Destinada a biocombustível de aviação, oleaginosa cresce como alternativa de diversificação agrícola e contribui para saúde do solo

Foto : Emerson da Silva / Divulgação / CP
Marcado pela interrupção do fluxo marítimo no Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo mundial, o conflito no Irã causou estragos na economia global, entre os quais restrições na oferta e aumento dos preços dos combustíveis. Diante da ameaça de crise energética e da busca crescente por fontes renováveis, ganhou destaque a carinata, que desponta nos campos gaúchos como uma alternativa de diversificação e geração de renda nas propriedades rurais. Apesar da semelhança com a canola, a nova oleaginosa não é usada na alimentação humana, apenas na produção de combustível sustentável de aviação (SAF), o chamado bioquerosene.
Nesta safra de inverno, a Emater/RS-Ascar estima que a carinata ocupe 12.365 hectares de lavouras no Estado, a maior parte nas regiões de Santa Rosa, Ijuí e Bagé. Um número modesto, se considerado o potencial existente para a expansão da cultura em áreas que ficam ociosas após a colheita da soja, do milho e do arroz no verão, afirma o diretor técnico da empresa, o engenheiro agrônomo Alencar Rugeri.
“É uma cultura que tem demanda e não vai competir com a alimentação. E no Rio Grande Sul temos uma disponibilidade de área gigantesca”, diz Rugeri.
Segundo o agrônomo, a carinata estreou “oficialmente” no Estado na safra de inverno passada, tendo sido plantada em cerca de 5 mil hectares. Assim como a canola, a planta é resiliente a doenças, mas exige que o agricultor adote boas estratégias agronômicas para atingir bons resultados.
“Ela é mais rústica. Uma das grandes dificuldades que a canola tem é germinar. É uma semente miúda. A carinata é bem semelhante, ela vem na carona desse aprendizado que a canola nos trouxe”, explica Rugeri.
A carinata empolga ainda por ser uma excelente planta de cobertura. Comparada à canola, produz um maior volume de palhada (camada de folhas, caules e raízes deixada após a colheita), o que contribui para a proteção e saúde da terra. Essa característica, observa Rugeri, representa uma vantagem importante frente ao impacto de fenômenos climáticos adversos.
“Em anos de La Niña e El Niño, nós precisamos ter 10, 12 toneladas de matéria seca por ano, e as culturas tradicionais carecem disso. A carinata traz uma perspectiva de renda adicional para o produtor no inverno e também tem benefícios para o solo”, diz o agrônomo.
El Niño preocupa
O agricultor Rômulo Rigon, de Boa Vista das Missões, plantou carinata pela primeira vez em 2025, em 60 hectares, e colheu em torno de 32 sacas por hectare. O incentivo veio da indústria de óleos vegetais Celena Alimentos, com a qual ele já tinha parceria no cultivo de canola. Para Rigon, a experiência foi positiva.
“O manejo é mais simples, (exige) menos investimento. O trigo tem muita doença fúngica, tu tens que entrar com mais fungicida e acaba até não se pagando com os preços atuais (do cereal)”, compara.
Na propriedade de 600 hectares que administra com os pais, Rafaelo Manfio e Cassiane Frizon Rigon, o agricultor reduziu em 30% a lavoura de trigo neste ano e ampliou para 100 hectares a de carinata. Ele espera comercializar a produção por R$ 120 a saca da oleaginosa, que, nos contratos de venda, é balizada pela cotação da soja. Mas o desempenho da safra, pondera Rigon, dependerá do comportamento do El Niño, que aciona o alerta para chuvas intensas no Rio Grande do Sul. Em seu último boletim, em 11 de junho, a Administração Nacional para Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) informou que o evento climático deve se intensificar e indicou 63% de probabilidade de ele se tornar muito forte. “A carinata gosta de alta umidade, mas (também) gosta de horas de sol e a gente está tendo pouco. Então, acredito que esse ano não tenha uma produtividade como no ano passado”, comenta o produtor.
Incentivo da indústria
Em parceria com a multinacional australiana Nufarm, detentora das sementes, a Celena Alimentos vem fomentando o desenvolvimento de uma “cadeia da carinata” no Estado. As empresas fornecem as sementes e a assistência técnica, e os contratos fechados com os agricultores asseguram a compra antecipada da produção destinada à indústria de biocombustíveis.
“O Rio Grande do Sul, até o momento, é a região que está mais evoluída e estrategicamente mais posicionada para crescer essa cultura. Estamos falando de biocombustível, a demanda é colossal”, enfatiza o diretor da Celena Alimentos, Emilio Figer.
Segundo o executivo, o interesse dos produtores gaúchos pela carinata vem aumentando. Para o processamento do grão, a Celena conta com a planta industrial estabelecida no município de São Luiz Gonzaga no ano passado, em parceria com o Grupo Camera. Antes de plantar, porém, é preciso obter a certificação da área de cultivo relativa a requisitos de sustentabilidade e baixo impacto ambiental, explica Figer.
“Estamos fazendo força para certificar mais. Para que (o programa) evolua e dê certo, tem de ter um relacionamento estratégico e de longo prazo. E estabelecer as parcerias com os melhores de cada região”, destaca.
Fonte: Correio do Povo