Perfil do produtor é familiar, que aproveita até 10 hectares com a atividade

Foto : Arquivo Pessoal / Divulgação / CP
A cebola é uma cultura democrática, possivelmente presente em todos os municípios agrícolas gaúchos, para consumo próprio ou comercialização em feiras. É o que interpreta o engenheiro-agrônomo Cesar Roberto Demenech, assistente técnico regional da Emater/RS-Ascar em Pelotas. Mas a escala mais comercial, de relevância econômico-social, se dá em Rio Grande, São José do Norte e Tavares, com área de 1,7 mil a 1,8 mil hectares, com famílias dependentes financeiramente da atividade.
O município de Canguçu também é relevante, com uma produção mais pulverizada entre as famílias. Mas as sementes são geradas em Erval, Pedras Altas, Hulha Negra e Candiota. O ciclo da cultura começa de abril a junho, a colheita ocorre entre novembro e dezembro e a comercialização de dezembro a fevereiro.
O perfil do produtor é familiar, que aproveita um hectare até a, eventualmente, 10 hectares, mas o mais comum é entre um ou dois hectares. Já a mecanização é bastante presente. “Todo preparo do solo é mecânico, com trator”, conta Demenech. “Eu trabalhei em São José do Norte nos anos 1990. Era um trator a cada 20, 30 produtores. Hoje em dia não é incomum que cada um tenha o seu”, descreve.
“Dos anos 2010 para cá, com as políticas de crédito, se conseguiu comprar mais maquinário. Então, a fase de preparo do solo tem sido através de implementos e equipamentos mecânicos. Tipo trator e arados, grades, canteirador. E a fase de semeadura e transplante é manual”, complementa.
Outra mudança na atividade é a predominância de cultivares de ciclo mais curto para o médio, por uma questão comercial. “Com o advento da importação de cebola da Argentina, por exemplo, que entra (no Estado) a partir de fevereiro, março, o pessoal então passou a plantar variedades de ciclo mais precoce, médio e não tão tardio. Por quê? Para poder colher e vender antes da chegada da cebola Argentina”, justifica. “E, claro, agora temos concorrência de Santa Catarina, do todo o Brasil”, acrescenta.
“Então, a cebola viaja de acordo com a necessidade. Mas sempre foi uma cebola que foi para todo o Brasil. A tendência é, se houver demanda, ficar mais no Sul, porque em Santa Catarina cresceu muito a produção de cebola, e acredito que esteja mais próximo dos outros centros. Mas ela é de consumo nacional, não só local.”
Ainda sobre mercado, os preços ao produtor se moldam sempre conforme a conjuntura nacional e internacional.
“No ano passado foi uma supersafra brasileira. A nossa cebola foi bem produtiva e de qualidade, mas de preço baixo. Foram duas safras em sequência de preço baixo”, conta Demenech.
Sem sucessor
O produtor de cebola há mais de meio século, desde a infância, Rui Lemos, 65 anos, enfrenta uma circunstância muito comum na agricultura familiar: não terá sucessor. O agricultor de Tavares começou a produzir cebola aos 13, 14 anos, acompanhando os pais.
Mas sua única filha já está em outra área, no meio urbano, e a neta também seguirá outra profissão. “Enquanto eu puder vou trabalhando agricultura, até completar 70 anos. Após, vou trabalhar pecuária, que é bem mais prático. E quando eu deixar de existir, (a propriedade) provavelmente vai ser vendida pelos sucessores, por não saberem lidar com a terra”, revela.
“Na nossa região esta é a realidade 80% das famílias.” Lemos hoje mantém os 2 a 3 hectares de produção com o apoio da esposa, Vera Ruth, e também cultiva milho, feijão, mandioca e batata-doce, ainda que a cebola seja a principal renda.
A comercialização se dá em mercados locais, mas o maior volume é destinado a Porto Alegre, São Paulo, Minas Gerais e até ao Nordeste. As duas recentes safras não deram retorno econômico. A de 2024 enfrentou os problemas das chuvas, com frustração de colheita.
Então, segundo interpretação de Lemos, agricultores de outras regiões brasileiras, imaginando uma produção gaúcha menor, ampliaram as áreas de olho na valorização dos preços. Muitos que nem mais plantavam há cinco ou dez anos, retornaram para a atividade.
Apesar de tudo, Lemos diz que não desanima. “A gente já passou por crises semelhantes. Como eu tenho muitos anos (de experiência) de lavoura de cebola, então a cada 5, 7 anos acontece uma crise”, relata.
Conforme ele, sempre ocorre a mesma situação: em anos de baixa produção, o preço melhora e, então, no ano seguinte a área é ampliada. E se o clima colabora, como consequência a grande colheita derruba as cotações. Ele projeta um redução de área entre 5% e 15% nesta safra.
Fonte: Correio do Povo