Brasileiros vibram pela seleção em meio ao gelo e ao isolamento

Foto : Suboficial Wagner Campana / Reprodução / CP
O Brasil está em clima de Copa do Mundo, com o senso de nação mais forte do que nunca. Quando falamos em Copa, contudo, é normal pensarmos no país dentro de suas fronteiras geográficas, muitas vezes esquecendo daqueles que torcem e vivem fora delas. Mas como torcem aqueles em condições de pressão e temperatura completamente diferentes do que o país tropical oferece? Como torcem, por exemplo, os brasileiros na Antártida?
O frio passa dos 20 graus negativos, a noite polar domina a paisagem e o gelo se estende até onde a vista alcança. Em um dos pontos mais remotos do planeta, se vê o extremo oposto das ruas lotadas do Brasil, porém, há espaço para um ritual tipicamente brasileiro: vestir a camisa da Seleção, reunir os colegas e acompanhar os jogos.
Na Estação Antártica Comandante Ferraz, chamada de a “Casa do Brasil” no continente gelado, o isolamento imposto pelo inverno não impede que o futebol atravesse oceanos e faça os militares se sentirem um pouco mais próximos de casa. Durante os jogos da Seleção, a rotina intensa dá lugar, quando o serviço permite, à torcida organizada em pleno território antártico.
Neste período de inverno, 17 militares da Marinha do Brasil formam o Grupo-Base responsável por manter a estação em funcionamento. A equipe permanece cerca de 13 meses isolada para garantir que toda a estrutura esteja preparada para receber os pesquisadores durante o verão antártico, quando a base chega a abrigar até 64 pessoas.
Apesar da distância, os jogos chegam à Antártida em tempo real. E, quando a bola rola, o ambiente muda. Segundo o comandante da estação, capitão de fragata Felipe Araújo, quem está de folga veste a camisa da Seleção, faz previsões para o placar e entra nas tradicionais discussões sobre a escalação ideal. “Todos acabam se tornando técnicos por alguns momentos”, explica.
A estreia da Seleção na Copa permanece como uma das lembranças mais marcantes da atual missão. Embora o resultado tenha sido um empate, o comandante afirma que a partida foi suficiente para instalar definitivamente o clima do torneio na estação.
Nem mesmo a rotina exigente da missão tira espaço desse momento de descontração. As atividades da estação continuam sendo prioridade, mas, para quem não está escalado para o trabalho naquele instante, assistir à partida representa uma pausa bem-vinda em meio ao isolamento. De acordo com Araújo, as comemorações dos gols e das vitórias ajudam a aliviar a rotina e fortalecem o convívio entre os integrantes do Grupo-Base.
A estação tem capacidade para até 64 pessoas | Foto: Suboficial Cristiano Gonçalves / Reprodução / CP
A distância da família é outra realidade constante para os militares. Segundo o comandante, a possibilidade de manter contato com parentes faz com que muitos acompanhem os jogos praticamente juntos, mesmo separados por milhares de quilômetros. A torcida, ainda que à distância, acaba aproximando quem está no extremo sul do planeta daqueles que permanecem no Brasil. “É uma extensão do país do futebol nessa Copa do Mundo”, diz.
O esporte também aproxima nacionalidades quando a estação recebe pesquisadores estrangeiros durante o verão antártico. Conforme Araújo, o futebol costuma render conversas entre profissionais de diferentes países e até provoca rivalidades saudáveis em dias de competição.
Uma dessas situações ocorreu recentemente, quando representantes da estação polonesa Arctowski estiveram na base brasileira para retirar suprimentos. Entre eles havia um pesquisador ucraniano, que aproveitou a visita para acompanhar uma partida de vôlei entre Ucrânia e Brasil. Segundo o comandante, o visitante comemorou a oportunidade de torcer por seu país em território brasileiro, mesmo que no coração da Antártida, registrando o momento em fotos e vídeos.
Além dos jogos, preservar tradições brasileiras faz parte da rotina de quem passa mais de um ano longe de casa. “Isso nos mantém conectados, de certa forma, com o modo de viver do nosso povo e é imprescindível para a manutenção da saúde mental”, explica. Para ele, ajuda a diminuir a sensação de isolamento.
“Para todos nós que estamos aqui isolados, torcer pela seleção traz um misto de sentimentos. O privilégio de estar em um lugar que pouquíssimos seres humanos têm a oportunidade de conhecer se soma à saudade, à expectativa, à convicção do pertencimento, enfim, ao orgulho de ser brasileiro e poder também representar o país”.
Fonte: Correio do Povo