
O período de parição das ovelhas, que vai do final do inverno até o início da primavera, é a melhor época do ano para o produtor rural Benhur Quines. Isso porque garante a renovação do rebanho e complementa o trabalho desenvolvido ao longo do ano. “É quando a gente vê que o nosso trabalho e dedicação estão tendo resultado. Para mim, que por muito tempo trabalhei com um animal comercial, hoje, além do retorno financeiro, isso me traz uma amostragem para saber se estou melhorando ou não geneticamente o rebanho.”
Quines faz parte de uma família de agricultores familiares e, há cerca de oito anos, decidiu abandonar o emprego na cidade para trabalhar na cabanha do avô. Na época, herdou um rebanho comercial composto pelas raças Ideal e Corriedale, que estão entre as mais populares no Estado, de acordo com a Radiografia da Agropecuária Gaúcha 2025, levantamento mais recente feito pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi).
“Em 2020, conheci o Dohne Merino e me interessei pela raça, porque é uma raça de duplo propósito, que produz uma lã fina e um animal carniceiro. No começo de 2021, iniciei meu primeiro plantel Dohne. Dali para frente, comecei a melhorar a raça no rebanho”, explica.
A propriedade fica no Rincão de Palomas, em Santana do Livramento, região apontada pela Seapi como a principal produtora de ovinos no Rio Grande do Sul. Durante o inverno, as pastagens de soja cultivadas na propriedade servem como alimento para o rebanho, composto por 60 ovinos da raça. “Os animais mais novos levo para o galpão por algum tempo. As ovelhas dão cria perto das casas e o cuidado é essencial para ter um bom índice. Tenho mais umas 30 ovelhas além do Dohne e, este ano, já deu mais de 100% de parição, com algumas perdas, mas vamos ter mais cordeiros que ovelhas”, conta Quines.
As perdas de cordeiros estão entre as maiores dificuldades do setor. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Edmundo Ferreira Gressler, o maior problema atualmente são os “números tímidos” na manutenção desses cordeiros vivos, com mortes que acontecem até o período da desmama. Apesar disso, o dirigente aponta que o rebanho brasileiro está aumentando, fortalecido pelos mercados de lã e carne. “Hoje há o fortalecimento do mercado da lã, com valores mais significativos. Ela retorna ao mercado internacional, é uma commodity. Outro movimento que também é tão importante quanto é o da carne. A procura dos frigoríficos, a demanda, a valorização e o preço pago ao produtor”, analisa.
A comercialização da cabanha Posto Novo é definida pelo agropecuarista como um equilíbrio entre, justamente, carne e lã, com média de 19 micras de lã fina. Os cordeiros, após o desmame, também são disponibilizados ao mercado, para confinamento e abate.
Mercado está mais cauteloso, mas genética de ponta mantém demanda
A venda de ovinos na 49ª Expointer mostrou um mercado mais cauteloso, mas ainda interessado em animais de qualidade e genética superior. Mesmo que a comercialização tenha movimentado R$ 887,94 mil, queda de 10,4% em relação ao ano passado, a Arco avalia que a redução não representa perda de interesse pela atividade. Para Edmundo Ferreira Gressler, o resultado financeiro não deve ser analisado de forma isolada, porque o cenário econômico influencia a disposição dos compradores para investir.
“O valor representa o momento econômico que a gente vive, que não é de insegurança, mas é de maior controle no dinheiro. Hoje a necessidade é no sentido de quem tem que guardar, de não gastar mais do que se pode gastar”, explica.
Gressler observa ainda que os animais campeões e reservados continuam apresentando maior liquidez, enquanto algumas fêmeas também foram procuradas para investimentos. “A Expointer tem tido, nos últimos anos, uma comercialização em cima daqueles animais mais bem-classificados, aqueles animais de ponta, campeões, reservados, que sempre tiveram uma liquidez mais efetiva”, afirma. A perspectiva para as feiras de verão é de aumento da movimentação comercial, sustentada principalmente pelo comportamento dos mercados de lã e de carne ovina. Com os números da Expointer e das vendas desde as feiras de verão, a Arco já contabilizou, em comercialização, R$ 6,36 milhões.
A expectativa também está relacionada à busca por genética capaz de melhorar os índices produtivos dos rebanhos. Gressler avalia que o cenário favorece investimentos na produção de cordeiros mais precoces e pesados, o que pode ampliar a procura por animais de genética voltada à produção de carne nas próximas feiras do calendário da ovinocultura.
Ovinocultores apostam na recuperação do setor
Após enfrentar dificuldades em um período de desvalorização da lã de Corriedale, Rosane Machado decidiu investir na raça Ideal, em sua propriedade, a Fazenda Santa Edith, em Santana do Livramento. Segundo a Seapi, as duas raças estão entre as de maior participação no rebanho gaúcho, atrás apenas do Merino Australiano. Ao longo do processo, porém, Rosane passou a trabalhar com o Dohne Merino, atualmente predominante em seu rebanho. “Nós começamos a fazer o cruzamento do Dohne com o Ideal e, a partir disso, percebemos que o cordeiro produzido era de bom tamanho, uma raça interessante. Também começamos a identificar o diâmetro da lã que o animal produz, classificando as fêmeas por uma menor micronagem, porque o mercado da lã passou a valorizar mais as lãs mais finas”, explica.
Atualmente, o rebanho é formado por 150 matrizes, com a meta de alcançar 100% de nascimentos bem-sucedidos e um alto índice de partos múltiplos, resultado do processo de classificação dessas matrizes. O trabalho no campo acontece há cerca de 14 anos e, desde então, Rosane observa uma redução no rebanho gaúcho.
“O mercado de ovinos no RS encolheu muito. Aproximadamente 10 anos atrás, nós tínhamos mais de 13 milhões de ovinos; hoje, temos pouco mais de 3 milhões. Isso se deve a vários motivos: o produtor, em geral, perdeu espaço na ovinocultura; se desencantou com a criação por conta dos baixos preços da lã e da carne; em função de ataques de cachorro, principalmente javali; roubo; dificuldade de mão de obra. Então, isso foi desmotivando o produtor, e muitos rebanhos encolheram e outros até foram extintos. Além disso, nosso Estado, em geral, tem baixos índices de eficiência”, disse a criadora.
Mesmo diante dessa redução, a expectativa entre os representantes do setor é de recuperação do número de animais após o período de nascimentos. Gressler projeta um aumento do rebanho. “A gente vai ter um incremento, imagino, de 500 mil cordeiros. Se nós formos avaliar a população ovina próxima a 3 milhões, eu imagino que pelo menos 1 milhão de ventres tenham sido fertilizados. Por consequência, 1 milhão de cordeiros.”
A Radiografia da Agropecuária estima o total de 2,53 milhões de animais declarados em 2025, com raças de corte predominantes no rebanho gaúcho, representando 45,2% do total, seguidas pelas raças mistas, com 35,9%, e pelas raças laneiras, com 16%. As leiteiras correspondem a menos de 1% do total de ovinos.
O número oficial, porém, pode não corresponder ao número de animais nos campos do Estado, de acordo com a técnica da Emater/RS-Ascar Elusa Santos Andrade. “Se observarmos os dados oficiais da Seapi, temos uma diminuição, com um rebanho menor que 3 milhões. Acreditamos que seja um pouco mais. É uma estatística, porque temos uma dificuldade nas declarações, pois o rebanho ovino gaúcho está concentrado 70% nas propriedades familiares e muitos produtores não fazem a declaração do rebanho”, explica.
A Fazenda Santa Edith faz parte da Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, na localidade de Cerros Verdes. A rotina da propriedade é adaptada ao período de parição, a fim de garantir a sobrevivência dos cordeiros e contribuir para a recuperação do rebanho. As matrizes são recolhidas para prevenir ataques, além de serem suplementadas e monitoradas. Durante o dia, seguem os cuidados com a sanidade, como conta Rosane. “Temos um potreiro só para alojar aquelas ovelhas com partos múltiplos. Então, quando identificada a parição de gêmeos, a gente retira essa ovelha com seus filhotes. Eventualmente, há perdas, mas é interessante que a ovelha tenha essa habilidade materna para receber e cuidar desse cordeiro.”
Além da criação de ovinos, há também a produção de bovinos da raça Braford, com inseminação. Rosane, que trabalhava como enfermeira, diz que é importante reconhecer o trabalho desempenhado pelos criadores. “Quando o consumidor vai à gôndola do supermercado, ele não tem noção de todo o processo. Não sabe o que foi feito para aquela carne chegar daquele jeito ali no supermercado. Então, existe todo um trabalho por trás disso, que não é fácil, não é simples e não é rápido.”
Com foco na melhoria dos resultados e na comercialização de carne e lã, as expectativas de nascimento foram superadas na propriedade e a melhora dos preços representa a recuperação de gastos. “Quando a gente fala em preço, é uma recuperação de perdas. Não é um preço majorado. O produtor na ovinocultura veio trabalhando, pelo menos, me atrevo a dizer que nos últimos seis anos, literalmente tirando dinheiro do bolso para manter a atividade. Porque a atividade, por si só, não se pagava. Hoje, nos últimos tempos, esse cenário vem mudando. Então, por isso, a carne vem recuperando perdas e o preço da lã também.”