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Correio Rural debate situação financeira do agro

Foto : Camila Cunha

No segundo encontro do Correio Rural Debates na Expodireto Cotrijal, o economista-chefe da FarsulAntônio da Luz; o consultor de negócios do Sicredi CentralGustavo Limberger Schuck; e a gerente de jornalismo do Correio do PovoMauren Xavier, debateram “Mercado, crédito rural e reforma tributária no agronegócio”.

A conversa, mediada pelo editor-assistente de Rural do CP, Leandro Mariani Mittmann, abordou a situação financeira dos produtores gaúchos, os impactos do clima e da guerra no Oriente Médio e a gestão da produção. O crédito rural tem sido amplamente discutido, considerando os prejuízos decorrentes de eventos climáticos extremos.

Mauren contextualizou as discussões políticas sobre a renegociação de dívidas dos produtores. “A situação financeira, agravada por sucessivas estiagens, tem sido pauta nos últimos anos e ganhou relevância no âmbito político, especialmente em ano de eleições. O assunto está em Brasília, em movimento articulado pelo governo do Estado, para que haja atenção especial na votação de projeto no Senado. E há outro movimento acontecendo no RS, sobre prorrogar o não pagamento da dívida do Estado e usar parte desse recurso para ajudar na área de irrigação. A questão é como transformar o tema político em prática, para que os produtores sejam de fato atendidos em suas demandas.”

Luz apontou que muitos agricultores só estão produzindo graças a renegociações com instituições financeiras. “Não acho que o produtor tem que atuar contando com governo, porque intempérie faz parte do risco; estiagem, oscilação de preços estão dentro do nível gerencial. Mas não há como se preparar para cinco eventos negativos em seis safras. É impossível, pois o custo geraria ineficiência gigantesca no negócio, ficar com um monte de dinheiro parado, ao invés de colocar no circuito da produção”, avaliou.

Para ele, é nesse cenário que governos devem intervir. “Estado e União, até porque é em Brasília que se concentram as políticas agrícolas. Com as catástrofes que temos acumulado, só uma medida de grande monta pode resolver. Buscamos, tecnicamente, elaborar uma proposta”, disse, citando a securitização.

“Não dá para fazer caixa único com dinheiro do Tesouro. Por isso, buscamos recursos do Fundo Social do Pré-Sal, que funciona como uma poupança com os royalties do petróleo. Ele foi criado com esse propósito e não altera o equilíbrio fiscal do país. À medida que o produtor vai pagando essa linha de crédito, o dinheiro volta para o fundo. É a proposta que está no Senado”, explicou. Segundo Luz, é uma medida factível, diante de uma dívida “estressada”, ou seja, que já está atrasada, inadimplente, prorrogada e renegociada.

O consultor do Sicredi ressaltou o cenário de estiagens e cheias. “O produtor não estava preparado. Por mais que se fale em educação financeira e reservas, isso não é simples. A gente atua forte nesse cenário, nossa capilaridade nos dá isso, estar presente na maioria dos municípios gaúchos nos permite entender o real problema e as necessidades do produtor. Ele precisa de algo mais estrutural, com prorrogação de dívidas, manejo do solo, que dê sobrevida para avançar.”

Nesse sentido, o economista da Farsul criticou a falta de estabilidade em planos econômicos, mas projetou queda da taxa Selic até o fim do ano. “Hoje, com Selic a 15%, safra em andamento, guerras, não dá para julgar o produtor que não quer fazer investimentos”, completou Schuck, lembrando ainda que, após as secas, as análises de créditos também estão mais rigorosas.

Luz concordou, mencionando a MP 1314, que cria linha de crédito para afetados por eventos climáticos, mas com critérios que não servem à maioria dos endividados. “Falamos que não iria funcionar, e o que observamos é o produtor indo às instituições financeiras e optando por linhas mais caras, porque o regramento da MP deixa o produtor com um impasse para o ano seguinte, ele teria que contar com coisas que não estão na gestão dele”, disse.

Em relação a planos plurianuais, o economista se mostrou cético. “Falta linha de longo prazo com objetivo de giro. Hoje, quando tem quebra de safra, que é do jogo, vai todo mundo para as entidades, o governo. Se problemas climáticos são inerentes à atividade e temos Ministério da Agricultura, com orçamento, com política agrícola, podemos nos preparar para o óbvio, com linha de longo prazo, seguro rural e pró-agro, que são mitigadores dessas perdas. O que temos no Brasil é um retrocesso na oferta de crédito, enquanto nos EUA, por exemplo, o plano é decenal”, comparou.

Mauren questionou as dificuldades para viabilizar um plano robusto de irrigação, destacando que, embora as estiagens estejam mais severas nos últimos anos, o debate se arrasta há décadas no RS. “Se fala muito que o produtor não tem a cultura da irrigação. Não é isso. Passamos por quebras históricas e a Farsul sempre levantou essa bandeira, enquanto o poder público criminalizava reservação de água. As coisas mudaram depois desse ciclo horroroso, porque quem criticava a irrigação ficou sem ambiente”, reclamou Luz.

Os convidados também trataram da reforma tributária e o economista se posicionou favorável. “Muita gente acha que o agro não paga imposto hoje, mas esquece que combustível, peças de maquinário, fertilizantes, serviços também são tributados. E quanto o produtor recebe de crédito de volta? Zero. Agora, ele vai pagar imposto, saber quanto paga e receber de volta. É educação tributária”, avaliou. O consultor do Sicredi colocou que haverá um período de adaptação e que o sistema já se prepara para auxiliar o associado.

Outro tema abordado foi o impacto da guerra no Oriente Médio para o agronegócio brasileiro. Para Luz e Schuck, o momento requer atenção, pois ocorrem oscilações de preços no mercado internacional, mas o economista da Farsul criticou a rápida repercussão na oferta de combustíveis no país. “Não tem explicação para a falta de diesel por aqui, isso precisa ser investigado.”

Com o tema “Biocombustíveis: a nova fronteira de oportunidades e a inserção estratégica do agro gaúcho”, o próximo debate será transmitido hoje, partir das 17h no YouTube do Correio do Povo. Participam o vice-presidente da CCGL e dos Terminais Portuários Termasa-TergrasaGuillermo Dawson Jr., o gerente de Pesquisa e Tecnologia da CCGL, Geomar Mateus Corassa, o gerente-executivo de Engenharia da Soli3Diego Piotto, e o especialista em Gestão da Inovação e Marketing Estratégico, Flávio Mingorance.

Fonte: Correio do Povo

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