
O que levou o Judiciário a conceder os 100 mandados de prisão usados na mais sangrenta operação policial já realizada no Brasil e que deixou pelo menos 121 mortos no Rio de Janeiro esta semana? Uma investigação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Civil fluminense, que devassa o cotidiano das lideranças da facção Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha, Zona Norte carioca. O inquérito detalha uso cotidiano de torturas e execuções para consolidar domínio do CV sobre uma área em que residem cerca de 100 mil pessoas, além de lavar dinheiro em lojas, carros roubados e casas de luxo nas próprias comunidades. Há abundância de provas, inclusive vídeos gravados pelos próprios criminosos enquanto cometem violência contra subordinados ou inimigos.
As imagens levaram o juiz Leonardo Rodrigues da Silva Picanço a transformar em réus 69 moradores dos dois complexos de comunidades carentes dominados pelo CV. A decisão judicial, divulgada pelo jornal Estado de S.Paulo e obtida pelo colunista, detalha, em 35 páginas de letras miúdas, uma série de crimes graves que seriam encabeçados pela quadrilha de Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso (chefe do tráfico na região e apontado como principal liderança em ascensão do CV em todo o Rio de Janeiro). Entre os delitos apontados, aquisição e uso de armas de guerra, venda intensiva de entorpecentes em centenas de bocas de fumo e, mais grave ainda, tortura e assassinato de diversas pessoas – colaboradores que caíram em desgraça ou integrantes de outras facções aprisionados após confrontos. Doca é suspeito de ordenar ou autorizar mais de 100 homicídios. Um dos casos é o de três médicos executados por engano na Barra da Tijuca, porque um deles foi confundido com um miliciano (ex-policial corrupto).
Uma das provas que levaram o magistrado a decretar as prisões é um vídeo no qual um “tribunal do tráfico” liderado por Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, o BMW, julga um rapaz suspeito de repassar informações para uma milícia formada por policiais corruptos. O homem, algemado, é amarrado por correntes a um carro e arrastado, para confessar a delação. Ele pede perdão a BMW, que debocha da situação do torturado. A cena é transmitida por WhatsApp para outra liderança da facção no Complexo da Penha, Carlos Costa Neves, o Gardenal. “O ‘BMW’ faz piada do sofrimento alheio, debochando da vítima agonizante”, detalha o juiz, ao justificar a necessidade de prisão dos dois chefes do crime.
A sessão de tortura aconteceu na comunidade Gardênia Azul, que era dominada por milicianos e foi conquistada pelo CV após diversos tiroteios. A filmagem está anexada no inquérito policial. Homicídios e torturas praticadas pelo grupo de Doca também foram documentadas no Quitungo, bairro próximo à Penha e alvo de disputa entre a facção e outro grupo rival, o Terceiro Comando Puro (TCP). O Comando Vermelho teria oferecido recompensa para quem matasse seus inimigos.
Outra barbárie documentada foi cometida por Fagner Campos Marinho, o Bafo.
“A crueldade dele é ressaltada pela sua atuação em tortura de indivíduo amarrado e ensanguentado. Fagner indaga se a vítima ‘quer morrer logo’, e o indivíduo, possivelmente pela exaustão e crueldade da tortura recebida, balbucia, parecendo aceitar a sua execução, como forma de interromper o sofrimento”, descreve o juiz Picanço.
BMW, Gardenal e Bafo tiveram a prisão preventiva decretada por tortura (crime hediondo) e associação para o tráfico de drogas. As prisões foram determinadas em abril, mas não era fácil para os policiais civis cumpri-las. Foram meses de investigações sobre o paradeiro dos acusados, infiltrações de agentes nas comunidades, monitoramento de celulares e, por fim, requisição de efetivos para realizar a ocupação das duas regiões dominadas pelo CV. A operação foi desencadeada com ajuda de grupamentos de elite das polícias Civil e Militar. Foram apreendidas na ação 118 armas (91 fuzis, 26 pistolas e 1 revólver), 14 artefatos explosivos, centenas carregadores e milhares de munições. Curiosamente, Doca, BMW e Gardenal, os três principais alvos dos mandados judiciais, conseguiram fugir.