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Mais de meio milhão de hectares foram atingidos pelas enchentes no RS

Resultados revelam que a tragédia ocorreu predominantemente em áreas associadas a várzeas
Resultados revelam que a tragédia ocorreu predominantemente em áreas associadas a várzeas
Foto : Ana Claudia Barneche Oliveira/ Embrapa / CP Memória

A Embrapa identificou, quantificou e caracterizou as classes de solo afetadas pelas enchentes que ocorreram no Rio Grande do Sul em 2024. A nota técnica, que será divulgada nesta terça-feira (9), permite compreender como as características naturais do território influenciaram a distribuição dos impactosA análise aponta que a inundação atingiu 550,4 mil hectares distribuídos em 94 municípios gaúchos que decretaram estado de calamidade no Decreto Estadual 57646, abrangendo 20 classes de solo diferentes.

O solo mais prejudicado foi o Planossolo Háplico Eutrófico solódico, que respondeu por 210,5 mil hectares, o equivalente a 38,3% de toda a área afetada. Em seguida aparece o Neossolo Flúvico Ta Eutrófico, com 73,5 mil hectares. Juntas, as cinco principais classes de solo somam aproximadamente 390,8 mil hectares, concentrando mais de 71% dos impactos observados.

Os resultados revelam que a tragédia ocorreu predominantemente em áreas associadas a várzeas, planícies de inundação e ambientes com limitações naturais de drenagem. Segundo a análise técnica, os impactos seguiram a organização natural dos sistemas fluviais e das áreas sujeitas ao acúmulo de água, evidenciando a relação entre os danos observados e a vulnerabilidade ambiental desses territórios.

Entre os municípios mais atingidos proporcionalmente estão Nova Santa Rita, Esteio e Canoas, onde cerca de metade do território municipal foi atingida pelas águas. Em área absoluta afetada, destacam-se Rio Grande, Cachoeira do Sul e Rio Pardo.

Para o coordenador do projeto Recupera Rural RS e pesquisador da Embrapa, Ernestino Guarino, os estudos reforçam que a reconstrução do Rio Grande do Sul precisa ir além da recuperação imediata das áreas atingidas e considerar a restauração das funções ecológicas da paisagem.

“As áreas de preservação permanente desempenham um papel fundamental na regulação hídrica, na proteção dos recursos naturais e na redução dos impactos de eventos extremos. A vegetação das margens dos rios ajuda a controlar a velocidade com que a água da chuva chega aos cursos d’água, reduz processos erosivos, diminui o assoreamento e contribui para a manutenção da biodiversidade. Por isso, a recuperação ambiental dessas áreas precisa caminhar junto com a recuperação produtiva das propriedades rurais”, afirma.

Segundo Guarino, os dados apresentados nas notas técnicas demonstram que a recuperação dos solos e dos sistemas produtivos depende também da restauração da vegetação nativa em áreas estratégicas do território.

“Não basta recuperar o solo agrícola se não houver proteção das margens dos rios. A conservação e a restauração das APPs são parte essencial da estratégia de adaptação climática e da construção de paisagens mais resilientes, capazes de reduzir vulnerabilidades e enfrentar eventos extremos cada vez mais frequentes”, destaca.

Áreas estratégicas para proteção da água

Uma base integrada de Áreas de Preservação Permanente (APPs) hídricas teóricas foi consolidada para todo o Rio Grande do Sul. O trabalho reuniu dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do MapBiomas. Segundo a Embrapa, as informações ajudam a reduzir lacunas nas bases individuais e ampliam o conhecimento sobre a rede hidrográfica do Estado.

O levantamento identificou aproximadamente 4,46 milhões de hectares de APPs hídricas teóricas no Rio Grande do Sul, áreas consideradas estratégicas para a proteção dos recursos hídricos, conservação ambiental e redução da vulnerabilidade dos ecossistemas. Os resultados mostram que cerca de 66% dessas áreas estão concentradas em apenas três grandes unidades hidrográficas.

A maior delas é a bacia dos rios Taquari, Jacuí, Pardo e Vacacaí, que reúne aproximadamente 1,34 milhão de hectares de APPs, o equivalente a mais de 30% de toda a área mapeada no estado. Também se destacam as bacias dos rios Passo Fundo, Várzea, Ijuí e Turvo, com cerca de 876 mil hectares, e dos rios Ibicuí e Santa Maria, com aproximadamente 740 mil hectares.

Segundo o responsável técnico pelos estudos, o pesquisador Adalberto Miura, da Embrapa, o mapeamento fornece base técnica inédita para apoiar ações de conservação, recuperação ambiental, planejamento territorial e gestão dos recursos hídricos em diferentes regiões do estado.

“Na minha avaliação, este trabalho representa uma importante contribuição para o planejamento territorial e ambiental do Rio Grande do Sul, ao oferecer subsídios concretos para ações de restauração ambiental, conservação do solo e da água e gestão das bacias hidrográficas.”

Ele destaca que o diagnóstico produzido vai além do mapeamento dos impactos, contribuindo para a formulação de estratégias de prevenção e resiliência climática.

“Os resultados mostram, de um lado, a importância das APPs para a manutenção dos serviços ambientais e, de outro, evidenciam a vulnerabilidade de determinadas classes de solos aos impactos de eventos climáticos extremos, como as enchentes de 2024. Mais do que um diagnóstico, os estudos apontam caminhos para tornar o território mais resiliente e preparado para enfrentar desafios climáticos futuros. ”

Ambientes mais sensíveis do território gaúcho

Embora abordem temas distintos, as duas notas técnicas se complementam ao identificar onde estão os ambientes mais sensíveis do território gaúcho e quais áreas demandam maior atenção nas estratégias de recuperação e adaptação. Enquanto o mapeamento das APPs amplia o conhecimento sobre as áreas essenciais para proteção dos recursos hídricos, o estudo sobre os solos atingidos revela como os impactos das enchentes se distribuíram no território e quais ambientes apresentaram maior vulnerabilidade aos eventos extremos.

Além de subsidiar ações de recuperação ambiental e produtiva, os estudos oferecem informações que podem orientar políticas públicas, planejamento territorial, gestão de riscos e medidas de adaptação diante da crescente frequência de eventos climáticos extremos.

Evento

Nesta terça e quarta-feira, a Embrapa fará um evento para apresentação do Balanço Recupera Rural RS – 2 anos de reconstrução da agropecuária gaúcha. A programação começa às 8h, no auditório do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em Porto Alegre

O evento também promoverá debates sobre recuperação de encostas, restauração da vegetação nativa, recursos hídricos, saúde única, recuperação de solos e produção de sementes e mudas. A abertura contará com palestra do consultor internacional do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Caio Rocha, que abordará os impactos dos eventos climáticos extremos no Brasil e no mundo e os desafios para os próximos anos.Notas técnicas da Embrapa apresentam um levantamento detalhado sobre os solos atingidos pela inundação de maio de 2024.

Fonte: Correio do Povo

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