RS ocupa a 13ª posição no cultivo de peixes no país, mas a entrada de grandes cooperativas no setor tem potencial de transformar a atividade.
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A piscicultura brasileira superou a marca de 1 milhão de toneladas de peixes cultivados no ano passado. Apenas seis países já tinham atingido este marco, segundo a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), que apurou a exata produção de 1.011.540 toneladas, o maior volume gerado por um país no continente americano. “Chegar aos sete dígitos é uma conquista e tanto para a piscicultura brasileira, pois apenas meia dúzia (literalmente) de países havia ultrapassado essa emblemática marca de 1 milhão de toneladas. É um grande estímulo para alcançar outros patamares”, destaca o Anuário Brasileiro da Piscicultura Peixe BR 2026.
“Além de liderar a atividade nas Américas, o Brasil abre caminho para chegar ao topo do mundo”, acrescenta o texto da publicação. “Esse objetivo será alcançado por meio de investimentos em genética, nutrição, manejo, equipamentos, sanidade, produção, processamento e, principalmente, comercialização nos mercados interno e externo”, complementa o presidente da entidade, Francisco Medeiros. “A meta é chegar à liderança global em 2040.”
O volume produzido no ano passado foi 4,41% superior ao de 2024. “Esse número foi registrado mesmo diante de tantos desafios, como adversidades climáticas, seja com temperaturas muito baixas, seja com as mais elevadas; questões sanitárias; e instabilidade nas cotações dos peixes. Além disso, o mercado como um todo sofreu o baque do ‘tarifaço’ imposto pelo governo dos Estados Unidos a diversos itens produzidos no Brasil, inclusive pescados.”
Neste contexto, o Rio Grande do Sul, estado de expressão em diversas atividades agrícolas e pecuárias, ocupa uma posição intermediária na piscicultura, ao nem ao menos figurar entre os dez principais produtores. No ano passado, o Estado registrou nova queda no volume de produção, para 24,3 mil toneladas, -0,41% ante 2024, o que o deixou em 13° lugar no ranking do país. Nas exportações, o Rio Grande do Sul tem participação inferior a 1%.
Conforme a PeixeBR, a diferença de produção entre 2024 e o ano anterior, em 2,4 mil toneladas, reflete um “movimento de superação do Estado” na busca pela recuperação após o impacto das enchentes de 2024, que causaram prejuízos em diversos segmentos do agronegócio. Naquele ano, a piscicultura perdeu milhares de toneladas de sua produção e boa parte de sua infraestrutura.
“A rota, agora, é de recomposição, de reestruturação para que a atividade volte a crescer e a ganhar competitividade”, afirma a entidade, que vê o setor gaúcho com “pontos fortes para avançar” na retomada.
“Porém, muita gente ainda depende de crédito emergencial e políticas públicas específicas. O setor continua a enfrentar desafios como a dificuldade logística para escoamento, a necessidade de mais unidades de beneficiamento e de uma legislação ambiental moderna que permita avançar na produção, principalmente de tilápia, como já ocorre nos estados da região Sul”, complementa a entidade.
Relevância no horizonte
Ou seja, a piscicultura gaúcha se mostra com baixa representatividade nacional, mas tem muito potencial para ampliar a sua magnitude. A avaliação é do professor da área de Piscicultura do curso de Zootecnia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Rafael Lazzari. Na opinião dele, investimentos por grandes estruturas industriais catapultariam o setor, como o realizado por cooperativas, a exemplo do que ocorre no Paraná, que atualmente é o principal produtor nacional e gerou no ano passado 273.100 toneladas de peixes cultivados, 11 vezes mais que a piscicultura gaúcha.
“Seriam os sistemas mais verticalizados, com integração, porque hoje também um dos grandes desafios do produtor de peixe, principalmente aquele que é mais tecnificado, é o de (não ter) uma garantia de compra”, afirma.
“Não adianta um produtor produzir e depois não ter uma garantia que vai comercializar esse produto, como aconteceu em várias realidades do Estado”, esclarece. “E o grande desafio que temos trabalhado como piscicultura é a questão de pequenas associações regionais ou municipais”, acrescenta.
A partir de uma grande estrutura de produção, seria possível baratear o custo do filé de tilápia para o consumidor final e, desta forma, tornar o produto mais competitivo em relação ao trazido de outros estados, mudando a desigualdade atual.
Além disso, uma organização maior propiciaria um aproveitamento mais adequado a cerca de 60% a 70% da tilápia que não é transformada em comida, resíduo que pode virar farinha, óleo e até biodiesel. “Nós, no Estado, não temos essa escala (de utilização das sobras)”, lembra, visto as pequenas indústrias de processamento. “O Rio Grande do Sul tem um potencial gigante de corpos de água que podem ser potencializados para a produção de peixe, para a melhoria da produtividade”, projeta. “O peixe é uma grande oportunidade de agregação de valor. O peixe é um animal que consegue, por exemplo, converter 1,3 kg, 1,4 kg, 1,5 kg de ração por quilo de peixe. Uma conversão excelente”, menciona.
No entanto, para transformar a aptidão à piscicultura em realidade, Lazzari entende ser fundamental resolver as questões de legislação ambiental e também comerciais, ou seja, a geração de volumes de produção. Desta forma, um dos objetivos seria agregar valor ao produto, assim como ocorre em cadeias já estabelecidas, a exemplo da soja, que é mais valorizada quando submetida ao processamento industrial do que in natura. “O nosso problema principal mesmo é ter volume de peixe para viabilizar a estrutura frigorífica existente. Ou criar novos empreendimentos”, esclarece o professor que ainda aponta como gargalo a falta de capacitação técnica dos empreendedores e a necessidade de incrementar os índices de produção. “Temos poucas unidades abatendo o peixe. Muitas começaram e, pela falta de produto, não conseguiram se estabelecer”, acrescenta.
Portanto, para Lazzari, a piscicultura gaúcha tem condições de dar um salto e colocar o Estado entre os maiores produtores, como ocorre com a soja, o tabaco, os suínos, o frango e a uva.
“Entendemos que a piscicultura para o Estado do Rio Grande Sul é uma atividade que pode proporcionar uma boa renda para os produtores, em qualquer região do Estado. O problema maior é isso, escalonar mercado”, reitera. “Eu vejo a piscicultura como um potencial enorme, um mercado gigantesco, as pessoas querem consumir peixe, mas esse peixe tem que ter constância na oferta e ter qualidade. Acho que esse é um grande desafio.”
Por que o RS está atrás na produção de peixes
Algumas são as razões para o Estado não figurar entre os players na piscicultura nacional. A começar pelo clima frio não muito favorável ao desenvolvimento da principal espécie cultivada no país, a tilápia. Além disso, apenas há bem pouco tempo o Rio Grande do Sul recebeu sinal verde para produzir esse peixe na bacia do rio Uruguai, visto que a tilápia era classificada como exótica.
O pesquisador na área de Aquicultura da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) Marco Aurélio Rotta conta que o Rio Grande do Sul, historicamente, foi um importante produtor de peixes, mas com predominância das espécies de carpas, mais afeitas ao frio e à pequena escala de produção.
Porém, a tilápia, que representa 70% do volume de peixes cultivados no país, acabou se constituindo na espécie que mais recebeu atenção em melhoramentos genéticos e reprodutivos, além de estrutura de industrialização e processamento pelos frigoríficos. “Estamos falando de uma visão industrial dentro de um processo produtivo”, explica.
“Cada vez mais se entende mais da tilápia, e aí põe também a questão de melhoramento da tilápia que traz uma diferença gigantesca com relação a quase todas essas (outras) espécies. Por mais que a carpa tenha um certo melhoramento, na tilápia vem sendo feito isso de uma forma sistemática”, descreve. “Comparativamente com os híbridos, nossos nativos são praticamente selvagens.”
Na questão legal, a restrição do Ministério Público do RS à produção na bacia do rio Uruguai foi retirada há pouco tempo, porém foi estabelecida uma série de exigências, ainda não concretizadas. “Mas, em princípio, estaria resolvido”, diz Rotta. “Só que o ‘resolvido’ no Brasil com relação à legislação é muito relativo. E a hora que se cria um histórico temeroso em cima de uma atividade, que daqui a pouco estão te dizendo que agora pode e, ali na frente, vai fiscal te dar um ‘canetaço’, tu vai querer mesmo botar dinheiro em cima disso?”, questiona sobre iniciativas em investimentos mais robustos ocorrerem no setor.
“Por mais que agora esteja se dando uma saída legal para isso, o que é muito bom para o Estado, mas o estrago em termos de histórico e de percepção tu não tira isso da noite para o dia”, entende. “Então, tem uma série de questões que trazem uma certa ineficiência econômica dentro do processo de produção”, conclui o pesquisador.
“Nós temos que criar hoje, do ponto de vista zootécnico, modelos produtivos que sejam viáveis economicamente. Aí tu pega o melhor conhecimento que tem, vê se aquilo pode ser aplicado daquela forma, porque, às vezes, tu tem o melhor conhecimento mas ele não é viável economicamente”, explica. Ele acredita que a combinação de tilápia com a carpa possa sustentar a industrialização da atividade.

Alternativa de diversificação de renda para os cooperados
Uma grande cooperativa que manifestou interesse na atividade de piscicultura no Rio Grande do Sul é a Cotrirosa, de Santa Rosa. Em abril, a instituição reuniu produtores e cooperados entre outras pessoas para apresentar as bases do projeto que a cooperativa vem estruturando desde 2024, o primeiro Encontro de Oportunidades da Cadeia da Tilápia. A piscicultura seria uma alternativa de diversificação de renda, especialmente para pequenos e médios produtores, sem exigir o abandono das atividades já desenvolvidas nas propriedades.
“A nossa missão é oferecer segurança ao cooperado. Com a produção de tilápia, estamos entregando uma alternativa de diversificação que permite ao agricultor familiar ter uma nova fonte de receita sem abandonar suas atividades atuais, garantindo mais estabilidade financeira para as famílias no campo”, justificou então o vice-presidente da Cotrirosa, Pedro Olavo Rauber.
Os estudos sobre a atividade se inspiram no modelo de produção paranaense, iniciativa integrada à área de produção animal da cooperativa de Santa Rosa. “Não estamos apresentando apenas uma ideia, mas um projeto de estudo sólido. A nossa proposta é estruturar um modelo completo, onde a cooperativa oferece desde o suporte técnico e os insumos até a garantia de compra da produção, focando na industrialização do filé para atender à demanda regional”, explicou no evento o gerente da Área de Produção Animal, Maicon Weimer.
“A região Noroeste tem o que muitos lugares do mundo buscam: o clima ideal e a cultura da produção integrada”, explicou Luiz Felipe Porto, gerente da MAP Aqua, empresa americana que vem validando a aplicação tecnológica do modelo na região, e que apoia o projeto, assim como o Sebrae.
Propriedade passa a gerar 30 toneladas de filé
A ampla lâmina de água de 50 mil metros quadrados de um açude no horizonte do campo na comunidade de São João, em São Pedro do Sul, inspirou o jovem casal Ana Carolina Bombarda e William Fontana de Araújo, então com 20 e 23 anos, em 2018, a empreender na piscicultura. A ideia inicial era secar a água e estabelecer uma estrutura de tanque escavado (um buraco no solo, formando um reservatório de água), mas, após uma pesquisa sobre a atividade, se definiu pelo método tanque-rede (estruturas de telas ou redes instaladas na água), o que torna mais fácil a prática da despesca. Oito anos depois, a estrutura da empresa Tilasul é composta por 90 tanques, dos quais uma dezena composta de berçários e 80 para a engorda de 90 mil tilápias por ano, transformadas em 30 toneladas de peixe (10 mil quilos de filé).
Vocação empreendedora
Ana Carolina, que era urbana, e William, que residia na propriedade dos pais, local dedicado a hortigranjeiros e pecuária de corte, onde estava sediado o açude, decidiram empreender, mas sem um horizonte muito claro sobre a atividade a ser explorada. “Só que daí a gente estava naquela, assim: ‘Ah, o que a gente vai fazer’, sabe? Empreender sempre foi uma coisa bem forte em nós dois. Daí a ideia: ‘Vamos empreender na cidade ou vamos continuar aqui?’ Aí a ideia foi aproveitar o que já tinha. Já tinha o açude ali, então só foi indo”, descreve.
Eles precisaram aprender sobre piscicultura do zero. Tiveram e ainda tem apoio que ela considera fundamental da Emater/RS-Ascar, do Senar/RS e até do técnico que vende a ração, além de muita pesquisa. “No mais, a gente aprende no dia a dia mesmo”, relata Ana.
No princípio, a produção de peixes vivos de um tanque-rede foi levada a feiras, mas o que funcionou mesmo, ou seja, ganhou os consumidores, foi a venda de filés. “No outro ano, a gente comprou mais nove tanques e ficamos com dez”, conta. Na sequência, foi feito o licenciamento para a comercialização na cidade vizinha de Santa Maria, um centro muito maior, mas a chegada da pandemia impediu a expansão, e a venda teve que se manter restrita a São Pedro do Sul, também com peixes vivos, o que novamente não deu retorno.
“A gente pensou: ‘Bom, o caminho é o filé, né?’ Ela (tilápia) viva, o pessoal não compra muito”, relata. Também foi conduzida uma negociação com grandes frigoríficos de peixes, o que também não evoluiu pelo volume de produção limitado.
Depois, a partir de numa conversa com o veterinário responsável pela inspeção municipal, surgiu a ideia de investir na agroindústria, que foi financiada e passou a operar em 2021. Assim, atualmente, a partir da aquisição dos alevinos (os peixinhos), os processos de produção e de industrialização são praticados na empresa, com a apoio de mais duas pessoas. A venda dos filés, que são entregues congelados, por ora, é realizada apenas em São Pedro do Sul porque a empresa tem apenas o Selo de Inspeção Municipal (SIM), mas a ideia é, a partir da adesão ao Consórcio Intermunicipal da Região Centro do Estado/RS (CIRC), expandir a comercialização a 33 municípios da região.

Tilápia é a espécie mais cultivada
A tilápia representa 70% do peixe cultivado no Brasil, somando 707.495 toneladas em 2025, crescimento de 6,83% sobre o ano anterior, e um acréscimo de 148,2% sobre as 285 mil toneladas de exata uma década antes. Essa expansão constante é resultado de uma série de fatores, puxados principalmente pela crescente demanda, tanto do mercado interno quanto do externo, segundo a Associação Brasileira da Piscicultura (PeixeBR).
| Produção Gaúcha | |
| Caxias do Sul | 448 hectares |
| Viamão | 285 ha |
| São Franc. de Paula | 276 ha |
| Soledade | 265 ha |
| Gravataí | 238 ha |
| Espécies | |
| Tilápia | 8,8 mil toneladas |
| Nativos | 700 toneladas |
| Outros | 14,8 mil toneladas |
Fonte: PeixeBR
Também contribuíram a evolução dos peixes, promovida pelo melhoramento genético, e das opções de cortes oferecidos ao consumidor, graças ao aprimoramento dos processos industriais do pescado. Já a produção de peixes nativos chegou a 257.070 toneladas, queda de 0,63%, com Rondônia na liderança (55.200 toneladas). A redução é justificada pelo mercado mais restrito devido ao consumo estar concentrado em certas regiões (principalmente Norte, Nordeste e Centro-Oeste). A PeixeBR ainda cita a necessidade de intensificar os avanços tecnológicos, como já ocorre com a tilapicultura e, especialmente, a demanda pela industrialização. Da mesma forma, houve retração da categoria chamada de “outras espécies”, como pangasius, trutas e carpas, que chegaram a 46.975 toneladas, queda de 1,75% ante 2024. O Rio Grande do Sul é o estado com a maior participação neste perfil de peixes, com fatia de 31,5% do total, ou 14.800 toneladas no ano passado, 200 a menos que no ano anterior.
Da subsistência à renda principal: criação de peixes se torna uma opção para gaúchos
A extensionista Laila Ribeiro Simon, da Gerência Técnica Estadual da Emater/RS-Ascar, destaca que a piscicultura gaúcha, seja de maneira intensiva como semi-intensiva, está espalhada por todo o Rio Grande do Sul, inclusive no Litoral, com pescadores artesanais, integrantes de colônias.
“Em todo o Estado, existe ocorrência da instalação de viveiros para construção de estruturas que possibilitem essa criação de forma menos intensiva direcionada para a subsistência das famílias, mas também de forma mais intensiva, buscando acessar esse mercado de comercialização de pescado que é muito mais abrangente”, descreve.
Já o perfil dos piscicultores gaúchos varia entre os de subsistência, que utilizam o peixe além de um alimento gerado em casa e uma renda extra, até aqueles que têm a atividade econômica como a principal da propriedade. “Existem aquelas famílias que trabalham com a subsistência e em um sistema bem menos intensivo. Chamamos de semi-intensivo, porque ainda fazem algum tipo de trato, mas trabalham voltados para a questão da subsistência familiar. A venda de excedente dessa produção gera uma renda secundária, às vezes até terciária na propriedade”, descreve.
“Mas também tem o perfil daqueles agricultores familiares que investem na atividade e que intensificam os manejos e percebem a piscicultura como uma oportunidade de matriz produtiva”, complementa. “Não é uma piscicultura somente de safra. Ela acaba sendo uma piscicultura de ano fechado, que requer manejo, organização e planejamento, mas, principalmente, dedicação.”
Fonte: Correio do Povo