ampliada em aproximadamente 350 eletricistas as operações de campo da empresa”, afirmou. A RGE informou estar 100% dimensionada para atender aos mais de 3 milhões de clientes.
Fonte: https://www.correiodopovo.com.br/