Prática ajuda a proteger os vinhedos contra erosão, estiagens e perdas de nutrientes

Foto : Renê Almeida / Especial / CP
Os herbicidas são produtos químicos ou biológicos desenvolvidos para controlar ou eliminar plantas daninhas que competem com as culturas agrícolas por água, luz e nutrientes. No entanto, na viticultura, algumas iniciativas têm buscado eliminar o uso desses produtos nos vinhedos. Entre os benefícios do método estão a redução do risco de erosão, o aumento da eficiência no uso de nutrientes, a redução da suscetibilidade da videira a doenças fúngicas, a melhora da estrutura do solo e o aumento da resiliência das propriedades vitivinícolas.
“Se nós tiramos o herbicida, nós estamos eliminando essa influência negativa no metabolismo da videira. Estamos agregando uma ferramenta, a planta de cobertura, que deve ser considerada uma aliada do viticultor, visando à proteção do solo, à eficiência no uso de nutrientes, à ciclagem de nutrientes dentro da propriedade e, consequentemente, à maior eficiência na adubação da videira”, explica o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho Henrique Pessoa dos Santos.
Ele afirma que ainda há certa resistência de produtores mais antigos ao uso de plantas de cobertura em videiras devido à ideia de que elas competiriam por nutrientes com a cultura. Santos revela que estudos indicam justamente o contrário.
“Essas plantas de cobertura, pelo fato de crescerem mais rápido, emitem mais raízes finas e conseguem absorver os nutrientes do fertilizante ou do adubo com muito mais eficiência do que a planta perene. Se essas plantas de cobertura têm maior eficiência de absorção, o adubo aplicado permanece na área, não é carregado pela chuva nem perdido por volatilização”, detalha.
A eliminação do uso de herbicidas também beneficia os mecanismos de proteção das videiras.
“Esses herbicidas geralmente atacam o que chamamos de metabolismo secundário da videira. E o metabolismo secundário está relacionado aos mecanismos de defesa da planta. Ou seja, aumenta-se a suscetibilidade da videira a doenças fúngicas, por exemplo. É como se você administrasse um veneno a uma pessoa e ela passasse a ficar mais suscetível a outros problemas”, explica.
A prática também pode ser benéfica para aumentar a resiliência dos vinhedos diante da crise climática, que tem provocado enchentes e estiagens.
“A planta de cobertura, em momentos de estiagem, também favorece a videira. Se você tem uma planta de cobertura de porte baixo, mas com um bom sistema radicular, ela ajuda na infiltração da água. Ou seja, a pouca chuva que ocorre infiltra mais no perfil do solo e mantém por mais tempo esse aporte hídrico para a videira”, afirma o pesquisador, que ressalta que estudos ainda investigam qual é a melhor planta de cobertura para cada localidade.
Implementação na Campanha Gaúcha
Desde 2021, a vinícola Salton adota plantas de cobertura do tipo gramínea, como o azevém, em substituição aos herbicidas em seus vinhedos próprios localizados em Santana do Livramento, na Campanha Gaúcha.
Espécie nativa utilizada como planta de cobertura, o azevém possui ciclo vegetativo de inverno, o que garante seu desenvolvimento sem competir com a videira, formando uma espécie de barreira protetora e suprimindo o desenvolvimento de plantas daninhas.
“Por meio de pesquisas desenvolvidas junto às equipes de viticultura e universidades, descobriu-se que o azevém traz ganhos para o solo, como a redução da erosão, o controle da temperatura em períodos de calor mais intenso, a redução da taxa de evaporação e o sequestro de carbono, resultando na remoção de gases de efeito estufa”, explica o diretor-presidente da Salton, Maurício Salton.
Diretor-presidente da vinícola Salton, Maurício Salton | Foto: Renê Almeida / Especial / CP
A eliminação do uso de herbicidas nos vinhedos próprios ocorreu em 2023. Os estudos para viabilizar essa mudança foram realizados em parceria com instituições como a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Foram feitas análises específicas de calibração e adubação do solo para as condições da Campanha Gaúcha.
Ele detalha o processo:
“Num primeiro momento, toda a viticultura desenvolvida na Campanha veio com o aprendizado e a metodologia da Serra. Nós mesmos, que iniciamos o plantio um pouco antes desse projeto, tivemos diversos problemas de produtividade e até uma frustração inicial em termos de qualidade. Foi então que entendemos, por meio desse trabalho, que as variedades respondem de forma diferente aos níveis de nitrogênio, potássio e fósforo. Cada variedade tem necessidades distintas. Uma pode precisar de mais nitrogênio, outra de mais fósforo”, afirma Salton.
O professor da UFSM Gustavo Brunetto acrescenta que, na Campanha Gaúcha, a presença de plantas de cobertura nos vinhedos é necessária porque muitos solos são arenosos e, portanto, mais frágeis.
Segundo ele, essas espécies podem reduzir as perdas de solo por erosão, evitar a perda de nutrientes, melhorar a atividade microbiana (um importante indicador de qualidade do solo) e contribuir para a manutenção ou até mesmo para o aumento dos teores de carbono nos vinhedos.
“Junto com o azevém, em vinhedos da Campanha Gaúcha existe a presença de espécies do Bioma Pampa. Com a presença do azevém e dessas espécies, não é necessária a aplicação de herbicidas que antes eram utilizados para controlar plantas invasoras”, afirma.
Outros métodos
Outra medida adotada pela Salton foi o investimento em maior precisão no monitoramento das condições climáticas da região, evitando aplicações desnecessárias de fungicidas.
“Em Santana do Livramento, instalamos uma série de estações meteorológicas que cobrem toda a área da propriedade. Com elas, temos uma noção exata se vai ou não chover e qual será o volume de precipitação. Com base nessa informação, que traz muito mais precisão do que a nossa percepção, fazemos a aplicação na dosagem correta ou até deixamos de aplicar quando há apenas uma suspeita de chuva”, explica.
Salton afirma que a redução na aplicação de produtos químicos foi testada em diferentes condições climáticas e ao longo de diversas safras antes de ser apresentada aos produtores.
Apesar dos resultados positivos, o diretor-presidente considera muito difícil eliminar totalmente o uso de agroquímicos no Estado. Nesse contexto, a vinícola também atua no apoio e na orientação aos produtores rurais.
“A gente busca uma aplicação que seja saudável para o meio ambiente e também para o produtor. A exposição a produtos químicos tem consequências. Por isso, levamos conscientização, mas também orientações sobre segurança, uso correto de EPIs e todos os cuidados necessários no manejo desses defensivos”, afirma.
Impacto no mercado
Maurício acredita que a eliminação dos herbicidas nos vinhedos pode beneficiar tanto a saúde dos produtores quanto a rentabilidade da atividade.
“Acho que as grandes contribuições acabam sendo, de um lado, econômicas, tanto para o produtor, que consegue melhores rendimentos na gestão da propriedade, quanto para o mercado que compra essa matéria-prima, com uma precificação mais competitiva. Além disso, há o aspecto do manejo, que contribui muito para a saúde do produtor.”
Por fim, Salton aposta na manutenção dessas práticas sustentáveis, mesmo que, em sua avaliação, elas ainda não representem um diferencial decisivo para o consumidor.
“Ainda não existe uma precificação associada a isso. Não se percebe uma escolha do consumidor por um rótulo em função dessas práticas. Acho que isso pode evoluir no futuro, mas, neste momento, não é um fator decisivo de compra. Independentemente disso, sempre pensamos no que poderíamos agregar em termos de práticas para a empresa. Se isso gerar retorno econômico futuramente, ótimo. Mas o mais importante é construir um legado para a empresa”, finaliza.
Fonte: Correio do Povo