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Dejetos: de problema ambiental à geração de energia

Suinocultura gaúcha, uma das três maiores do país, tem potencial para expandir a geração de biogás e reduzir suas emissões de CO₂

Transformação de dejetos de suínos em biogás a partir de biodegestores contribui para as metas do Plano ABC+ RS
Foto : Juliano Corruli Corrêa / Embrapa Suínos e Aves/ Divulgação / CP

A suinocultura do Rio Grande do Sul, a terceira maior do país, composta por 4.802 estabelecimentos produtivos distribuídos em 288 municípios, cuja capacidade de alojamento é de aproximadamente 6 milhões de animais, tem uma grande potencialidade para gerar biogás a ser transformado em energia elétrica a partir do gigantesco volume de dejetos.

Segundo estudo de 2025 elaborado pelo Instituto 17, uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que desenvolve políticas públicas para a transição energética, apenas 29 unidades suinícolas produziam o biogás, em um universo potencial mapeado de 254 para gerar o produto, ou seja, seria possível ampliar em 8,7 vezes.

Além de 55 poderiam originar o biometano, biocombustível para veículos, que hoje, como geração por suínos, ainda é novidade no Estado.

As unidades em atividade no ano passado tratavam juntas o total de 523,6 mil metros cúbicos de dejetos por ano e, assim, evitavam a emissão de 17,6 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) no mesmo período. Já o potencial das 254 com aptidão para a energia elétrica evitaria a liberação de 255 mil toneladas de CO2 por ano – 14,48 vezes mais que atualmente.

O estudo foi exibido no workshop “Panorama Atual do Manejo de Dejetos na Suinocultura, Emissões de Metano e Potencial de Biogás”, em maio passado, encontro que ainda teve a presença de técnicos da Embrapa, da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do RS (Seapi) e da Emater/RS-Ascar.

O tema é debatido no âmbito do Plano ABC+ RS, política voltada à adoção de tecnologias sustentáveis e à redução das emissões de gases de efeito estufa na agropecuária.

“Os resultados apresentados reforçam o potencial da suinocultura gaúcha na agenda climática”, destacou, no evento, Jackson Brilhante, coordenador do Plano ABC+ RS na Seapi.

Conforme ele, no estudo de viabilidade técnica, se buscou identificar quais seriam os limites mínimos de escala para a viabilização de um projeto para gerar biogás. A conclusão é que a unidade de produção precisa ter, no mínimo, 4 mil suínos, ou 2 mil matrizes, ou creche para 10,3 mil leitões/ano.

No caso de biometano, a transformação de biogás no biocombustível, a escala teria que ser ainda maior. Portanto, visto a dimensão necessária, apenas 254 unidades no Estado estariam aptas. “Porque são grandes empreendimentos. Tem que ter um volume grande de dejetos”, explica. “Porque também é um investimento elevado.”

Mas os efeitos ambientais já são colossais. Brilhante cita que, no inventário de emissões na suinocultura, considerando a base de dados do Sistema de Defesa Agropecuária da Seapi, os 29 estabelecimentos com biodigestores instalados tratam 5,2 milhões de metros cúbicos a cada dez anos (ou 523,6 mil metros cúbicos por ano), praticamente 50% da meta do Plano ABC+ RS, que é, para toda a cadeia de proteína animal, de 11 milhões de metros cúbicos em uma década.

“Esses resultados demonstram o compromisso da cadeia de suínos em promover a sustentabilidade e a importância dela para cumprimento das metas do Plano ABC+RS”, ressalta Brilhante.

“Mostra, ao mesmo tempo em que a atividade econômica gera uma grande quantidade de resíduos, tem potencial de agregar valor dentro da propriedade e, quem sabe, até reduzir também a emissão de metano, um importante gás que tem um potencial de aquecimento global de cerca de 28 vezes do que o dióxido de carbono”, esclarece o coordenador do Plano ABC+ RS.

Escala define viabilidade de produção de biogás

Investimentos em granjas para gerar biogás varia de R$ 900 mil a R$ 3 milhões em granjas, com retorno entre três e quatro anos

A principal limitação para a implantação de um sistema de geração de biogás a partir de dejetos de animais é o tamanho do empreendimento suinícola. O engenheiro ambiental Ivan Cesar Tremarin, sócio-diretor da B7 Biogás, empresa de consultoria, engenharia e desenvolvimento de projetos de biogás e biometano, com foco também em propriedades rurais, esclarece que, de maneira geral, projetos de biogás para geração de energia elétrica ou térmica tornam mais atrativos em granjas de médio e grande porte.

“Como exemplo, em números médios baseados em projetos atuais, pode-se usar como base 2,2 mil matrizes em UPD/UPL (unidade produtora de desmamados/unidade produtora de leitões) e 4 mil cabeças para terminação, ou em arranjos coletivos entre produtores”, explica.

“Como referência prática, granjas com alguns milhares de suínos em terminação ou sistemas com matrizes e terminação integrados já podem justificar um estudo técnico-econômico.”

Segundo Tremarin, os valores dos investimentos variam conforme o nível tecnológico. “Um projeto de biogás com biodigestor, sistema de tratamento do gás e geração elétrica pode partir de investimentos na ordem de R$ 900 mil a R$ 3 milhões em granjas de médio porte, podendo superar esse valor em unidades maiores ou mais automatizadas”, revela.

“O payback (tempo para o retorno do desembolso) também depende do custo de energia substituído (térmica, combustível, elétrica), tarifa elétrica, se é para consumo próprio, venda ou compensação de energia, custo de operação, financiamento e aproveitamento do digestato (sobras após a geração do biogás)”, acrescenta.

“Em projetos bem dimensionados, o retorno pode ficar em torno de três a quatro anos para biogás com geração elétrica ou térmica e de cinco a oito anos para biometano.”

O especialista menciona o que o suinocultor precisa considerar para realizar o investimento. “O primeiro ponto é entender que biogás não é apenas instalar um biodigestor. É um projeto de engenharia, operação e gestão de resíduos. O produtor precisa avaliar a disponibilidade diária de dejetos, o manejo da água na granja, a carga orgânica, a regularidade da produção, a área disponível, o licenciamento ambiental, a destinação do digestato, a conexão elétrica ou o uso térmico, além da capacidade de operar e manter o sistema”, lista.

“Também é fundamental fazer análises laboratoriais dos dejetos, como sólidos totais, sólidos voláteis, DQO (Demanda Química de Oxigênio, indicador da quantidade de matéria orgânica presente) e potencial bioquímico de metano. Usar apenas dados de literatura pode levar a erros de dimensionamento, produção menor do que a prevista e perda de viabilidade econômica.”

Para gerar o biometano, o investimento exige uma dimensão bem superior.

“Para produção de biometano, normalmente é necessária maior escala, porque o projeto envolve purificação, compressão, controle de qualidade e logística. Nesse caso, tendem a ser mais viáveis modelos coletivos, cooperativas, condomínios de produtores ou projetos integrados à agroindústria”, informa a Associação Brasileira do Biogás (Abiogás).

“Equipamentos como cromatógrafos, por exemplo, podem elevar o custo do projeto e dificultar a viabilidade em menor escala”, exemplifica. “O biometano pode substituir diesel, gás natural fóssil e outros combustíveis, especialmente na indústria e no transporte pesado. Além disso, projetos bem estruturados podem gerar certificados ambientais, como créditos de carbono e CGOB (Certificado de Garantia de Origem do Biometano), criando uma nova oportunidade econômica para produtores e agroindústrias.”

MANEJO AMBIENTAL

Segundo a Abiogás, o país possui 1.727 plantas de biogás em operação, com produção estimada de 13,6 milhões de metros cúbicos por dia. O levantamento é geral, ou seja, inclui os dejetos de suínos, mas também de bovinos e aves. E no Rio Grande do Sul já são 131 unidades produtoras cadastradas, com cerca de 0,65 milhão de metros cúbicos/dia de produção (também no cômputo geral).

“A produção de biogás a partir de resíduos agropecuários já é uma realidade no Brasil, especialmente em propriedades rurais, cooperativas e agroindústrias. No caso da suinocultura, os dejetos têm grande aderência à biodigestão anaeróbia por serem gerados de forma contínua e demandarem manejo ambiental adequado”, explica coordenadora Técnica Regulatória da entidade, Maria Clara Pontelli.

Especificamente em relação a suínos, Maria Clara considera o “potencial expressivo”. “Especialmente porque a suinocultura está inserida em uma cadeia agropecuária com grande geração de resíduos orgânicos”, lembra. “No Brasil, o potencial de biogás a partir de dejetos animais é de aproximadamente 12,09 bilhões de metros cúbicos/ano, equivalente a cerca de 33,14 milhões de metros cúbicos/dia”, esclarece.

“No Rio Grande do Sul, o potencial de biogás a partir de dejetos animais é de aproximadamente 1,47 bilhão de metros cúbicos/ano, equivalente a cerca de 4,02 milhões de metros cúbicos/dia”, acrescenta. “Esses números não são exclusivos da suinocultura, mas mostram a dimensão da oportunidade para a proteína animal, recorte no qual a suinocultura está inserida.”

A coordenadora explica ainda que além de gerar a energia elétrica, a ser usufruída na manutenção da propriedade, o aproveitamento dos dejetos suínos melhora o manejo ambiental do local e reduz odores, além de diminuir passivos ambientais e evitar emissões de metano.

“Outro benefício importante é a produção de biofertilizante. O digestato gerado no processo pode ser usado como fertilizante orgânico, desde que manejado corretamente. Isso contribui para a ciclagem de nutrientes e pode reduzir a dependência de fertilizantes minerais”, afirma.

“O produtor também pode gerar diferentes produtos: energia elétrica, energia térmica, biometano, biofertilizantes e CO2 biogênico.” Na questão ambiental, a produção de biogás contribui de duas formas: “Primeiro, captura o metano que seria emitido no manejo convencional dos dejetos; segundo, permite substituir combustíveis fósseis por energia renovável.”

Conforme Maria Clara, os principais desafios para a adesão ao biogás é o alto investimento inicial, a escala dos projetos, o acesso a crédito, a assistência técnica e a disseminação de conhecimento sobre a tecnologia. “Muitos produtores ainda precisam de apoio para dimensionar, operar e manter os biodigestores de forma adequada”, diz.

“A viabilidade depende mais do modelo de negócio do que apenas do tamanho da granja. Para geração de energia elétrica ou térmica para autoconsumo, o projeto pode ser viável em propriedades com volume constante de dejetos e consumo próprio de energia”, afirma.

“No Rio Grande do Sul já existem iniciativas que podem apoiar o avanço do setor, como o Programa Gaúcho de Energias Renováveis, o Biogás-RS e o Sulgás BioHub. O desafio é fazer essas políticas chegarem de forma mais prática ao produtor, com crédito, assistência técnica e modelos de negócio viáveis”, complementa.

Transformação de dejetos suínos em biogás gera energia e reduz os impactos ambientais, como no Grupo Wilsmann, em Teutônia
Transformação de dejetos suínos em biogás gera energia e reduz os impactos ambientais, como no Grupo Wilsmann, em Teutônia | Foto: Ivan Tremarim / Divulgação / CP

De passivo a ativo estratégico e ambiental

Em Teutônia, projeto de R$ 1,2 milhão transforma resíduos em energia elétrica e reduz as emissões de gases de efeito estufa

Uma das iniciativas de biogás é o Grupo Wilsmann, sediado em Teutônia, no Vale do Taquari, com atuação de décadas no agronegócio, e que desenvolve suas atividades com foco em inovação, eficiência e sustentabilidade. Na suinocultura, a empresa opera uma Unidade Produtora de Leitões (UPL) integrada, ambiente em que são produzidos 85 mil leitões por ano a partir de 3,1 mil matrizes, e atualmente em fase de ampliação da capacidade produtiva para elevar a escala da operação.

A usina, cujo investimento foi de R$ 1,2 milhão, produz aproximadamente 500 mil kWh de energia elétrica por ano, a partir da biodigestão de resíduos orgânicos, mas com a conclusão da ampliação, a expectativa é elevar para aproximadamente 1 milhão de kWh anuais, volume suficiente para suprir cerca de 80% de toda a demanda de energia elétrica da unidade. Além disso, reduz a emissão de CO2 em 6.500 toneladas equivalentes por ano, número que vai dobrar com a ampliação, em 2027.

“Como empresa familiar, acreditamos que a competitividade do agro depende da capacidade de inovar continuamente. Por isso, buscamos incorporar tecnologias que aumentem a eficiência produtiva, reduzam impactos ambientais e fortaleçam a sustentabilidade econômica da atividade”, argumenta César Gustavo Wilsmann, sócio-diretor da empresa.

“Foi dentro dessa estratégia que criamos a Wilsmann Bioenergia Ltda., empresa responsável pela gestão energética da propriedade, transformando resíduos orgânicos em energia renovável e consolidando um modelo de economia circular dentro do próprio Grupo Wilsmann”, explica.

Segundo ele, o projeto de biogás surgiu pela convicção de que os resíduos da produção não devem ser vistos apenas como um passivo ambiental, mas como um ativo capaz de gerar valor econômico, ambiental e energético. O diretor ressalta que mais do que reduzir custos, a iniciativa representa uma mudança de paradigma. “Estamos transformando resíduos orgânicos em uma fonte estratégica de energia renovável, aumentando a autonomia energética da propriedade, reduzindo emissões e agregando valor à atividade”, afirma.

“A criação da Wilsmann Bioenergia Ltda. demonstra nossa convicção de que a bioenergia será um dos pilares do agronegócio nas próximas décadas. O produtor rural deixará de ser apenas um fornecedor de alimentos para também assumir um papel relevante na produção de energia limpa”, projeta o empresário.

Wilsmann detalha ainda que a transformação promovida pela empresa “exige investimentos elevados, tecnologia e visão de longo prazo”. “Por isso, políticas públicas consistentes são fundamentais”, adverte. “O Governo do Estado deu um passo importante ao criar o Programa Biogás-RS, reconhecendo o potencial estratégico da bioenergia para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul”, menciona.

“É fundamental que iniciativas dessa natureza tenham continuidade e efetiva execução. O produtor rural precisa de previsibilidade para investir”, acrescenta. “Também considero importante que esses incentivos alcancem de forma equilibrada as empresas familiares e os produtores que estão realizando investimentos diretamente dentro das propriedades rurais. O desenvolvimento da bioenergia não deve ficar concentrado apenas em grandes empreendimentos. O Rio Grande do Sul possui centenas de propriedades capazes de produzir energia renovável, reduzir emissões, gerar empregos e fortalecer a economia regional.”

O suinocultor também recomenda a quem pensa em investir na iniciativa que visualize o biogás como um investimento estratégico e não apenas como uma forma de reduzir a conta de energia.

“A bioenergia melhora a eficiência da propriedade, fortalece a gestão ambiental, reduz custos operacionais, aumenta a autonomia energética e prepara a empresa para um mercado que valoriza cada vez mais a sustentabilidade”, reforça.

“Também é fundamental realizar um estudo técnico e econômico antes de investir. Cada propriedade possui características diferentes, e o sucesso do projeto depende de um correto dimensionamento da planta, da qualidade operacional e de um planejamento de longo prazo.”

Na Wilsmann, a bioenergia melhora a eficiência da propriedade, fortalece a gestão ambiental, reduz custos operacionais e aumenta a autonomia energética
Na Wilsmann, a bioenergia melhora a eficiência da propriedade, fortalece a gestão ambiental, reduz custos operacionais e aumenta a autonomia energética | Foto: Ivan Tremarim / Divulgação / CP

Tratamento de efluentes: laticínio economiza cerca de R$ 30 mil

Uma outra iniciativa de produção de biogás na pecuária gaúcha, mas esta a partir de dejetos de vacas leiteiras, é a da Laticínio Latsul, de Anta Gorda. A unidade, que recebe diariamente entre 150 mil e 200 mil litros de leite, tinha como um de seus principais desafios ambientais o odor gerado pela estação de tratamento de efluentes, afinal, está localizada em área urbana, além dos elevados custos associados ao tratamento.

“Mas com a implantação do sistema de biodigestão anaeróbia, houve significativa redução dos odores e uma economia aproximada de R$ 30 mil nos custos de tratamento dos efluentes, destaca Ivan Tremarin, da B7.

“Outro importante resultado foi a eliminação do lançamento do efluente tratado em corpo hídrico. Atualmente, após o processo de tratamento, o efluente é destinado ao solo de forma controlada, sendo utilizado como fonte de nutrientes para adubação das pastagens”, conta.

“Esse processo contribui para um modelo de economia circular: os nutrientes presentes no efluente tratado auxiliam na produção das pastagens, que alimentam bovinos leiteiros; parte do leite produzido por esses animais retorna posteriormente ao próprio laticínio como matéria-prima”, complementa Tremarin.

“Além disso, o biodigestor permite a captura do biogás gerado durante o tratamento. Atualmente, sua queima controlada em flare reduz as emissões de metano para a atmosfera, contribuindo também para a redução das emissões de gases de efeito estufa.

Laticínio Latsul, de Anta Gorda: processo de biodigestão reduziu os odores dos dejetos das vacas leiteiras
Laticínio Latsul, de Anta Gorda: processo de biodigestão reduziu os odores dos dejetos das vacas leiteiras | Foto: Ivan Tremarin / Divulgação / CP

Fonte: Correio do Povo

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