Diferentes segmentos do agronegócio estão qualificando produtos e incrementando a renda, a partir do conhecimento e da singularidade

Foto : Laticínios Pipo / Divulgação / CP
Patrícia Feiten
Boa parte das agroindústrias existentes no Rio Grande do Sul é voltada ao processamento de derivados de leite, como queijos artesanais. Esse segmento, que prosperou principalmente na região da Serra como um legado da imigração italiana, tem ganhado notoriedade nos últimos anos graças à diversidade e à qualidade de sabores oferecidos, colocando os produtores do Estado na rota das queijarias laureadas em concursos de alimentos nacionais prestigiados. Na 8ª edição do Prêmio Queijo Brasil, realizada em Blumenau (SC) em 2025, por exemplo, mais de 70 queijos gaúchos receberam distinções.
O reconhecimento reflete a habilidade dos negócios familiares em desenvolver produtos em que os consumidores possam perceber algo de especial. “O Brasil está deixando de olhar só Minas Gerais como referência (em bons queijos), a gente está ali ‘cutucando’, para mostrar que temos queijos diferenciados aqui e com tradição também”, diz Aline Balbinoto, especialista em Leite e Derivados do Sebrae-RS. A instituição auxilia agroindústrias a montar planos de negócios no segmento, que incluem desde a melhoria de embalagens até adequações de produtos para acessar novos mercados.
Um dos pilares desses projetos, explica Aline, é identificar as queijarias gaúchas com potencial para solicitar o chamado Selo Arte, certificação federal criada em 2018 para atestar que um alimento de origem animal foi elaborado de forma artesanal, possibilitando sua comercialização em todo o país. “Então, o produto que antes era vendido só no município eu consigo enviar para outros estados. Isso é uma etapa importante para agregar valor”, destaca Aline. Segundo a especialista, ao exibir a distinção nos alimentos, transmite-se ao consumidor a ideia de que há uma história por trás daquele item.
“Existe um enorme potencial para correr atrás desses selos, considerando a qualidade desses produtos (do RS)”, diz Aline.
Situada em Nova Roma do Sul, a Laticínios Pipo é uma das agroindústrias que se destacaram nessa produção elevada à categoria de arte. Especializada em queijos coloniais e versões temperadas do alimento, a empresa tem no currículo várias premiações, entre as quais medalhas de ouro para o seu queijo Pipo e um queijo coalho, além das de prata para o queijo colonial Vô Adelino, seu campeão de vendas, e a versão com erva-mate, todas recebidas no Prêmio Queijo Brasil do ano passado. Na mesma competição, o queijo Pipo foi escolhido como um dos 10 melhores do país.
Na liderança da queijaria há cinco anos, o pecuarista Natal Comin diz que essas láureas e o Selo Arte, já estampado em dois dos seus queijos, deram visibilidade à agroindústria e abriram novos canais de vendas. Para Comin, as conquistas são resultado de investimentos feitos na qualidade do leite e no aprimoramento de uma bem-sucedida receita de família. O produtor conta que os pais criaram a agroindústria em uma época de queda dos preços do leite como alternativa para se manterem no meio rural.
“Acabaram perdendo um bom percentual do tambo, vendendo para pagar dívidas. Sobraram algumas vaquinhas, e eles começaram a produção de queijo de forma artesanal, aí foi se refazendo aos poucos o tambo”, relata.
Com uma propriedade de 16 hectares, Comin mantém 60 vacas das raças Holandesa e Jersey, sendo 40 atualmente em lactação. O rebanho produz de 700 a 1 mil litros de leite por dia, volume usado na elaboração de 3.750 quilos de queijo por mês. Além de duas décadas de investimento em genética animal com foco nesse tipo de alimento, Comin destaca o empenho da família para inovar no universo queijeiro. A linha de queijos coloniais da marca inclui, por exemplo, queijos temperados com chimichurri, tomate seco e ao vinho.
“A gente veio trabalhando com maturações diferentes. Também desenvolvemos o nosso próprio fermento, que é a base de toda a nossa linha”, detalha Comin. No caso do queijo Pipo, que sai da fábrica com preço de R$ 98 o quilo, é preciso aguardar 120 dias para obter a textura e o sabor ideais, o que justifica a escala limitada: são no máximo 15 peças por mês. “Ainda não temos espaço para fazer maturação dele em (grande) volume”, diz Comin.
Destaques no mercado
A trajetória da queijaria ilustra como diferentes segmentos do agronegócio são capazes de transformar os recursos do campo em produtos de alto valor agregado. De carnes certificadas de alto padrão a queijos artesanais, sucos orgânicos e doces refinados, são inúmeras as histórias de empreendedores rurais que se destacaram no mercado ao aperfeiçoar uma vocação familiar ou criar algo singular. “As cachaçarias e vinícolas são exemplos clássicos (de agroindústrias) que começaram pequenas nas nossas feiras e hoje estão inclusive exportando”, diz o presidente da Fetag-RS, Eugênio Zanetti.
Ele observa que, no caso dos pequenos produtores, a industrialização pode ser a saída para a sobrevivência das propriedades, frequentemente impactadas por problemas climáticos e safras frustradas.
“A agricultura familiar não tem como produzir commodities. Por exemplo, na produção de leite, 95% dos produtores têm até 20 hectares de terra. Se eles não pensarem em alternativas, cada vez mais vão ser excluídos. As agroindústrias são exemplos muito positivos no sentido de agregação de valor”, enfatiza Zanetti.
Um apoio importante à diversificação da renda na agropecuária com alta qualidade vem da Emater/RS-Ascar. Nesse cenário, o presidente da empresa de assistência técnica, Claudinei Baldissera, destaca o papel impulsionador do Programa Estadual de Agroindústria Familiar (Peaf), que hoje inclui mais de 2 mil indústrias. “O programa é o guardião de um grande patrimônio do Estado do Rio Grande do Sul. Muitas vezes, as agroindústrias são forjadas em cima de uma história familiar, guardam uma vocação, uma culinária dos antepassados”, afirma Baldissera.
Segundo o dirigente, muito do que se vê hoje nesses negócios rurais nasce nos centros de treinamento da Emater/RS-Ascar, que oferece cursos de capacitação a produtores em todas as regiões do Estado. Os conteúdos cobrem desde boas práticas de fabricação, processamento de laticínios e frutas até empreendedorismo para jovens, tema considerado fundamental para garantir a longevidade das agroindústrias criadas. “Muitos jovens estão tocando (as empresas) junto com os pais desde a origem. Quando aquele estabelecimento consegue ver uma continuidade com a presença do jovem, vem a nova estampa, a nova rotulagem, o desafio para buscar um novo mercado, a apresentação em mídias sociais”, exemplifica Baldissera.
As agroindústrias de lácteos gaúchas também brilham no mercado das guloseimas refinadas. Após 30 anos atuando na pecuária leiteira, o empreendedor Arthur Fernando Bordignon Filho decidiu deixar a atividade que desenvolvia na fazenda dos pais, no município de Uruguaiana, para se dedicar à produção de doce de leite artesanal. Ele queria passar mais tempo com a esposa, Cibele Rotta Bordignon, e os filhos, que moravam na zona urbana, e transformar em negócio rentável a paixão pela iguaria reconhecida como um símbolo da culinária dos vizinhos Uruguai e Argentina. Sob essas duas referências de alta qualidade, mas com o propósito de criar um produto autêntico, que os visitantes da cidade pudessem levar como souvenir, testou inúmeras receitas até chegar ao doce Pala do Sul.
“Todos os uruguaianenses consomem o doce de leite argentino. Se funcionasse aqui na minha cidade, eu não teria dúvida de que iria funcionar no resto do Brasil”, afirma Bordignon Filho, que em 2019 estabeleceu uma pequena agroindústria.
A matéria-prima, explica, é fornecida por um produtor parceiro na região. Com a boa aceitação do produto no mercado local, a fama da marca foi ultrapassando as fronteiras gaúchas. Pessoas que haviam experimentado ou sido presenteadas com o doce ligavam para o empreendedor para saber como comprá-lo.
Motivado pelas sugestões de clientes de outros estados, o empresário lançou versões voltadas ao segmento gourmet – o doce de leite com flor de sal (sal marinho nobre) do Rio Grande do Norte e a versão contendo nibs (pedaços de sementes) de cacau do sul baiano, ideia que ele credita à esposa Cibele. “O mercado brasileiro é gigante e soberano, a gente teve de atender. Ela disse: “Vamos misturar no doce de leite, vamos fazer uma embalagem bacana e isso vai rodar. Dito e feito, está tendo um sucesso bem grande”, comemora.
Desde 2021, os doces Pala do Sul levam prêmios no concurso anual da Associação Gaúcha de Laticinistas e Laticínios (AGL). Atualmente, o casal produz por ano 2 mil quilos de doce, apresentados em potes de 330 gramas e 55 gramas – a embalagem menor, segundo Bordignon Filho, foi criada para abastecer clientes que preparam cestas personalizadas para presentes. As vendas são feitas de forma direta, pelo Whatsapp.
Segundo o empreendedor, a agroindústria também oferece uma versão de doce leite “corporativo”, voltada a empresas que desejam presentear colaboradores e a eventos especiais.
“Para agregar ainda mais valor ao produto, bolamos caixas com a nossa marca, o que também está dando um excelente resultado”, afirma ele, que já pensa em ampliar a agroindústria.
Por muito tempo, a brasileiríssima cachaça foi estigmatizada como produto barato e de pouca qualidade. Uma rápida pesquisa on-line, porém, prova que essa imagem ficou para trás. Em sites de e-commerce, apreciadores da bebida podem encontrar desde garrafas por R$ 38 até rótulos com valor de cinco dígitos, como a edição limitada envelhecida desde 2000 em barris de carvalho e bálsamo e vendida em uma embalagem de vidro com um diamante incrustado, da destilaria Weber Haus, de Ivoti. Fundada há mais de sete décadas como um pequeno negócio familiar, a empresa não apenas inseriu a cachaça no segmento premium, como a levou a 32 países.
Descendente de imigrantes alemães que chegaram ao Rio Grande do Sul em 1824, o empresário Evandro Weber conta que seus antepassados trouxeram do país natal o método do schnaps, uma aguardente feita com batata-inglesa, e passaram a produzir a bebida com cana-de-açúcar. A produção era negociada com os chamados tropeiros, homens que percorriam longas distâncias conduzindo animais e transportando mercadorias. “Grana não tinha, mas tinha um produto. Então, iam lá por onde passavam os tropeiros, que tinham sal e outras coisas que a família não plantava, trocavam a cachaça por essas mercadorias. E isso foi durante um século”, diz Evandro.
A cachaçaria foi formalizada em 1948, sob o nome de Caninha Primavera. Na época, o avô de Evandro, José Weber, levava o produto em uma carroça puxada por quatro mulas para vender nas cidades de Dois Irmãos e Novo Hamburgo. No início da década de 2000, Evandro e as irmãs assumiram a empresa, mudaram o nome da marca e turbinaram o negócio. “Nós já fazíamos as feiras da agricultura familiar, fazíamos cursos de bom atendimento ao turismo, boas práticas de fabricação”, conta o empresário. Desde então, eles adotaram conceitos de sustentabilidade, como uso de energia solar e aproveitamento de resíduos, e conquistaram duas chancelas de peso: o certificado de qualidade da cachaça, iniciativa do Inmetro e do Sebrae, e o de orgânico para os seus canaviais.
Com a participação em feiras internacionais desde 2007, a empresa ingressou no mercado externo. Evandro lembra que, em 2013, a destilaria foi um das empresas escolhidas para o projeto Seleção Brasileira de Alimentos, uma ação da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) para promover os produtos brasileiros no exterior até a Copa do Mundo do ano seguinte. “(Éramos) a única a única empresa de pequeno porte e que estava na agricultura familiar”, afirma Evandro, que atualmente exporta 28% da produção. No ano passado, a Weber Haus processou 485 mil litros de bebidas alcoólicas. A marca já recebeu mais de 180 prêmios.
Para o casal Willian Rada da Rocha e Maria Helena da Rocha, a produção de alimentos saudáveis apontou não apenas o caminho de retorno às origens agrícolas, mas também uma oportunidade de se diferenciar no mercado. Filhos de agricultores, eles se conheceram em Porto Alegre e já consumiam produtos orgânicos. No início dos anos 1990, impressionados com a vocação do Vale do Caí para a citricultura, compraram uma área de 14 hectares em Pareci Novo e decidiram apostar no cultivo sem agrotóxicos. “A propriedade estava abandonada havia sete anos. Mas tinha bergamoteiras plantadas, produzindo, no meio do brejo. Aquilo nos chamou atenção”, conta Willian. Hoje, eles têm 36 hectares de pomares, onde produzem 12 variedades de frutíferas, como bergamota, laranja, limão, figo e melancia.
Incentivados por uma amiga, eles decidiram capitalizar o talento de Maria Helena na elaboração de chimia de bergamota e passaram a vender a iguaria típica alemã em uma feira ecológica em Porto Alegre. “Fizemos meia dúzia de vidrinhos. Levamos para a feira, na mesma hora vendeu tudo, e foi aumentando. Em 1997, nós já tínhamos produzido 3 mil potes de chimia e 500 garrafas de suco de bergamota”, recorda Willian.
Diante da alta demanda, o casal criou em 1998 a agroindústria Novo Citrus Produção Ecológica, que produz em torno de 30 itens, entre geleias, sucos integrais, biomassa de banana-verde e molho de tomate. Todos eles exibem o selo de orgânico, certificação obtida pela empresa em 2004, logo após a publicação da lei federal específica para esse segmento. O líder de vendas, destinado a supermercados, restaurantes e lojas especializadas, é o suco de tangerina, um dos 50 produtos destacados no Guia Sabores Únicos do RS lançado pelo Sebrae-RS no final do ano passado. Neste ano, Willian e Maria Helena esperam produzir 50 mil litros da bebida – a colheita da bergamota, que ocorre de maio a setembro, é projetada em 4 mil caixas das variedades Caí, Pareci e Montenegrina.
Método diferenciado
Além da origem em um pomar orgânico, o fruticultor atribui o sucesso do item ao método diferenciado da Novo Citrus, que atualmente ocupa 711 metros quadrados. Técnico em mecânica e automação industrial, ele mesmo projetou e construiu seu equipamento de pasteurização, processo térmico que prolonga a validade do alimento sem comprometer o sabor, para adaptá-lo às dimensões da agroindústria.
“Não existem equipamentos para indústria pequena. São coisas muito grandes e caras. Então, a gente desenvolveu um processo muito rápido que garante a qualidade do produto”, afirma Willian.
Outra parte importante do valor agregado à marca vem do cuidado com o meio ambiente. Segundo Willian, a propriedade adota práticas sustentáveis, como uso de energia solar, tratamento de efluentes por zona de raízes e reaproveitamento de resíduos sólidos do processo industrial. “São várias coisas que vão se somando, e o resultado final disso é uma bergamota madura, bonita, que vai para a nossa agroindústria e (a partir) daí continua esse cuidado”, destaca. O respeito à natureza também ganha forma em projetos de turismo ecológico, nos quais o casal abre a propriedade a grupos de visitantes para trilhas e atividades de educação ambiental.
Azeite gaúcho ganha espaço nacional
Mesmo longe do Mediterrâneo, produtores brasileiros de azeite de oliva vêm mostrando que é possível rivalizar com os rótulos imponentes procedentes de países como Espanha, Portugal e Itália. Nos últimos anos, marcas nacionais do alimento passaram a figurar em rankings e premiações internacionais, aumentando o interesse em torno da olivicultura. No Rio Grande do Sul, a colheita das azeitonas está na reta final, e o Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) estima que a produção chegue a 800 mil litros de azeite neste ano. À frente de uma propriedade no município de Pedras Altas, a dentista Márcia Bueno Pinto espera colher mais de 18 toneladas do fruto e produzir 2 mil litros do seu azeite extravirgem Corticeira31, batizado com o nome da fazenda.
A colheita, diz Márcia, vai das 6h30min às 13h30min. Tudo feito manualmente, para preservar a integridade das azeitonas. O processamento ocorre em uma agroindústria parceira localizada a 40 quilômetros da fazenda, onde o azeite é envasado em garrafas pequenas, de 250 ml, o que ajuda a evitar a perda da qualidade sensorial com o tempo após aberto. Professora aposentada da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), Márcia diz que decidiu investir na atividade em parceria com a prima Salete Canto Bueno e o marido desta, Francisco Molina, após conhecer um olival no Rio Grande do Sul.
“Começamos a plantar no final de 2018, início de 2019. Em 2022, colhemos 700 quilos e já começamos a fazer azeite. Foram poucas garrafas, mas vendemos tudo”, afirma.
Dos 63 hectares da propriedade herdada por ela dos avós, 18 hectares são ocupados por oliveiras. O pomar concentra 5,4 mil pés da frutífera, das variedades arbequina, coratina, frantoio, picual e koroneiki. O azeite resultante do olival é comercializado em feiras pelo país e casas especializadas – na safra passada, era vendido a esses clientes a R$ 55 a unidade. “Nossa garrafa é importada, o Brasil não produz garrafa escura. Temos um custo muito alto. Além disso, colhemos a azeitona ainda verde, então o rendimento é muito baixo. Essa é uma característica que justifica o alto valor que o nosso produto brasileiro tem”, observa Márcia.
Em maio de 2025, ela levou um dos azeites de sua marca a uma degustação técnica na Expoliva, maior evento internacional do setor, realizado em Jaén, no sul da Espanha. A olivicultora, porém, não tem planos de ampliar o olival. “O melhor é manter (a colheita) manual. Não se pensa em aumentar justamente para conseguir manter esse padrão e essa qualidade que a gente deseja”, afirma.
Fonte: Correio do Povo