Tendência de El Niño forte em julho, agosto e setembro de 2026 exige cuidados

Foto : Copaaergs / Divulgação / CP
As projeções do APEC Climate Center (APCC), sediado na Coreia do Sul, indicam 100% de probabilidade de manifestação de condições de El Niño no trimestre julho, agosto e setembro de 2026, com 99,4% de probabilidade de ocorrência de condições de forte intensidade.
É o que aponta o Boletim Trimestral do Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do Estado do Rio Grande do Sul (Copaaergs), coordenado pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi). As previsões apresentadas pelo boletim são baseadas no modelo estatístico do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Conforme o boletim, os efeitos do El Niño incluem chuvas muito acima da média. Portanto, não se descarta a possibilidade de ocorrência de eventos extremos comumente associados a inundações e enchentes, especialmente na metade Norte do estado.
Na primeira metade do inverno, há a previsão de eventuais ondas de frio. No entanto, ao longo do trimestre, as temperaturas devem ficar um pouco acima da média, especialmente mais ao norte do estado, e próximas da média mais ao sul, na região de fronteira.
A combinação de excesso de chuvas e temperaturas ligeiramente superiores ao normal poderá aumentar a ocorrência de doenças fúngicas, elevando a necessidade de monitoramento fitossanitário e de aplicações preventivas para controle. Por outro lado, a maior nebulosidade e as temperaturas mais elevadas na segunda metade do trimestre tendem a reduzir o risco de ocorrência de geadas tardias, evento que pode causar danos significativos às culturas de inverno e às lavouras perenes da região.
Culturas de Inverno
Do ponto de vista agronômico, algumas boas práticas de manejo podem ser adotadas para maximizar o desempenho produtivo dos cultivos de cereais de inverno e minimizar riscos.
Realizar o investimento em insumos baseado no potencial de rendimento de grãos permitido pelo ambiente (local e ano) de cada cultivo, ou seja, levar em consideração que a oferta ambiental em anos de El Niño, caso de 2026, é menor do que em anos de La Niña; adotar cultivares com maior resistência genética a doenças; utilizar cultivares com maior tolerância a germinação pré-colheita, em associação com a colheita o mais breve possível quando atingida a maturação dos cultivos de trigo, cevada, triticale, centeio e aveias; fazer rotação de culturas, especialmente para o trigo; avaliar a possibilidade de redução pontual na adubação de semeadura em função do “estoque” no solo; e aderir a programas públicos ou privados de seguridade rural.
Arroz
Dentro do possível, dar continuidade à adequação das áreas destinadas à lavoura, principalmente às atividades de preparo e sistematização do solo e drenagem, para possibilitar a semeadura na época recomendada pelo zoneamento agrícola de risco climático (ZARC); para semeaduras “do cedo”, no mês de setembro, quando a temperatura do solo for baixa, atentar para que a profundidade da semeadura não seja superior a dois centímetros; e atentar para manutenção da drenagem após a emergência das plantas, para evitar prejuízos no estabelecimento inicial em função do prognóstico de chuvas acima da média em algumas regiões.
Culturas de primavera-verão
Fazer o manejo de culturas de inverno ou plantas de cobertura destinadas à melhoria da qualidade e proteção do solo; respeitar o vazio sanitário da cultura da soja; iniciar a semeadura quando a temperatura do solo, a 5 cm de profundidade, estiver entre 16° e 18°C, respeitando o zoneamento agrícola; escalonar a época de semeadura e utilizar cultivares de diferentes ciclos para diminuir a possibilidade de coincidir o período crítico da cultura com as épocas de maior demanda evaporativa; fazer adubação em cobertura quando o solo apresentar disponibilidade de água adequada; e para a cultura do milho, caso sejam planejadas duas safras, deve-se antecipar o máximo possível a semeadura, respeitando-se o zoneamento agrícola de risco climático (ZARC).
Hortaliças
Dar especial atenção para evitar irrigação em excesso e, quando necessário irrigar, dar preferência ao sistema de gotejamento; em cultivos protegidos, para melhorar a disponibilidade de radiação solar, realizar a limpeza do plástico da cobertura; atentar para manutenção das condições térmicas e de ventilação para evitar acúmulo de umidade do ar em ambientes protegidos; o prognóstico de precipitação pluvial acima da média requer atenção quanto à necessidade de monitoramento de doenças, principalmente daquelas favorecidas pelo molhamento da parte aérea e pelo excesso de umidade no ar ou no solo; e considerando o prognóstico de temperaturas do ar acima da média, evitar posicionamento de cultivares de inverno a partir de meados de agosto.
Fruticultura
Adotar práticas conservacionistas visando à proteção do solo e das áreas cultivadas, tais como o uso e a manutenção de cobertura verde (espécies cultivadas ou espontâneas) em vinhedos e pomares; mapear locais sujeitos a encharcamento, enxurradas e erosão dentro das propriedades, realizando correções preventivas em canais de drenagem, saídas de água, estradas internas e pontos de concentração de fluxo superficial; evitar a aplicação de fertilizantes imediatamente antes de previsões de chuvas intensas; planejar antecipadamente a disponibilidade e a distribuição de colmeias; realizar podas verdes para reduzir o sombreamento, favorecer a aeração do dossel vegetativo e acelerar a secagem das frutas após as chuvas; utilizar adjuvantes compatíveis com a tecnologia de aplicação e rotacionar os mecanismos de ação dos produtos para evitar a seleção de fungos resistentes; e em cultivos protegidos, limpar os plásticos da cobertura.
Forrageiras e conforto animal
Manter carga animal baixa ou moderada nas pastagens naturais durante o inverno, considerando o baixo crescimento vegetativo, devido o prognóstico de chuvas acima da média e o menor aporte de radiação solar; fornecer suplemento aos animais; realizar o manejo indicado para as forrageiras de inverno, anuais ou perenes, conforme suas especificidades; reduzir a carga animal na pastagem após a ocorrência de grande volume de chuva, a fim de evitar danos por excesso de pisoteio; monitorar as instalações e o entorno para evitar formação excessiva de barro, que pode favorecer problemas de casco; realizar o monitoramento constante da saúde dos animais, pois o prognóstico de chuvas acima da média e temperaturas do ar mais elevadas pode aumentar os riscos sanitários; e monitorar sinais de estresse térmico nos animais.
Fonte: Correio do Povo